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  Home - Poesias - O ano da “selfie” e o outro que sifu
 

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 Gil Vicente Tavares

 
 
O ano da “selfie” e o outro que sifu
12 de Dezembro de 2014 15:43

 

Em 2006, estive em Roma. Fiquei feito besta com tanta história e cultura. Era verão e uma horda de turistas entupia a cidade. Das belas suecas aos eletrônicos orientais. Por onde estes passavam, uma maioria absoluta via tudo através das lentes de suas filmadoras. A olho nu, apenas a lente da câmera era visualizada; e eu assustado com a virtualidade da situação.

Oito anos depois, 2014 é eleito o ano da selfie, por órgãos da imprensa. A expressão já havia sido eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford. Derivação de self, que é eu, ego, tudo centrado na individualidade, que vai dar em egoísmo, egóico, ególatra, ensimesmado, e por aí vai…

A câmera frontal do celular, para mim, sempre teve a função de poder conversar vendo a pessoa, algo que não uso, mas que me parece útil para matar saudades, por exemplo. Entretanto, cada dia mais megapixels são colocados nela para que as selfies sejam cada dia melhores. Já existe um bastão com acionamento por bluetooth, onde a pessoa pode distanciar mais seu celular, ou câmera, para tirar uma foto mais distante. De si mesma.

Nas selfies, as paisagens, eventos, situações, são plano de fundo, ornamento da foto. O que importa é registrar o(s) mesmo(s) rosto(s), com pequenas alternâncias de expressão, quanto mais vezes for possível. No trânsito, no teatro, na praia. E ouvir os repetitivos elogios exagerados, por vezes mentirosos, por vezes cínicos, que são o padrão da rede social, mas que todos adoram receber e fazer, porque é uma forma de eu estar em evidência.

Já citei, noutro artigo, uma situação que passei numa apresentação de Geraldo Azevedo. Uma moça, vestida de oncinha, cantava em voz alta todas as canções, lendo as letras pelo celular. Não desgrudava da tela e se comprazia de forma esfuziante com seu videoquê improvisado.

Nos xous da Concha Acústica do TCA, o que mais vemos são pessoas bebendo e papeando alto, entre uma selfie e outra, registrando, na hora, sua presença na apresentação de fulano, ou beltrano, com suas companhias. E, no intervalo disso tudo, às vezes sobra tempo pra ouvir o artista, algo meio fora de moda.

Dá-me ânsia gastura ouvir de alguém que vai ver tal peça minha para me “prestigiar”. Se alguém quer me prestigiar, compre castanhas e um vinho, bons queijos, e venha me visitar. Para meus espetáculos, as pessoas têm que ir porque querem ver arte, querem ficar algumas dezenas de minutos entretidas com poesia, filosofia, magia, paixão, dor, sofrimento, tudo isso numa escala diferenciada do real.

Quase impossível. Escrevi, recentemente, um artigo que falava sobre a morte da contemplação que vai coadunar, justamente, com o assunto. É muito difícil para um ser humano ficar mais que 10 minutos sem olhar o celular; e olhar o celular por uma questão individual e individualista, geralmente. Para saber se tal mensagem foi respondida, se tal postagem foi curtida, comentada ou compartilhada, para saber se tal alguém ligou.

Tenho colocado uma gravação, depois do segundo sinal de meus espetáculos, pedindo para todos desligarem seus celulares. Reforço dizendo que a luz atrapalha as pessoas ao lado e desconcentra os atores. Vou acrescentar – tive a ideia agora! – que, sobretudo, desconcentra o próprio dono do aparelho, que saiu de sua casa para ver uma peça, entrar numa outra atmosfera, numa fantasia, num momento de suspensão. Ao invés de mergulhar na arte, a pessoa quebra, consigo mesmo, o código estabelecido, o clima da situação, para se reconectar com a realidade que deixou lá fora. Realidade que deixou lá fora, em tese, para buscar outros sentidos na arte; realidade que, ao entrar no teatro, será retorcida, recriada, reinventada ou transmutada em poesia.

O pior é que se juntarmos todas as selfies de uma pessoa, haverá uma insignificância de valor, uma similaridade e irrelevância do entorno na maioria absoluta das fotos. A foto, que geralmente serve pra eternizar o momento, inverte seu sentido. E perde-se, muitas vezes, um acorde na mão, ou dois pássaros voando. Nesse império do efêmero, muito se torna descartável.  Assim também é com a reconexão com a realidade, ao se manusear um celular no teatro: na maioria absoluta das vezes é uma reconexão banal, egóica, superficial e egoísta.

Egoísta, acima de tudo, consigo mesmo. Perde-se de mergulhar na poesia de uma obra de arte, perde-se de contemplar ao vivo belezas naturais e maravilhas criadas pelo homem – sim, ao vivo, pois de outro modo não precisava a viagem e o deslocamento, bastava pesquisar imagens no google –, enfim, talvez um dos grandes problemas atuais é que perdemos muito tempo ensimesmados em banalidades.

“Não vou ficar de boca mole dizendo no meu tempo isso, no meu tempo aquilo”, como diria Sargento Getúlio. Ir no contrafluxo da modernidade é bobagem e nem pretendo aqui simplesmente condenar selfies ou tentar proibi-las, tampouco demonizar celulares e tecnologias; não sou juiz e nem quero entrar na moda de dar carteirada e voz de prisão (e sou usuário de redes sociais e smartphones, só não sou “selfieiro”). O problema não é o ato, mas sim as consequências nefastas que envolvem o antes, o durante e o depois. O problema não está noselfie e no smartphone, mas no (des)prazer que eles proporcionam e como são utilizados. E que isola a pessoa daquele instante que poderia ser contemplado ou vivido.

Aí, meu amigo, não tem arte ou amor que sobreviva. E depois, essas mesmas pessoas reclamam da falta de arte e da falta de amor no mundo, em suas postagens onde o foco é em si mesmo.

Arte e amor só existem se houver o outro. E arte e amor não se encontra em self-service.