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 Gil Vicente Tavares

 
 
Moraes Moreira e o fracasso do carnaval em Salvador
27 de Fevereiro de 2014 19:59

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas e diretor artístico do Teatro NU.

Atualizado em 27 de fevereiro de 2014

Moraes Moreira não sairá, esse ano, no carnaval de Salvador. Quando ele comemora 40 anos de carnaval, não haverá seu trio na cidade, e suas apresentações serão em Recife, Natal e Curitiba.

Para mim, Moraes Moreira é o maior compositor de carnaval de todos os tempos. Perdoem-me os nostálgicos defensores das marchinhas, mas as letras, melodias, modulações de Moraes sempre foram sofisticadas e populares, ao mesmo tempo. Entre o surrealismo fantástico da festa e as imagens poéticas e políticas.

Segundo o próprio, num depoimento ao site El cabong, uma disputazinha estúpida da Bahiatursa com a Saltur fez a primeira retirar sua metade do patrocínio, impossibilitando a saída do trio de Moraes Moreira, que abriria o carnaval hoje, à noite.

Eu já havia me programado: aliás, era a única certeza que tinha esse carnaval. Mesmo na pobreza de um dia só de carnaval – ele e Salvador mereciam ao menos uns três dias –, acho que simbolicamente seria essencial a presença de Moraes Moreira nas ruas da cidade; ainda mais sendo seus quarenta anos de carnaval. Curiosamente, para a Agenda Cultural do mesmo Governo que, através da Bahiatursa, parece ter inviabilizado a saída dele, eu já havia cantado a bola, falando da vergonha que seria para a Bahia, algo assim; como pode-se ver na imagem acima.

Essa estupidez política, na verdade, não traduz somente um desrespeito à história de Moraes: é um reflexo do que vimos fazendo com nosso carnaval desde que ele foi alimentado e se alimentou da indústria do “Axé”.

O carnaval de Salvador passou a ser considerado um sucesso quando camarotes, blocos, hotéis e voos estão lotados, quando as estrelas do “Axé” estão nos principais programas de televisão e dominando rádios e grades de festivais pelo país, quando o patrocínio de cervejarias é imenso e monopolizante, como foi o caso desse ano, onde duas cervejarias lotearam o carnaval, transformando a via pública em pista de dança privada.

Entretanto, quem ganha com esse sucesso do carnaval? Os empresários e artistas do “Axé”. Os governos se desdobram em busca de patrocínios e organização para preparar a cidade para a indústria dos camarotes e blocos, para os milionários cantores, cantoras e bandas.

Para que os blocos afro, os artistas de menos projeção e o folião pipoca sejam contemplados, ações paralelas – já, de antemão, anunciadas como “alternativas”(expressão que detesto), “culturais”, “tradicionais”, ou qualquer outra denominação demagógica – são realizadas com um custo bem menor, alegrando uma parte da população que não alimenta a indústria do “Axé”.

Moraes Moreira não faz falta a essa indústria. Suas novas canções não furam o bloqueio de jabás de máfias de rádios, gravadoras e empresários. O carnaval que é computado como sucesso não precisa, não quer e não se interessa por Moraes Moreira, como não se interessa pelo que de melhor nós temos em Salvador: os blocos afro, Lazzo, Gerônimo, Moraes, Baiana System, Três na Folia, Bailinho de Quinta, Luiz Caldas; a lista é imensa.

O curioso é que basta sair na pipoca de alguns desses artistas para ver uma multidão cantando e dançando. O Baiana System levantou o Fantoches, num dos ensaios de Luiz Caldas, com todos entoando suas canções, que conheciam de trás pra frente, mas não toca na rádio, não aparece na TV. Há uma barreira intransponível que exclui dos grandes meios de comunicação o que de melhor produzimos.

O sucesso do carnaval, para os governantes – e isso vê-se pelas cifras divulgadas depois – é o sucesso dos empresários. Diz-se que o carnaval da cidade foi um fracasso quando hotéis, blocos e camarotes venderam pouco. Quando os artistas que dominam palcos, mídias e cachês, em Salvador, apareceram pouco na TV, tocaram menos na rádio. São, em sua maioria, TVs, empresas, empresários, artistas do “Axé”, governantes, um grande emaranhado de vampiros do erário e aproveitadores de uma festa popular, que ficam se locupletando de uma exploração quase colonial, na província que somos; como evidenciei em outro artigo, aqui no site: “Salvador: política, carnaval, futebol e a falência da província”.

Se o carnaval fosse pensado pro povo, e se os governantes estivessem preocupados com nossa cultura, tradição e reinvenção que pulula de forma intensa na cidade, focariam a organização do carnaval nessa dualidade tradição e modernidade, e garantiriam, obrigatoriamente, a participação de nomes como o de Moraes Moreira, o de Armandinho, tentariam resgatar nomes como o de Caetano Veloso, e fortaleceriam artistas que sedimentaram nossa música, como Lazzo, Gerônimo e Luiz Caldas, ao passo que fariam explodir os novos nomes, como Baiana System, Márcia Castro, Três na Folia, com destaque total em cima de trios elétricos, todos muito bem produzidos e com excelente som, em horários nobres dos dois circuitos, para o Brasil inteiro ver a qualidade, diversidade e beleza do que fazemos.

