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 Gil Vicente Tavares

 
 
A arrogânsia da ignorânsia
25 de Outubro de 2013 11:32

Alta cultura para a classe alta. Já foi assim. A plebe não sabia ler, não tinha acesso a concertos, óperas e obras de arte. As elites guardavam pra si o que de mais sofisticado, complexo e belo poderia haver na arte, enquanto “lá embaixo” a massa ignara, com sua arte popular pulsante, mas artesanal, era tolhida em iguais proporções de todos os direitos elementares para uma vida digna.

Contudo, o declínio dos impérios, dos reinos e das monarquias (e ditaduras – as que, graças a deus, acabaram) foram também a ascensão da burguesia, dos direitos iguais, e prontamente todos reivindicavam o acesso aos bens materiais e imateriais que tanto adornavam a vida das elites.

A arte, quando saiu dos salões da corte, passou a viver na eterna encruzilhada entre manter uma estética apreciada pela elite, e dialogar com um novo público que, por sua ignorância e despreparo, tinha outras exigências e apreciação.

Ademais, a acessibilidade continuava difícil, pois os grandes espetáculos, os livros, tudo era muito caro, havia uma discriminação inerente à obra devido à sua natural elitização. Quando Walter Benjamim escreveu “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, ele, vendo a evolução da indústria, sonhava com os meios de produção em larga escala para difundir entre todas as classes obras que antes eram monopólio apenas de alguns.

Essa era chegou. Hoje em dia, uma pessoa pode baixar a filmografia completa de Federico Fellini em Irecê, ou a discografia completa de Egberto Gismonti em Ibotirama. Contudo, não foi isso que aconteceu. O pedido de Maiakovski (um entusiasmado comunista) – “que se eleve a cultura do povo” – inverteu-se na triste constatação de que a cultura da “classe condutora” se desencantou.

As famílias com mais condições, como se costuma dizer, e que poderiam oferecer uma vasta diversidade cultural e artística a seus rebentos, deseduca ou faz pouco caso da formação cultural dos seus descendentes; muito devido ao fato, também, deles mesmos já fazerem parte do declínio da estética e da ética como princípios básicos de construção de uma personalidade.

Além do desmantelamento de uma provável elite cultural, com acesso e formação para as grandes obras de arte mais sofisticadas e complexas, houve o processo de preconceito para com essas obras por parte dos que antes não tinham acesso, e pelos que, decadentes, passaram a não mais se interessar por isso. Finkielkraut, Ortega y Gasset e muitos outros autores vão analisar o declínio do pensamento, da sofisticação, e o domínio absoluto do gosto médio; portanto, medíocre. Há, de forma cada vez mais evidente, uma demonização de certas obras de arte e literárias, com adjetivações como cult, cabeção, papo-cabeça, que poderiam ser traduzidas como: obras chatas, ininteligíveis, desagradavelmente intangíveis e rebuscadamente repulsivas.

Há algo que, aliado a isso, transforma a situação atual numa ditadura das massas. Vamos a um fictício exemplo prático:

Numa mesa de bar, uma única pessoa gosta de Tarkovski, Mahler e Tchekhov. Ela é chamada pelos outros de metida, chata, cabeção, e, na sequência, suas preferências são tidas como chatas, cabeçonas, há uma natural consideração de que aquelas artes são coisas esnobes e enfadonhas e é natural não gostar, é, mais do que aceitável, lógica uma rejeição a esses autores e obras. A situação é aceita numa boa.

Mudemos a situação e pensemos que essa mesma única pessoa resolve dizer, apenas, que não gosta de seriados de TV, nem de Almodóvar e tampouco de Marisa Monte. A ela, não é dado o direito de não gostar do senso comum. Essa pessoa será, novamente, estigmatizada como chata, cabeção, metida. A situação é aceita numa boa.

Em suma: todos têm o direito de ridicularizar o gosto do diferente, e o diferente não tem o direito de desgostar das preferências da maioria. Não precisa um raciocínio muito apurado para perceber-se nessa atitude algo opressor e ditatorial. Talvez os títulos dos livros de Finkielkraut e Ortega y Gasset que tratam do assunto possam dar nome à situação: A derrota do pensamento, e A rebelião das massas.

Com a democratização do acesso, o conceito de alta cultura e baixa cultura foi pro espaço. A bem da verdade, na prática ele nunca existiu de fato. Contudo, a impossibilidade de acesso a bens materiais e imateriais por parte da maioria fazia com que esta não pudesse dialogar com certas estéticas, ao contrário dos artistas e escritores ligados às elites, sempre dialogando, inspirando-se e até mesmo adaptando o popular, a matéria bruta, a autêntica identidade de seus povos e culturas.

