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 Gil Vicente Tavares

 
 
Opinião ou cicuta no Brazil que se dizputa?
10 de Agosto de 2014 11:43

Detalhe de "La Mort de Socrate" (Jacques-Louis David)

Quando estourou – literalmente – o conflito em Gaza, a primeira coisa que fiz, logo após a notícia lida no computador, foi me virar para a estante de livros de história. Lá, mais uma vez paquereiHistória dos judeus, de Paul Johnson, e Uma história dos povos árabes, de Albert Hourani.

Lamentei não conhecer a história e a cultura desses povos, a ponto de poder omitir uma opinião sobre mais esse assassinato em massa de inocentes. Claro que lamentei os atentados aos judeus, internamente condenei a desproporção de mortos árabes, claro que me revoltei com a chacina de crianças, e achei criminoso o ataque a instalações da ONU. Entretanto, não me senti confortável para acusar, teorizar, especular ou vitimizar ninguém.

As pessoas, em geral, não leem mais. A formação do pensamento ocidental foi embasada numa sólida bibliografia que, ainda hoje, vem crescendo. Historiadores, filósofos, jornalistas, há uma plêiade de livros fundamentais para se entender o nosso momento presente; este, que acabou de passar.

Recentemente, e mais uma vez, senti-me envergonhado com minha ignorância. Ao pesquisar sobre o golpe militar de 1964, no Brasil, deparei-me com informações assustadoras, reveladoras, boa parte da nossa atual realidade desvelou-se para mim a partir de personagens, ações, reações e inações daquele momento explosivo do país que eu desconhecia totalmente.

Cada vez mais, interesso-me pela história e pela visão crítica da mesma, da arte e da cultura, percebendo, ainda mais, que a compreensão da história, da arte e da cultura é como a compreensão de uma língua. Eu posso opinar sobre um bori, mas não sobre o ramadã. Para opinar, é preciso compreender, conviver – mesmo que através da literatura – com aquela cultura, aquela tradição. Ninguém chega para um esquimó e sai conversando em sua língua. Para compreendê-la, é necessário estudo, aprofundamento e convivência com os falares, a coloquialidade e a norma culta, as variantes sonoras, declinações e conjugações.

Talvez seja um fenômeno existente desde sempre, que a internet apenas deixou em evidência, mas tenho ficado assustado como diversas pessoas têm opinião sobre tudo e, quando buscamos saber as bases sólidas a partir das quais essas pessoas construíram suas acusações, divergências e críticas, percebemos claramente a superficialidade do argumento. Não só não se vai a fundo na solidez das ideias e dos fatos, como geralmente são opiniões repetidas de uma única fonte da mídia (e assusta-me ver que pessoas metidas a opinadoras sobre tudo não se veem como manipuladas pelo limite de sua fonte).

No atual maniqueísmo ridículo que o país chegou, com pessoas entrincheiradas de um lado e de outro achando de “nunca antes na história desse país” estivemos tão mal ou tão bem, existe uma renca de gente julgando, absolvendo, incriminando e inocentando tudo e todos de forma agressiva, impetuoso e arrogante. Diversos são os donos da verdade, e curioso é ver a maioria deles com pés de barro. Pés de barro por conta da opinião superficial e, também, por sua conduta por vezes questionável, até este sair do papel de poderoso para o de excluído. Dizem que se você quer conhecer o caráter de alguém, dê-lhe poder, e eu completo, também, que tirando-lhe o poder podemos ver o quão cínico, arbitrário e frágil de caráter esse alguém pode ser.

Está difícil encontrar alguém lúcido para se conversar sobre política de forma serena, justa, relativamente imparcial e embasada na história, na filosofia, na política e na realidade brasileira. Por isso, abstenho-me de discutir e, quando muito, provoco os diversos conhecedores absolutos da verdade, que arrotam acusações e defesas de forma definitiva e incontestável. Até porque, falta-me solidez intelectual quanto à história, à filosofia, à política, e à realidade brasileira. Cada vez que leio, vejo um documentário, vão desvelando-se tantas histórias que a sensação que tenho é que nem uma vida basta para se entender um fato.

Enquanto, de um lado, há uma horda torcendo por notícias que aniquilem o país, torcendo para que ele dê errado, para provar sua oposição, do outro temos outra horda condenando qualquer notícia crítica sobre o atual governo, seja ele federal, estadual ou municipal, com antolhos que não lhes permite criticar e, assim, fazer com que as coisas melhorem de fato. E todos sempre com opiniões definitivas e impassíveis de argumento contrário. Mais assustador ainda é perceber o quanto o pensamento de intelectuais e pensadores contemporâneos são facilmente rechaçados, como se todo o embasamento destes não valesse de nada diante da sapiência superior de iletrados cidadãos comuns (e é inevitável lembrar de meu artigo “A arrogânsia da ignorânsia“).

Entrementes, reservo-me à leitura de diversas opiniões contrárias, contemplo minha medíocre biblioteca, e vou lamentando minha falta de conhecimento para omitir opinião sobre tudo, como quase todos vêm fazendo.

Ainda arrisco-me, aqui, nessa coluna, nalguns assuntos; notadamente nos que considero-me um pouco menos ignorante. Olhando meus artigos mais antigos, vou vendo o quanto estou menos cheio de razão e menos incisivo, e mais me compreendo do que compreendo os fatos, quando escrevo.

Certa vez, uma notável coreógrafa e bailarina apresentou-me à mãe dela como se eu fosse um intelectual baiano. Pedi correção imediata. Primeiro, por não ser intelectual, e segundo porque talvez jamais chegue a ser um. Talvez, daqui a um tempo, depois de uns 20 ou 30 clássicos fundamentais que me falta ler, eu possa ter conteúdo suficiente para ter menos opinião ainda, e ter mais dúvida sobre tudo. Ou, como diria em melhores palavras o mestre Millôr:

“Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado”.

E não, não me interesso pela opinião de quase ninguém, notadamente dos que afirmam de forma radical sua verdade absoluta; agradeço que não compartilhem sua opinião comigo. Os que me interessam, geralmente só opinam quando eu pergunto ou consulto; em artigos, livros, ou pelo telefone ou mesa de bar. Eles geralmente estão calados, procurando entender, esforçando-se em duvidar.
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Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas e diretor artístico do Teatro NU.