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  Home - Poesias - Crônica da Sexta: “Cadê Amarildo?”
 

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 Marcelo Torres

 
 
Crônica da Sexta: “Cadê Amarildo?”
11 de Agosto de 2013 19:30

O mundo, outro dia, indagava “Onde está Wally?” Wally era um guri e estava em livrinhos infantis, sempre de gorro, óculos e bengala. Depois, cá no Brasil, todo mundo trocadilhava “Onde está Waly?”, em alusão a Waly Salomão, poeta e letrista baiano que há dez anos partiu para a última morada.

Antes, porém, um outro poeta baiano já indagava em suas Vozes d’África:  “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes? Embuçados nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?”

No regime militar - que hoje alguns querem de volta - as perguntas eram: Onde está Vladimir Herzog? Onde está Honestino Guimarães? Estavam presos, para serem torturados, mortos e dados como desaparecidos. E nos porões, os gritos ao infinito: “Deus, ó Deus! Onde estás que não respondes?”
 
Até que chegou 2009, e a pergunta que parou o Brasil foi “Onde está Belchior?” O cantor – que é apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco - estava no Uruguai, mais angustiado que o goleiro na hora do gol, fugindo do mundo e dos credores.

Hoje, a pergunta que toma conta do Brasil é: “Onde está Amarildo?”. Deu na Folha, no Globo, no Estadão. O caso conseguiu unir duas inimigas - Argentina e Inglaterra. “Dónde está Amarildo?”, pergunta o Clarin. “Where’s Amarildo?”, quer saber o Financial Times.

O desaparecido da vez é o pedreiro Amarildo Dias de Souza, bisneto de escrava, morador da favela da Rocinha, Rio de Janeiro. No último dia 14 de julho, a polícia o pegou em casa, levou preso – sem se saber o motivo – e nunca mais a família viu Amarildo.

Na recente visita ao Brasil, o papa Francisco também foi destinatário da pergunta. Na sua arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro, dentro do papamóvel, o sumo pontífice deparou-se com um letreiro luminoso, projetado no alto de um prédio, no qual se lia: “Papa, cadê Amarildo?”

Não se sabe qual foi a reposta do santo homem, se foi “Non lo so, fratelli” ou “No sé, hermanos”. Com seu humor carismático, não é de se duvidar que ele tenha dito: “Pergunta ali no Posto Ipiranga”. Certo, porém, é que ele não pediu ajuda aos universitários, isso não.

E nos dias em que o papa estava no Rio, eu fazia uma visita à terrinha. Em outros tempos, quando o Junco era um lugar “sem rádio e sem notícia das terras civilizadas”, seria inimaginável que algo assim chegasse por lá. Hoje, contudo, as parabólicas colocam o Junco antenado com o mundo. E as dezenas de “lan houses” deixam o lugar ligado no Facebook. 

Com o Junco evoluído desse jeito, para mim não seria nenhuma surpresa se alguém tocasse nesses assuntos - era até de se esperar. Na visita anterior, em fevereiro, eu já havia lido uma pichação na parede de um templo com a frase “Feliciano não me representa”.

Eu mal chegara e meu irmão Arízio me puxou pelo braço para uma entrevista repentina, ao vivo, na Rádio Felicidade, onde ele apresenta um programa de músicas antigas. E lá fomos: entrevista transcorrendo bem, ele perguntava, eu respondia, até que ele indagou: “Onde está Amarildo?”

Fiquei surpreso com a pergunta, pois achava que o mano – um tipo avesso às tecnologias, não tendo Facebook, nem celular, nem computador -, achava que ele não estivesse acompanhando o caso Amarildo, que é mais repercutido nas redes sociais. 

Ora, Arízio é um saudosista juramentado. Para ele, não houve cantor como Ataulfo Alves, Amélia é que era música de verdade e seleção foi a de 1962. Falava de Gilmar, Didi, Garrincha, Vavá, Zagalo, Pelé e... Amarildo.

Ali na entrevista, eu não percebi, mas o Amarildo por quem ele perguntava não era o jogador que substituiu Pelé e virou herói. Nem era o pedreiro da Rocinha que virou mártir. Ele perguntava era por Amarildo de Alfrinho, que,assim como eu, nasceu no Junco e mora/trabalha em Brasília.

Quando ele perguntou “Onde está Amarildo?”, eu respondi de primeira: “Está morto”. Arízio ficou retesado, os olhos esbugalhados, sobrancelhas eriçadas, a testa franzida. “Amarildo foi preso, torturado e assassinado”, completei.

Pronto! Foi aquele segundo de silêncio fúnebre. Arízio arregalava  os olhos, e eu, sem saber, parecia um coração de pedra, que anunciava friamente a morte trágica de um amigo e conterrâneo.

- Como é a história? - retrucou, com a voz rouca, a cara de velório. – Você tá falando sério ou tá brincando com Dr. Arízio? [ele sempre se refere a si mesmo na terceira pessoa e com o título de “doutor”]. 

- É sério, muito sério, seriíssimo.  

- Mas o que foi que ele fez? Por que prenderam ele? 

- A polícia o acusava de tráfico de...

- Não, não, não. Peralá, José Marcelo [quando fica zangado comigo, ele me chama José Marcelo], a entrevista é séria, não brinca com isso, não! Amarildo não era traficante...   

- Eu também acho, mas polícia é polícia: prendeu, torturou, matou e fez o corpo desaparecer.

- Mas ninguém tá sabendo disso! Não acredito! Como é que isso ia acontecer e nem a  família ia saber?

- Está na imprensa! Está nas redes sociais. E a família sabe, sim!

- Você tá é louco. Rapaz, eu estava até agorinha com Alfrinho [o pai], ali no bar de Tonho Vieira, ele todo alegre, feliz da vida, falante, contando causos...

Putzzzz...Neste instante caiu a ficha, caiu o mundo, percebi a confusão. Entrevistador e entrevistado haviam se envolvido num enorme mal-entendido. Mais: a essa altura, o telefone da rádio não parava de tocar. Alfrinho, em casa, era só pânico e pranto. E Amarildo, em Brasília, coitado, atendia uma ligação atrás da outra, já pensando em me matar. 
  
- Dr. Arízio [às vezes eu o chamo de “doutor”, para agradá-lo], agora estou vendo que houve um grande mal-entendido. Você perguntou sobre um Amarildo e eu achei que era outro. Você se referiu a Amarildo de Alfrinho, mas eu pensei que você perguntou pelo Amarildo da Rocinha.

- Eu só conheço dois Amarildos: o da seleção e o filho de Alfrinho. O da Rocinha eu não sei quem é.

- Pois é, o jogador Amarildo deve estar treinando algum time por aí. O pedreiro Amarildo está há dias desaparecido. E Amarildo de Alfrinho está vivinho da silva, firme e forte lá em Brasília, já está quase virando ministro... 

- Ah, bom, venha por aí – ele falou, suspirando aliviado e chamando um intervalo. 

Foi neste ponto que eu acabei acordando, assustadíssimo. De tanto ler, ver e ouvir esse “Onde está Amarildo?”, acabei tendo um pesadelo com o dileto amigo Amarildo Saldanha de Oliveira. Tomara que ele, que é da paz e do bem, não se assuste com esse relato. E que leia o texto como uma homenagem. (marcelocronista@gmail.com)