Página Inicial  |  Perfil  |  Equipe  |  Contato  | 
Links

  

redacao.noticia@noticiacapital.com.br
71 9128-9520

 
  Home - Poesias - Fomos ao céu e ao inferno e voltamos
 

Categorias

  Brasil
  Cultura
  Cursos & Concursos
  Dos Blogs & Sites
  Economia
  Educação
  Entrevistas e Reportagens
  Esporte
  Geral
  Internacional
  Mosaico
  Municípios
  Notas
  Opinião
  Politica
  Salvador
  Saúde & Medicina
  Turismo
 

Colunistas

 Agenor Calazans
 Aldo Trípodi
 Alessandra Nascimento
 Gerson Brasil
 Gil Vicente Tavares
 Guto Amoedo
 Kim Niederauer
 Marcelo Torres
 Valter Xéu
 Vitor Carvalho
 

Serviços

  Coelba
  Embasa
  Auxílio a Lista
  Prefeitura de Salvador
  Previdência Social
  Receita Federal
 
COLUNISTAS
 Marcelo Torres

 
 
Fomos ao céu e ao inferno e voltamos
1 de Outubro de 2013 20:04

O principal jogo do campeonato brasileiro no final de semana começaria às 18h30, no Sul, no domingo, entre um clube do G4 e outro do meio da tabela. E esse jogo seria o duelo gaúcho-mineiro entre Inter e Cruzeiro, em Novo Hamburgo.

De fato, a melhor partida começou às 18h30 do domingo, no Sul e foi um duelo entre um clube do G4 e outro do meio da tabela. Só que foi o jogo foi entre o Furacão paranaense e o Leão baiano, na Vila Capanema, em Curitiba.

Antes do jogo, ninguém dava bola para o duelo Atlético e Vitória. Até porque eram favas contadas: invicto em casa, o fortíssimo Furacão passaria por cima do tímido Leão, que até então só rugira alto nos Aflitos (3 a 0 sobre o Náutico) e em São Januário (2 a 1 de virada sobre o Vasco).

Foi “o jogo” do campeonato. Uma partida que, em vez de dois tempos cronológicos de 45 minutos, foi dividido em três tempos psicológicos distintos. E tome-lhe emoção, adrenalina, dramaticidade.

Para completar, um final de matar vitoriosos e derrotados.

Quando o árbitro apitou o início da peleja, o Furacão estava em 4º, com folga de sete pontos no G4. Já o Leão estava em 13º, a seis pontos da Z4.  

 

O primeiro, dos três tempos, foi dos visitantes, que abriram 3 a 0, com Renato Cajá, Ayrton e Dinei.  

 

Na saída para o intervalo, o improvável aconteceu: perdendo por 3 a 0 para um franco atirador, a torcida não vaiou os atletas. Ao contrário, em plena lua de mel com o time, os torcedores aplaudiram, apoiaram, incentivaram – confiando num empate improvável e, quem sabe, numa vitória.

  

Quando começou o segundo tempo, o atacante Marquinhos, do Vitória, cara a cara com o goleiro atleticano, chutou nos pés de Weverton e perdeu a chance de fazer para o Vitória os mesmos 4 a 0 que a Lusa acabara de enfiar no Timão.

 

Aí o Furacão ressurgiu com a força que o colocou entre os melhores do campeonato. E conseguiu algo que estava entre o improvável e o impossível – empatar em 3 a 3, com dois gols de Ederson e um de Roger.

 

O relógio marcava 25 minutos do segundo tempo cronológico. E a Vila Capanema pegava fogo. A torcida vibrava euforicamente nas arquibancadas. Em campo, os atleticanos, embalados e entusiasmados, partiram para o abafa total, uma blitz no campo dos visitantes.

 

A virada iminente – espetacular, gloriosa, histórica - era questão de tempo. E os invictos donos da casa ainda tinham 23 minutos pela frente para dar o golpe de misericórdia.

 

Já o Vitória saíra do céu ao inferno em minutos. A alegria de antes cedeu lugar à angústia. Agora, perdidos em campo, os jogadores estavam abatidos, cansados, atônitos, à beira de uma tragédia.

