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 Marcelo Torres

 
 
O GOLEIRO
20 de Dezembro de 2014 10:33

A avó concordou: ele poderia jogar bola, poderia sim, desde que fosse no gol.
Por que "no gol"?
Ela não gostava de futebol, é verdade, mas sabia que goleiro não gasta sola - ele corre quase um nada.
Goleiro fica o tempo todo no mesmo lugar.
E o menino? Bom, o menino só tinha um sapato. Que foi presente dela, a avó. Dali em diante, todo dia, quando voltasse da bola, devia mostrar os sapatos à vovó. Principalmente as solas.
Se gastasse muito o sapato, não escaparia de uma boa surra.
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Nascera num lugarejo, o menino. Com um ano, perdeu o pai para a guerra. Com a mãe e um irmão, emigraram para a capital, foram morar com a avó materna num bairro pobre.
A avó era viúva. A mãe, analfabeta, lavava roupas para fora. No bairro, estudaria na escola comunitária e jogaria futebol com outros garotos.
A casa velha tinha um corredor que ia dar num escada para o quarto de cima, onde passou a dormir com a mãe. À noite abria a janela, conversava com a lua, beijava estrelas – tudo escondido dos adultos.
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Quando ele disse que só queria ficar no gol os outros garotos ficaram surpresos, acharam estranho, mas gostaram de saber. Ninguém queria mesmo ser goleiro.
No outro time era sempre uma briga para não ficar no gol. Todo mundo só queria jogar na linha. A solução era o rodízio - a cada gol tomado, alguém da linha ia pro gol e o do gol ia pra linha.
Na outra meta, ele via, o chute quase sempre entrava, ninguém tinha jeito para goleiro, e todos queriam se livrar rápido da função.
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Acabada a peleja, lá se ia ele, o boné vermelho, a camisa azul suada. Salteava a escada escura e subia célere sem pegar no corrimão. Tinha pavor das baratas, que não eram poucas e se espalhavam por toda a casa. Apesar da correria, mesmo no escuro, sem se apoiar em nada, nunca tropeçou nos degraus. Já pulava calculando a exata medida. E chegava ao quarto alegrinho, já levantando os pés para a avó.
Ah, a avó!
Era ranzinza, resmungava, aplicou-lhe bem umas quatro ou cinco surras, mas, não fosse ela, ele não seria goleiro. Na verdade, o certo é que virou goleiro por causa da pobreza.
Solitário, como todo goleiro, assim era ele. Preferia o olhar isolado, afastado. A solidão do gol trouxe-lhe a poesia. O olhar. O pensar. Moço pobre, órfão, doente, solitário.
Goleiro. Um estrangeiro.
A essa altura, um professor já o encaminhara para um teste de bolsa. Fez, foi aprovado e entrou para a universidade. Fez Filosofia e virou o goleiro da seleção universitária.
Até que, aos dezessete, foi derrubado pela tuberculose.
Parou o estudo, deixou o gol. Foi acolhido por um ano na casa de um tio maçom. Era um homem culto, a casa cheia de livros. Conheceu Nietzsche, Zola, Schopenhauer, Maulraux, Dostoievski, Plotino, Balzac, André Gide.
Foi auxiliar de escritório, vendedor, funcionário da prefeitura. Até que descobriu o jornalismo, o teatro, a filosofia. Virou ensaísta, dramaturgo, pensador.
- O pênalti é a maior metáfora da vida – disse.
E disse mais: tudo que sabia sobre moral e obrigações dos homens, vejam só, ele devia ao futebol.
Pois é, nunca mais haverá um goleiro como ele. Ele quem? Ora, o franco-argelino Albert Camus. O cabra d’A Peste.
(marcelocronista@gmail.com)