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 Gil Vicente Tavares

 
 
Nós, os artistas invisíveis da Bahia
20 de Julho de 2014 13:43

A triste perda de João Ubaldo Ribeiro, ontem, fez-me ligar a TV. Indicaram-me um programa que iria começar na Globonews. A apresentadora listou as obras do escritor baiano que foram adaptadas para outras linguagens, e Artur Xexéo reforça Sargento Getúlio e Deus é brasileiro, no cinema, O sorriso do lagarto, na TV, e A casa dos budas ditosos no teatro, espetáculo, que, segundo ele, ainda está em cartaz.

Resolvo comentar sobre a invisibilidade do teatro baiano com minha produtora, quando ela, Fernanda Bezerra, me diz que acabou de ver uma reportagem na TV Bahia, afiliada da Rede Globo, onde citam obras adaptadas de João Ubaldo Ribeiro e, mesmo num jornal local, ignora-se solenemente a montagem do Teatro NU, nosso grupo.

Há algum tempo já queria falar sobre a invisibilidade do nosso teatro, e sem advogar em causa própria. A bem da verdade, nem citaria nenhum trabalho meu, pra não parecer vitimização, rancor. A inspiração seria a notícia de que o espetáculo O sapato do meu tio iria para Avignon e Edimburgo, em dois dos mais importantes festivais de teatro da Europa.

Seria mais do que natural que a imprensa local dedicasse programas, minutos, destaques para tal acontecimento de tamanha proporção e, no entanto, raros são os que sabem disso em Salvador. Da mesma maneira, descobri, pelas redes sociais – olhem elas salvando a lavoura! – que o ator Fabio Vidal estaria no Summerwerft, em Frankfurt, com seu espetáculo Seu Bonfim, outro sucesso dos palcos baianos que vem fazendo história não só aqui como Brasil afora.

Alguma notícia sobre isso? Nada, também.

É bom lembrar que estou falando aqui de espetáculos que já têm uma sólida carreira. Premiados, tanto Sargento Getúlio, e, bem mais, O sapato do meu tio e Seu Bonfim, vêm tendo boa repercussão por onde passam. Atualmente, nosso espetáculo está rodando o país pelo projeto Palco Giratório, já esteve no Porto Alegre em Cena, no Janeiro de Grandes Espetáculos, várias cidades, projetos, não é uma peça que fez uma curta temporada e passou despercebida, não. Muito mais pode-se dizer sobre os outros dois espetáculos, inclusive.

No entanto, a imprensa nacional e, mais triste ainda, a imprensa local, simplesmente ignoram nossa existência. E isso é uma temeridade, um desrespeito e um desserviço. Sempre tento, em meus artigos, mostrar o quanto as escolhas políticas e midiáticas são fundamentais para influenciar a cultura do cidadão comum; aquele que paga ingresso, que não vai por amizade, que trabalha em funções totalmente desconectadas da arte.

Agora, dia 20 de julho, termina a segunda temporada e, talvez e infelizmente, a última de Longa jornada noite adentro. O premiado espetáculo, sobre o qual escrevi, aqui no site, merecia ser um dos grandes acontecimentos do mês de julho, na cidade, e pouca gente tomou conhecimento. O Balé Jovem de Salvador, dirigido e coreografado por Matias Santiago, está ocupando o Espaço Cultural da Barroquinha por duas semanas estreando espetáculo em homenagem a Lia Robatto, dançando uma homenagem a Walter Smetak, e a cidade não mobiliza-se pra ver.

Há uma culpa imensa do público em geral. Preguiçoso, desinteressado, desconectado e vivendo uma vida medíocre, o público comum não faz questão alguma de mudar sua rotina que se resume a xópim, praia, cinema, barzinho, xouzinho e suas variantes. Não há ambição intelectual, nem anseio estético, nada move esse público para que se fortaleça a cena cultural de Salvador. Curiosamente, é o mesmo público que, em mesas de bares e redes sociais reclama das poucas e pobres opções culturais da cidade e vai pra São Paulo, Buenos Aires ou Nova York elogiar a programação cultural da cidade. Ele não vai ao teatro, ao museu, ao concerto, não procura saber o que acontece, aqui, e reclama, quando  a sua ausência é também causa da falta ou encerramento de muito do que aqui se tem ou poderia ter.

Há também a culpa das gestões públicas da cultura, que parecem não entender que elas podem interferir nas carências artísticas, e não reforçar os estereótipos de Salvador. É preciso valorizar a criação artística em seus diversos matizes de sofisticação e qualidade, para dar uma plêiade de opções rica e potente para o cidadão, e pensar numa estruturação de base para criar uma identificação e uma tradição cultural diferenciada.

E, então, há a culpa da grande mídia. Ela torna-se a grande responsável pela nossa invisibilidade, a despeito do esforço de certo jornalismo cultural que é quase guerrilha em meio ao silêncio. Era para Harildo Déda, Yumara Rodrigues, Lia Robatto, dentro tantos outros, serem apontados, na rua, serem abordados, reconhecidos, cumprimentados pela sua história e importância na arte de Salvador e do Brasil. Mas são senhores desconhecidos. Eles não estão nas reportagens, nas capas de revistas e jornais, nos programas especiais da TV. Eles, nós, e muitos, não ocupam um lugar privilegiado na grande mídia baiana e nacional, recebendo o merecido destaque que devemos ter. Não porque somos melhores nem piores do que ninguém, mas porque estamos em Edimburgo, em Avignon, em Frankfurt e pelo país inteiro, rodando o Brasil e o mundo, e levando o nome da Bahia e de Salvador com uma arte que vem representando bem a nossa terra.

E isso, que nós invisíveis, fazemos, parece não ser do interesse de ninguém.