 

O Vitória parecia antever um novo vexame nacional. À memória do seu torcedor, por mais que não quisesse, vinham cenas de um filme que ele só quer esquecer: no ano passado, pela Série B, o time chegou a colocar 3 a 0 no Goiás, no Serra Dourada, e sofreu uma virada inacreditável.

 

Este escrevinhador, que é Vitória desde outras encarnações e decepções, já tentava imaginar o que seria o resto do domingo após uma nova virada.

 

Como seria a segunda-feira fúnebre? Como cicatrizar uma nova ferida? Como chamaria os confrades para assistir as outras partidas do clube?    

 

E, pior de tudo: como suportar a gozação dos arquirrivais tricolores, que já estavam soltando fogos e fazendo carnaval em Salvador?

 

Na cabeça de um torcedor, não adiantaria se consolar com a lembrança de outros clubes que levaram viradas.

 

Sabe o que se passou na cabeça do torcedor palmeirense ao final da Copa Mercosul de 2000? O Palmeiras enfiava 3 a 0 no Vasco no primeiro tempo, jogando em casa. Até os 40, o alviverde vencia por 3 a 2.

 

O Vasco fez 3 a 3, resultado que, mesmo assim, levaria a decisão para os pênaltis. Mas Romário, no último segundo dos acréscimos, fez o gol da virada espetacular para os vascaínos, que foram campeões.

 

Sabe o que se passou na cabeça dos torcedores do Milan, da Itália, na final da Liga dos Campeões de 2005? O time foi pro vestuário com 3 a 0 sobre o Liverpool e a mão na taça.

 

Na volta, os moços de Liverpool fizeram três gols num intervalo de quinze minutos e levaram a decisão para os pênaltis. Com um lado abatido, por ter cedido o empate, e outro eufórico, por alcançar o improvável, este acabou vencendo aquele nos penais.

 

No último domingo, quando o Furacão empatou, essas coisas pouco importavam para o arredio e desconfiado torcedor do Vitória, que vivia aquele instante como a reviver um pesadelo.

 

O script que se desenhava era: uma vitória retumbante dos donos da casa, protagonistas de toda honra e toda glória, agora e para sempre, enquanto nós ficaríamos com o amargo sabor de outra derrota humilhante.  

 

É o futebol e suas histórias de dramas, fracassos, glórias, angústias...

 

E o improvável aconteceu de novo: o treinador Ney Franco, do Vitória, tirou o maestro Cajá, autor do primeiro gol, e colocou em campo um jovem esquisito, William Henrique, jogador que sequer havia sido relacionado em jogos anteriores.

 

E foi este menino que fez um golaço e acabou por jogar uma ducha de água fria na empolgação atleticana: 4 a 3 para o Vitória. Na sequência, o mesmo moleque traquino cruzou na medida para Ayrton decretar o resultado: 5 a 3 para o Vitória.

 

Para os atleticanos, foi uma quase-virada-espetacular. Os atletas saíram aplaudidos de pé pelos quase 11 mil torcedores.

 

Para nós, torcedores do Vitória, aquele moleque de cabelo espinho-de-fogo, agora passava a ser o “príncipe” William.

 

Após o pesadelo iminente, veio o alívio, a alegria – sofrida, como sempre - de uma vitória para nunca mais esquecer.

 

Para o futebol, uma partida como poucas. O melhor jogo do campeonato até aqui, com oito gols, três tempos e um drama de cinema.

 

Tanto assim que, ao final do jogo, na página deste escrevedor, o escritor paraibano Bráulio Tavares perguntou ao cineasta baiano José Araripe Júnior: “Araripe, estás vivo?”

 

Torcedor do Vitória, Araripe certamente havia “morrido” no gol de cabeça de Roger, mas “ressuscitou” aos pés do “príncipe” William no apagar das luzes.

 

“Voltei”, respondeu o cineasta, para dizer que voltara à vida. “Graças ao desfibrilizador da ambulância que entrou no finalzinho ligado em 220”.

 

Pois é, nós fomos ao céu e ao inferno e voltamos.  

 

Já o cruzeirense Samuel Rosa, da banda Skank, naquela hora estava feliz da vida. Onde quer que estivesse, ele certamente estava cantando: “Que coisa linda é uma partida de futebol”.
------------------------------------------------------------------------------------

Marcelo Torres, jornalista, baiano, morador de Brasília e, claro, torcedor do Vitória.