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 Gil Vicente Tavares

 
 
Abandono, a bandana e a República da Banana
13 de Setembro de 2013 10:17

Recentemente, instâncias federal, estadual e municipal ficaram em evidência relacionadas a questões de políticas públicas para a área das artes. O Ministério da Cultura esteve envolvido com a liberação de milhões, através da Lei Rouanet, para um desfile em Paris. A Secretaria de Cultura da Bahia adiou editais, vem atrasando pagamentos e acabou de suspender o Quarta que Dança, praticamente a única ação efetiva para a dança na Bahia.

As redes sociais são um reflexo triste do que nós somos. Sim, nós, eu, você, amigos, conhecidos. A mesma rede que juntou milhões de ideias conflitantes, ou até mesmo ausência de ideias camufladas por frases de efeito que funcionariam aqui ou na Dinamarca, essa mesma rede mostrou o quanto nós somos estúpidos em matéria de política. Vi compartilhamentos absurdos de frases idiotas, equivocadas, preconceituosas, reacionárias, de pessoas que fazem parte de um seleto grupo de “amigos”. Não era João das Coves, Maria Ninguém, eram pessoas que estavam perto de mim por conhecimento, amizade, coisas que poderiam nos aproximar.

Não houve muita grita com a questão do Minc. Apenas alguma crítica, capitaneada pelos antipetistas que ficam, tal qual ficavam os petistas antes de assumir a presidência – e ainda ficam em relação aos estados tucanos –, crítica essa que se perde nesse BAxVI, nesse FLAxFLU inútil de trincheiras radicais e, consequentemente, obtusas.

Quanto à Secult, vez por outra, notadamente quando aperta o bolso, vemos um protesto solto ali, outro acolá, frente às políticas equivocadas, aos atrasos, cancelamentos e adiamentos. A chegada do PT ao governo federal colocou a cultura em evidência, motivou um pensamento sobre políticas culturais, mas tudo isso veio acompanhado de uma ideia de assistencialismo pela cultura. Não era mais interessante uma comunidade indígena poder ver um grande filme. Agora, o grande filme era visto como elitista, como concentrador de recursos, e o que estava valendo é dar câmera pro índio fazer seu próprio filme. Se é bom, ou ruim, não importa. Na verdade, dificilmente é bom, mas se alguém disser isso, muitos dirão que essa análise é pela ótica do colonizador, que é europeizante, ou qualquer desses discursos tolos de uma esquerda falida. A Secult, na Bahia, não firmou uma política de estado, criou um edital chamado setorial que é um balaio de gato, e virou especialista em atrasar recursos. Agora, a moda é adiar, postergar, ou até mesmo suspender, como foi o caso do Quarta que Dança.

A Fundação Gregório de Matos, na esfera municipal, lançou recentemente um edital pífio, querendo contemplar dez linguagens diferentes, cada uma com projetos no valor total de R$30.000 (trinta mil reais), e mostrou-se vencida pela ideia assistencialista que impregnou, como um câncer, as gestões da cultura no país. Passou despercebido, o edital, e o máximo que vi foram algumas comemorações, visto que a FGM era inoperante na gestão passada; então, qualquer ação que viesse seria aplaudida pela carência e preguiça dos artistas em se pensar uma política pública efetiva para as artes. Definitivamente, ninguém mais está preocupado com a Arte, com a qualidade, com o profissionalismo, com a continuidade, com a difusão e produção de obras de valor. Não. Sempre achei que o artista deveria ser o veículo para, através de sua arte, o governo promover bens para o cidadão. Agora, o governo promove esmolas para o artista. Para muito mais artistas. Dividiu-se o bolo e todo mundo agora ganha. Se seu trabalho não tem fôlego, não tem qualidade, não tem continuidade, desdobramento, público, carreira, currículo, nada disso importa. Esses não serão quesitos avaliados pelas comissões e o que importa é distribuir uma verba pulverizada que, como bem sabemos, some no ar.

Li hoje que houve manifestação em Salvador por causa da notícia do desligamento de Bell Marques da banda Chiclete com Banana. Todos que perderam tempo, nas redes sociais, com piadas, discussões e compartilhamento de notícias, mesmo que afirmando detestar a banda e o cantor, não gastaram sequer um décimo do seu tempo discutindo, compartilhando ou comentando notícias sobre o Minc, a Secult e a FGM.

As pessoas, que foram às ruas hoje, protestavam por alguém que meus amigos das redes sociais deram um destaque imenso. Assim como deram a Naldo, Anitta, vários artistas que nunca chegaram a mim porque nunca me interessaram. Perdemos muito tempo falando mal de coisas que não gostamos. Ao contrário do que muitos incautos propalam por aí, eu só critico o que eu gosto. Jamais perderia tempo criticando algo que não me interessasse. Infelizmente, o tempo que se perde criticando uma novela, ou programa de auditório, um artista, poderia ser dedicado a elogiar, divulgar coisas boas. Contudo, se essas pessoas criticam isso, é porque dão audiência a todo o lixo produzido em nosso país.

As pessoas não consomem dança. Consomem pouco teatro, pouca música popular que não seja pra pular ou pra mexer. Instrumental, concerto, nem pensar. Talvez por isso, as notícias desastrosas sobre nossa cultura não sejam interessantes nas redes sociais. Repetimos a cultura de massa, apenas, pro bem ou pro mal. Nessa brincadeira, reforçamos coisas ruins e não batalhamos pra que as políticas mudem, para que uma arte de qualidade tenha força, respeito, valor e lugar ao sol.

As pessoas que foram às ruas, fazer uma manifestação pela saída de Bell Marques, estão ali, também, porque vivem num país que não valoriza outro tipo de arte e cultura. Aquelas pessoas estão ali, de algum modo, porque o dinheiro do país vai pra desfile, porque o Quarta que Dança é cancelado, porque a política do município é distribuir pouco o pouco que tem.

Enquanto nós não nos mobilizamos, nos alienamos e ficamos “no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes” digitando e compartilhando asneiras, a Arte vai sendo massacrada.  Somos culpados e merecemos tudo isso. A alienação e falta de cultura também são de nossa responsabilidade.

Enquanto ficarmos criticando a bandana, o abandono da cultura confirmará que somos a República das(os?) Bananas.