O que muitos parecem não perceber é que gasta-se muito para dar destaque a quem já tem, a quem já manda, a quem já entupiu o rabo de dinheiro e assim quer continuar; o que não é crime nenhum, boa deles, mas não se pode descobrir um santo pra cobrir outro (e de santo ninguém tem nada, nessa história…). Tenho plena convicção que se o governo resolvesse investir somente nos trios sem corda e nos blocos de tradição, como Filhos de Gandhi, Apaches, Ilê Aiyê, etc.; se o governo – tanto municipal quanto estadual – investisse numa melhor estrutura e melhor suporte à Mudança do Garcia, se concentrasse suas forças numa melhor organização para a limpeza, transporte, conforto e segurança do cidadão daqui, não precisaria de milhões e mais milhões. O carnaval poderia ser descentralizado, diversificado, e não haveria aquela multidão socada entre cordas e mais cordas: o enforcamento de nossa liberdade.

Talvez, a solução do carnaval fosse seu fracasso empresarial e financeiro. Quando estrelas e empresários tivessem que se virar com seus blocos e circuitos, com suas divulgações e patrocínios, quando a estrutura predatória do carnaval “comercial” fosse abalada, talvez o que de melhor nós temos pudesse aflorar. A ameaça da greve da polícia, ano passado, me propiciou o carnaval mais tranquilo e delicioso que já passei aqui em Salvador. Blocos e camarotes mais vazios, menos muvuca, mais espaço e alegria.

Tenho plena convicção que um carnaval sem cordas, com grandes artistas tradicionais e revelações de nossa música fazendo a folia, com uma estrutura organizada, com desfiles no horário nobre para a TV, com blocos tradicionais em destaque, tudo isso retomaria um carnaval que existe, é maravilhoso, mas fica encoberto pelo que os grandes patrocínios, TVs, governos e empresários querem, se locupletam e se aproveitam. Com isso, atrairíamos para a cidade não o folião de uma semana, mas pessoas que se interessariam por nossa cultura, nossa riqueza, e acabariam por ser seduzidas por muita mais que uma festa de sete dias.

Contudo, o que temos pra hoje é que Moraes Moreira não vai sair na comemoração de seus quarenta carnavais, em Salvador, por conta de uma provável disputazinha política entre Bahiatursa e Saltur. Para todos que vêm para Salvador gastar os tubos em hotéis, camarotes, blocos, pra ficar se chupando nos circuitos, se acabando de beber e enchendo o rabo de empresários, Moraes é quase um bicho exótico, aquele velhinho que quando passa é hora de ir pra pista da boate ou levantar os dedinhos como se fosse uma fanfarra. Assim como o é o Baiana System, com seus sucessos de gueto, pois é ao gueto que se empurra o que de melhor se faz nessa cidade. São tribos marginais, que fazem o melhor e menos reconhecido, menos patrocinado.

Claro que os governos estão sempre atentos a pagar o dízimo da cultura. Criam projetos onde os artistas “alternativos”, “independentes” (leia-se: marginalizados pela força da grana que ergue e destrói coisas belas), tocam, abrem apresentações, são os projetos especiais, as aberturas, os encontros, diversas ações que são marginais ao que realmente importa às empresas e à grande mídia.

Salvador tem o melhor carnaval do mundo, pra mim. É aqui onde, anualmente, novos ritmos, sonoridades, composições e artistas despontam enriquecendo a cultura do país. Temos a tradição, sempre, aliada à inventividade. Não paramos. Estamos sempre nos reinventando.

Entretanto, não é essa a imagem que é vendida do nosso carnaval. Vende-se a segregação das cordas, a música pasteurizada, os camarotes caros e sem graça, tudo isso televisionado, alimentando uma indústria predatória que usa o erário para encher o rabo de dinheiro nessa semana de folia. Dívidas de impostos vão correndo soltas, nenhum benefício pra cidade é deixado, e os que deveriam ser protagonistas – o povo de Salvador e seus grandes artistas – deixam de ser prioridade para que a indústria se alimente e as notícias tendenciosas façam a gente acreditar que Salvador lucrou muito.

Mentira. Salvador não lucra com o carnaval. Os grandes artistas mendigam pra tocar, e muitos são putas do sistema, calam-se à espera de receber seu dízimo da folia. A cidade termina fedida, acabada e desorganizada, como se um furacão devastador destruísse tudo. O comércio para, não vende nada, os bares e restaurantes ficam às moscas, artistas que não trabalham com música têm suas férias forçadas, enfim, faz-se uma festa em que poucos lucram, com a vinda de turistas que não deixam dinheiro na cidade, pois vêm para cá em busca da putaria, da cachaça e da festa durante os dias de folia, largando suas finanças entre hotéis, blocos e camarotes, apenas, depois vão embora sem saber os sabores reais da cidade.

Realmente, numa festa assim Moraes Moreira não cabe. Não toca. Ele que vá comemorar seus 40 carnavais em Recife, Natal e Curitiba. Porque, afinal, o carnaval de Salvador é uma festa privada, para a qual ele não foi convidado, e não vai fazer falta nenhuma, pois “se a gente com o trio não pula / a culpa é de quem manipula / e não pula o carnaval”.

Disse, no artigo que já citei acima, que “Salvador decretou sua desgraça, sua ruína e sua sina de ser uma cidade fracassada quando derrubaram a Igreja da Sé pra passar uma linha de bonde”. A cidade também decreta sua desgraça quando Moraes Moreira é alijado pelos podres poderes. Simbolicamente, esse alijamento é bem maior que a figura de Moraes. É a imagem concreta de que tudo está errado na forma como se faz o carnaval aqui.

Amo as ruas e a folia mais que a estupidez de governantes e empresários. Mesmo com monopólio de cervejas no circuito, mesmo com a imensa vergonha que fico em ser baiano com a história de Moraes e tudo mais, mesmo com toda uma estrutura armada para os de sempre ganharem muito e os outros receberem seu calaboca, ainda assim vou tentar pular meu carnaval, afinal:

“Nossa dor, meu amor / é que balança, nossa dor, / o chão da praça”.