Há sofisticação nas convenções rítmicas de uma banda de pagode formada por meninos da periferia, assim como pode haver pobreza estética em pretensos sofisticados espetáculos de dança contemporânea, por exemplo. Tudo isso porque grandes gênios, seguidamente, foram misturando o erudito e o popular, desde sempre, e cada vez mais rompendo fronteiras em busca de uma arte que pudesse ser sofisticada e popular, erudita e acessível; e daí resultaram os grandes e os pequenos, os bons e os ruins, independente das artes, formações e nichos sociais e econômicos.

O problema não está nas obras, defenderei sempre. O problema está na formação cultural e educacional, na falta de interpretação, sensibilização e leitura do homem contemporâneo, e numa resistência estúpida aos caminhos diversos da criação artística.

Acredito que um engenheiro elétrico possa ler e gostar de Kafka. Creio que um porteiro pode ouvir e gostar de Villa-Lobos. Insisto que um gari e um veterinário podem assistir e gostar de diversos dramaturgos, encenadores, coreógrafos.

O problema é que as pessoas estão tão oprimidas por sua mediocridade que elas mesmas não acreditam, não creem ou não insistem que podem ultrapassar a barreira do óbvio, do que é teleguiado pela grande mídia e pelo gosto comum. Como a melhor defesa é o ataque, e um bicho acuado e inseguro disfere de imediato suas presas ou seu veneno para cima da ameaça, as pessoas atacam o que lhes é pretensamente distante, inacessível, como forma de se fortalecer. A maioria faz isso, e o senso vulgar predomina de forma opressora.

O que muitos não percebem é que se refaz o caminho de volta a uma pretensa elitização da arte. O que antes era inacessível aos olhos e bolsos do cidadão comum, torna-se agora intangível por conta da ignorância do mesmo. Ou pior, por conta da sua arrogância.

Hoje em dia, em Salvador, um dos programas culturais mais baratos é assistir à Orquestra Sinfônica da Bahia. O que seria mais elitista tem a viabilidade mais popular possível. Entretanto, as pessoas não vão. Vão quando tem trilha de filmes de roliúde. É o momento onde a orquestra sai da erudição e chega à cultura de massas, estendendo a mão para as massas. Só que o caminho de volta não acontece. O público não faz o retorno em direção a Bruckner ou Shostakovich e larga a mão da orquestra prontamente.  Parece que a OSBA está correta em tocar o tema de ET e Guerra nas Estrelas, mas se distancia do público quando toca os chatos cabeções Bruckner e Shostakovich. O público que ouve a trilha de Harry Potter não vai querer ouvir Sibelius, e está tudo bem. A massa tem sempre a razão e a orquestra é que está equivocada quando toca um repertório clássico.

Alia-se a isso tudo uma resistência ao desconhecido. Uma apresentação musical de algum cantor popular só se torna boa quando ele canta os sucessos de carreira. Basta cantas inéditas e todos se desinteressam. As pessoas querem se reconhecer naquilo que vão assistir, num exercício de vaidade e comodismo. Não se ouve mais a música, estão todos num grande caraoquê ou jukebox (falo mais sobre isso num próximo artigo onde pretendo falar de João Gilberto, João Bosco e a apreciação da arte e da música).

Há um discurso estabelecido e recorrente que demoniza a arte e a literatura mais complexa e sofisticada e exalta o senso comum, obras mais populares e de fácil digestão. Nada contra. Muito pelo contrário. Os verdadeiros grandes artistas e escritores souberam apreciar e dialogar com todas as manifestações folclóricas e populares, e muitos muniram-se preponderantemente dessas para criar sua obra. Há, vale registrar, por outro lado, o preconceito de pretensos eruditos, pseudo-intelectuais e artistas mofados em relação ao popular, ao sucesso, ao ligeiro, ao simples, ao que mais facilmente chega às pessoas. No “pretensos”, “pseudo” e “mofadas” já estão embutidas as ideias que tenho sobre estes; deve-se separar o joio do trigo acima e abaixo, à esquerda e à direita.

Anseio e tenho sempre a esperança – e esse escrito é uma tentativa de alertar sobre isso – de que a Arte e a Literatura sejam cada vez mais difundidas, em toda sua complexidade, riqueza e beleza. Está tudo mais acessível, as torres de marfim desmoronam aos poucos e a pluralidade de estéticas, belezas e expressões poderiam ser um bálsamo contra esse mundo cada vez mais concreto e sem arte, sem poesia e sem paixão de verdade.

No entanto, todas as conquistas de acessibilidade e de democratização esbarram, agora, na arrogância de pessoas que exaltam sua própria ignorância como o padrão a ser seguido.

Se não se der o pulo do gato, a onça da mediocridade continuará devorando todos e a arte vai perdendo seu espaço, sua força e valor, abandonada de seus mecenas e sem o sustento do público comum.

Ainda há tempo. O caminho pode não ser fácil, mas nem sempre o fácil pode ser o caminho. Abram seu coração à verdadeira beleza, antes que alma se feche na escuridão da obtusidade.
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Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas e diretor artístico do Teatro NU.