Página Inicial  |  Perfil  |  Equipe  |  Contato  | 
Links

  

redacao.noticia@noticiacapital.com.br
71 9128-9520

 
  Home - Poesias - Crônica: “Pé de cachimbo”
 

Categorias

  Brasil
  Cultura
  Cursos & Concursos
  Dos Blogs & Sites
  Economia
  Educação
  Entrevistas e Reportagens
  Esporte
  Geral
  Internacional
  Mosaico
  Municípios
  Notas
  Opinião
  Politica
  Salvador
  Saúde & Medicina
  Turismo
 

Colunistas

 Agenor Calazans
 Aldo Trípodi
 Alessandra Nascimento
 Gerson Brasil
 Gil Vicente Tavares
 Guto Amoedo
 Kim Niederauer
 Marcelo Torres
 Valter Xéu
 Vitor Carvalho
 

Serviços

  Coelba
  Embasa
  Auxílio a Lista
  Prefeitura de Salvador
  Previdência Social
  Receita Federal
 
COLUNISTAS
 Marcelo Torres

 
 
Crônica: “Pé de cachimbo”
4 de Março de 2014 11:28

Domingo, cedinho, seu filho o acordou cantando “Hoje é domingo, pé de cachimbo”. A parlenda ecoou em seu passado, foi parar na infância do Junco de outrora, onde todos cantavam e ouviam assim esse verso.

Para ele, domingo sempre rimou com pé de cachimbo. O cachimbo podia ser de ouro, podia ser de barro, para rimar com touro ou besouro e até com jarro. Mas o domingo era, o domingo sempre foi pé de cachimbo.

Era sagrado: dia de missa, a velha domingueira engomada, sapato lustrado, cabelo penteado, talco cheiroso no pescoço, era dia de encontrar outros meninos com suas mães na igreja, era dia de almoçar na casa de tios ou avós.   

Na fantasia e imaginação da brincadeira lúdica, o que importava é que domingo rimava com cachimbo. Uma rima rica e bela, uma coisa linda e poética, enfim, era uma viagem inventada no feliz – para lembrar o menino Rosa.

Pois no último domingo ele postou a parlenda com o sagrado pé de cachimbo. E não tardou a surgir o dedo da sisuda “correção” para dizer que o "pé" estava errado, a vida toda foi errado e ele não sabia; que “o certo é pede”, do verbo pedir. 

- Você já viu uma árvore cheia de cachimbos? - "argumentou" alguém, com a "lógica" que já gira o mundo eletrônico como a mais recente verdade racional.  

Ora, ele pensou, se não existisse pé de cachimbo, também não existiria pé de valsa, nem pé de mesa. Não haveria pé de serra nem pé de vento. Pé de guerra? Nunca! Pé de página? Jamais! Pé de igualdade?

O que seria, afinal, esse “pé de igualdade” segundo a lógica desse povo muito racional e cheio de lógica?

Pé de página, então, deve ser o maior absurdo da terra, para esses “lógicos”. Ora, onde já se viu um árvore cheia de páginas? Acaso seriam as folhas? E uma página, se tem pé, também teria dedo, calcanhar e canela? Não, não tem lógica, minha gente! Nao tem!

Também não tem lógica aquela expressão “pé de vento”. Que diabo é um pé de vento? O certo não seria "pede vento", não? Porque, convenhamos, vento não tem pé? Nem existe uma árvore cujos frutos sejam ventos, existe? 

Entonces, vosmincês escrevam aí: não existe pé de cachimbo nem pé de vento, pois não faz sentido, não tem lógica... 

 

 

Assim como existe pé de galinha na cara de ninguém – embora exista e amedronte muita gente, inclusive os “lógicos”.

Além disso, também não existe, nunca existiu o pé de ouvido nem o pé de orelha.

Pensando nisso, o moço ri, agora, ao lembrar que nunca, jamais, em tempo algum ele deu ou levou tapa no pé da orelha. Nem no pé do ouvido.Nunca, nunquinha!

Pois então o moço olhou em volta e viu que até a casa tinha pé, o pé direito – só não tinha o esquerdo. E viu o pé de parede, o pé de cadeira, o pé de mesa, e também o pé do sofá, o pé de porta, o pé da cama, e era pé que não acabava mais.

Se havia tantos pés dentro de casa, ele riu novamente, contemplando a imensa “floresta” que era sua casa: pé de mesa, pé de cadeira, pé da geladeira, pé do fogão, pé de parede, pé de cama, pé direito, pé da estante.

E ri de novo lembrando que, mesmo sem nunca ter dançado valsa, carrega o epíteto de “pé de valsa”! Mas existe pé de valsa?- ele agora se pergunta, e ri de si mesmo.       

Ora, meus caros “lógicos”, pé não é só o membro inferior do corpo nem é só sinônimo de árvore. 

Pé é também a base, é o fundamento, é a sustentação, é a parte de baixo. 

Fulano caiu aos pés da cruz. Beltrano pintou o pé de parede. Sicrano cortou o pé do cabelo. E todo mundo pensa em fazer um pé meia.   

E pé de cachimbo? Pelo menos quatro grandes nomes da literatura brasileira usaram pé de cachimbo em suas obras. 

Erico Verissimo pôs o nome Pé de Cachimbo em um dos seus personagens. 

Ziraldo, no tempo de menino maluquinho, cantava “pé de cachimbo”, que também apareceu em Macunaíma, de Mário de Andrade.

Monteiro Lobato fez o menino Pedrinho cantar “domingo pé de cachimbo” no Sítio do Pica-pau Amarelo. 

Pensando no Sítio, será que faz sentido e tem lógica uma boneca de pano ser igual a uma pessoa de carne e osso? Um sabugo de milho virar visconde? Não, não, mil vezes não, isso não existe, isso não tem lógica.

Marcha soldado, cabeça de papel? Ora, isso não faz o menor sentido, pois soldado não tem cabeça de papel. O cravo brigou com a rosa? Não faz sentido, cravo não briga com rosa.

O rato roeu o rabo da raposa? Nunca! Que sentido faz isso? Que lógica existe nisso? Nenhuma!

E Dona Chica, será que ela se admirou do “berrô” que o gato deu? Nunca! Não faz sentido, isso não existe, pois, ao pé da letra, gato não berra.

Ora, o moço disse para si mesmo, que frase é essa: “ao pé da letra”? Pela lógica, “ao pé da letra” só pode ser outra frase que não faz sentido algum, pois não existe uma árvore que dê letras como frutos. Ou será que existe? 

Magritte pintou um cachimbo e colocou no pé do quadro um título provocativo: “Isto não é um cachimbo”.  Como assim, não é um cachimbo? – pensavam as pessoas, que na sua “lógica” viam um cachimbo e não a pintura de um cachimbo.

E, ao final do domingo, o moço lembrou do saci (sem um pé) e do cachimbo (com pé), então fez uma prece surreal para Magritte, também rezou para São Foucault, e foi dormir falando para as paredes:

“Isto não é um pé de cachimbo. Isto é uma parlenda”.

Se as paredes têm pé, elas também devem ter ouvidos. Então ele cantou para as paredes a parlenda de sua infância, de sua fantasia, de seu universo lúdico: “Hoje é domingo, pé de cachimbo”.  (marcelocronista@gmail.com)