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COLUNISTAS
 Marcelo Torres

 
 

17 de Outubro de 2013 19:10

Por muitos anos, a carteira agrícola do Banco do Brasil era cheia de fiscais com pendores literários e filosóficos. Eram eles responsáveis pela vistoria de propriedades rurais: iam lá saber se as coisas estavam nos conformes, se o dinheiro havia sido aplicado, se o agricultor cumprira o contrato de crédito, se as garantias estavam em bom estado e coisa e tal.   

 

Além de conhecer as manhas e as manhãs do campo, eles eram pessoas que liam muito e gostavam de escrever textos floreados em seus relatórios de vistoria, para que estes ficassem bonitos e pomposos. Assim, não raro o relato virava uma peça divertidíssima. Para narrar a visita a um açude, por exemplo, teve um fiscal que escreveu bem assim:

 

“Visitei o açude nos fundos da fazenda e, depois de longos e demorados estudos, constatei que o mesmo estava vazio.”

 

Eram comuns os relatos sobre solo, clima, chuva, safra. E foi assim que um deles escreveu: “O tempo castigou a região: o sol acabou com a farinha; e a chuva, com o feijão”. E outro: “O sol castigou o milharal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram”.

 

Às vezes o fiscal chegava ao local de vistoria e não encontrava nem o cliente nem a plantação. E assim narrava: “O mandiocal e seu dono são iguais a lobisomem e saci-pererê: todo mundo fala neles, mas ninguém os vê”.

 

Muitas vezes eles relatavam as dificuldades de acesso aos locais de vistoria, como se vê no seguinte trecho: “Era uma ribanceira tão ribanceada, que, se estivesse chovendo, e eu andasse a cavalo, e o cavalo escorregasse – adeus, fiscal!”  

 

E outro: “Imóvel de difícil acesso; o mato tomou conta de tudo, deixando passagem apenas para animal rasteiro. Sugiro que a próxima vistoria seja feita por um fiscal baixinho”.

 

Para tornar o relato mais rebuscado, eles muitas vezes trocavam as palavras simples por sinônimos difíceis. Em vez de mandioca, por exemplo, escreviam euforbiácea e, no lugar de bananeira, registravam musácea.

 

Então, um dos relatos foi: “A euforbiácea foi substituída pela musácea sem o consentimento e autorização do nosso querido banco”.


Às vezes, após o diagnóstico, o fiscal sugeria alguma medida corretiva. Então, depois que viu tudo errado, o fiscal fez a seguinte recomendação: “Na minha modestíssima opinião, acho melhor o banco suspender o negócio do cliente, para não ter dor de cabeça”.

 

O empréstimo rural possuía uma garantia, que poderia ser o rebanho, a fazenda, a casa da fazenda, a plantação, o trator. O fiscal, então, fazia a vistoria das garantias. Ao vistoriar as garantias, um fiscal escreveu: “As garantias permanecem em perfeito estado de abandono”. Em seguida, fez uma observação: “Trata-se de um cliente que vive bêbado, devendo aos bares e a Deus e ao mundo”.

 

Em outro caso, o produtor colocou um imóvel à venda para saldar débitos, e o fiscal foi lá fazer a vistoria. Na fazenda, foi recebido pela esposa do cliente, e ela informou que ninguém se interessara pela compra. E ele relatou o seguinte: “Fui atendido na fazenda pela mulher do mutuário. Segundo fiquei sabendo, ninguém quer comprá-la e sim explorá-la”.

 

Naquele tempo, havia cliente que desviava o dinheiro do empréstimo. Quando a vistoria aparecia, ele (cliente) colocava o gado do vizinho, para enganar a fiscalização. E um fiscal escreveu: “O gado está gordo e forte, mas não é financiado e sim emprestado, somente para fins de vistoria”.

 

E fez um PS com a seguinte observação: “O filho do fazendeiro está gozando férias na Disney”.

 

Certa vez houve o caso de um produtor cujo negócio desandou e não mais se recuperou. No relatório de vistoria, o fiscal anotou: “A casa de farinha não foi para a frente porque o mutuário deu para trás e nunca mais se levantou”.

 

Teve outro que foi fazer a vistoria de uma máquina elétrica financiada para a execução de serviços agrários. O fiscal escreveu: “A máquina elétrica financiada é toda manual e velha. Fazendeiro financiou a máquina, mas fez todo o trabalho braçalmente e animalmente”.

 

E havia empréstimos para aquisição de vacas, touros e/ou aparelhos de reprodução artificial. Sobre esse tipo de contrato, um relatório dizia o seguinte:

 

“Mutuário adquiriu aparelhagem moderna para executar a inseminação artificial, mas o único reprodutor, um touro holandês, morreu. Diante do exposto, sugiro treinar uma pessoa para tal função”.

 

Desses fiscais poetas, filósofos e loucos, eu conheci apenas um: Miranda, o Mirandinha, que um dia anotou o seguinte: "O devedor é um fingido! Diz que não tem condições de pagar, mas está rico, omitindo dinheiro no colchão".

 

O fato ocorreu na agência Inhambupe, aqui na Bahia, ali perto de Alagoinhas. E os colegas Alda, Gésner, Acácio e Guerrinha ficavam se perguntando: “Oxente, como é que ele sabe que o cliente tá escondendo dinheiro no colchão?”

 

Mirandinha escreveu mais: "Tenho informações fidedignas de que ele (cliente) vai construir uma mansão na cidade e, pasmem, toda feita de tijolinho exposto".

 

Mas seu relatório mais engraçado foi sobre um devedor rural que vivia se escondendo para não pagar ao banco. "Eis um sujeitinho sem caráter”, escreveu, “esta é a quarta vez que eu o visito e ele se esconde”.

Na sequência, relatou as providências adotadas: “Desta feita, não deixei barato: raptei seu rebanho de galináceas - quatro ‘penosas’ ao todo - para quitar uma parte da dívida -, o resto a gente cobra do avalista”.

 

Detalhe: esse “rebanho de galináceas”, que na verdade eram quatro galinhas, foi degustado em churrasco, no final de semana, na AABB de Inhambupe, acompanhado de umas geladas e o velho Miranda contando seus causos.
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(marcelocronista@gmail.com)