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  Home - Poesias - O quinto poder falido, o rei do camarote e a conversa de quinta categoria
 

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 Gil Vicente Tavares

 
 
O quinto poder falido, o rei do camarote e a conversa de quinta categoria
5 de Novembro de 2013 13:32

Os chamados virais da internet são geralmente coisas estúpidas, violentas ou, acima de tudo, idiotas. Sempre foi claro, pra mim, que todas as descobertas e avanços da ciência e da cultura, após um rápido entusiasmo, tornam-se um manche na mão dos poderes.

As redes sociais poderiam ser um quinto poder. Um exemplo disso foi a mobilização às ruas feita através do facebook, majoritariamente. Contudo, a própria mobilização, que começou com o Movimento Passe Livre e tornou-se algo difuso e com diversas interpretações, foi um oásis em meio à enxurrada de tolices e bizarrices que entopem, diariamente, as redes sociais.

Elas podem ser um ambiente de distração e relaxamento? Sim, podem. Não há quem não resista a colocar uma piada, uma frase de efeito, ou compartilhar algo tosco e tolo da rede.

Contudo, há que se pontuar que o tolo e tosco dominaram nossa vida. Seja na música, seja na programação da TV, seja na conversa com conhecidos, a superficialidade e falta de leitura predominam no mundo atual e está cada vez mais difícil, de forma leve, tranquila e sensata, estabelecer-se algum diálogo produtivo com as pessoas. A pintura de Goya, que ilustra esse artigo, por exemplo, passa aos olhos irresponsáveis a ideia de um retrato de uma família real. A tolice e demência retratadas de forma irônica, no quadro, são filigranas às quais não se tem mais predisposição à leitura. A sutileza da percepção está em estado de coma, junto com a interpretação e leitura das coisas.

A consciência crítica também foi pro inferno. Há os odiosos partidários que infestam as redes e as conversas com ofensas e acusações que são tão somente reproduções da imprensa tendenciosa. Cadê que algum petista elogia algo da Veja e algum antipetista elogia algo da Carta Capital? Não, é tudo preto ou branco. E a autonomia do raciocínio tornando-se cinzas. Se todos dizem que algo é bom, aceita-se algo como bom. E se alguém discorda, é ruim. Meu artigo anterior, A arrogânsia da ignorânsia, tenta aprofundar-se um pouquinho mais nisso.  

Ser mais do mesmo tornou-se qualidade. Seguir a tribo, o gueto, a massa tornou-se legitimação da identidade por falta dela. Estão todos protegidos por sua gangue e à espreita para voar no pescoço do primeiro diferente que vacilar, para assim tornar-se motivo de escárnio e chacota.

Fiz-me uma promessa de evitar virais da internet para não mergulhar num mar de possibilidades que não me interessam. Contudo, o facebook de hoje foi tão inundado por coisas relacionadas a um tal rei do camarote, que resolvi pagar pra ver.

O cara aparenta ser um idiota? Sim. Como diversos, com comportamento parecido, que eu conheço e devem estar ridicularizando o rapaz. O cara se esbanja e se esbalda no camarote? Sim. Como muitos que fazem ou adorariam fazê-lo e não podem. Podemos mudar as tribos, e o comportamento do tal rei do camarote é espelhado, com as devidas proporções, pelo comportamento em baladas (odeio esse nome que invadiu Salvador como tudo de ruim que aceitamos absorver) de diversas pessoas que eu conheço.

Se não é a roupa de marca caríssima, é o óculos de aro grosso, vestidos com tênis all-star, calças quadriculadas, bermudas caídas com camisas de time de basquete e bonés, podemos distinguir uniformes de acordo com cada balada, e muitos tentando obter reconhecimento, destaque e sobressalência sobre os demais.

Danças ridículas acontecem em qualquer meio. Assédio e busca de famosos, também. Pegações, sexo em banheiro, conversa sobre quantidade de mulheres, muito do que se vê, ali, pode ser traduzido para diversas situações onde mudam-se os caranguejos, mas a lama continua a mesma.

O comportamento idiota de um aparente idiota mobiliza a rede, a mesma rede composta por pessoas que agem, em suas tribos, de forma parecida, de acordo com suas posses, condições e estágio de entorpecimento. Enquanto isso, há chances desse cara aparecer tentando se corrigir. Há chance desse cara dar entrevistas para alguns dos maiores meios de comunicação. Seu sucesso imediato como provável imbecil poderá ser revertido em celebridade. Diversos comentários, artigos – incluo-me, obviamente, nisso – e montagens estão sendo feitas na internet. Somos responsáveis pelas celebridades que criticamos, pois elas tornam-se célebres, mesmo que pela via negativa, por nossa causa. Ao assistirmos The voice, Big Brother e coisas do tipo, e comentarmos, darmos IBOPE, audiência e destaque aos participantes e aos programas, reforçamos e deixamos em destaque algo que, mesmo sendo criticado, ganha espaço para muita coisa boa que existe por aí.

Um exemplo claro é que, em meio à febre do rei do camarote, o IX Panorama Coisa de Cinema está com uma programação riquíssima a preços populares e ninguém fala nada. Os filmes, debates, retrospectivas, competições de altíssima qualidade são totalmente obnubilados por um assunto idiota, exaltado por muita gente que reclama da falta de opções na cidade, quando elas estão sempre acontecendo e sendo ignoradas, relegadas a segundo plano.

Tudo seria aceitável não fosse uma questão de proporcionalidade. Mantenho esse site a duras penas, sem ganhar nada e ainda gastando para ele existir. Conto com o auxílio luxuoso de pessoas que estão querendo apenas pensar sua cidade, sua cultura, seu mundo, e aceitaram escrever de graça. Assim como meu site, existem tantos outros, melhores, mais complexos, mais ágeis, com mais conteúdo, com mais gabaritados articulistas, enfim, a internet é um poço de discussão e conhecimento sem fim. Podemos tirar um dia inteiro para navegar por assuntos interessantes, por novas bandas, entrevistas, poemas, peças de teatro, curtas-metragens, a rede é um lugar fantástico para descoberta e troca de conhecimento.

Contudo, é mais fácil ser idiota. Ao entrarmos em perfis de amigos, basta calcular o quanto de compartilhamentos tolos e repercussão de coisas idiotas estão presentes, em detrimento de coisas interessantes, para vermos o quão as redes sociais, um possível quinto poder, virou algo de quinta categoria.

Não pretendo, aqui, ser um censor nem reprimir a curtição de ninguém. Há espaço pra tudo e cada um usa sua rede social como bem entender, afinal é social, não é cultural nem política, diga-se de passagem, e é um livro de rostos, não de pensamentos, talvez seja pra mostrar apenas a maquiagem e a superfície, mesmo… No entanto, há tempos queria falar sobre a potencialidade que as redes sociais poderiam ter e que acabaram por ser mais do mesmo. Gostaria tanto de conhecer novas canções, poemas, artigos e entrevistas geniais numa proporção mais equânime à galhofa e à esculhambação do dia-a-dia. Contudo, não se pode esperar muito de mecanismos que, como era de se esperar, reproduzem nosso cotidiano. E nosso cotidiano está cada dia mais violento, superficial e tolo.

Enquanto nobres dos camarotes e súditos das pistas ficam esculhambando o rei, não morre um panda na China, mas deixa de florescer na rede uma possível primavera de ideias, cores, versos e sons.