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 Gil Vicente Tavares

 
 
Sobre salas que se fecham para a arte
8 de Março de 2015 12:26

Sobre salas que se fecham para a arte | Teatro NU

 

 

Algumas salas de cinema do Circuito Sala de Arte estão para fechar, e sabe o que isso significa pra Salvador? Absolutamente nada.

Fechar três ou quatro salas de “cinema de rua” é algo tão natural quanto os teatros que viraram churrascaria, os cinemas que viraram igrejas evangélicas, e outros tantos cinemas e teatros que estão fechados, em ruínas ou abandonados.

Um professor meu costumava dizer que se a classe teatral fizesse greve, tirasse os espetáculos de cartaz, só seria percebido pela cidade algumas semanas depois. Não faria a mínima falta. Talvez você, que lê esse artigo, seja a exceção que confirma a regra, mas a grande maioria da cidade é completamente desconectada das ofertas culturais que temos em Salvador.

Somos a cidade dos eventos. Discutimos carnaval, São João, aplaudimos festivais gratuitos na rua, multidões barulhentas bebendo e paquerando pelas praças ao som de qualquer coisa que aglutine multidão. Se for boa música, tanto melhor, a despeito de ela não ser o foco e nem sequer ser apreciada como devia.

Alguns formadores de opinião e público do Circuito Sala de Arte têm escrito depoimentos para “salvar” o circuito. O cinema tem uma inserção ainda maior na cidade e talvez essa meia dúzia de três ou quatro ainda possa fazer barulho, mas acaba por ser um pouco como a maioria dos artigos que escrevo: são lidos pelo círculo de pessoas que concordam, ou até discordam, mas não atinge a grande Salvador que poderia encher cinemas e teatros, poderia ser mecenas, poderia ser uma massa crítica e reivindicadora de uma melhor programação cultural para a cidade.

Recentemente, escrevi um artigo falando da invisibilidade dos artistas de teatro de Salvador. Por duas vezes, fiz o projeto Teatro NU Cinema, na Sala de Arte da UFBA, e a maioria das pessoas que preenchia nosso questionário dizia que nunca havia ido ao teatro em Salvador. Isso significa que mesmo num circuito alternativo, onde o foco das projeções não é o sucesso arrasa-quarteirões de Roliúde, nós de teatro somos insignificantes.

É recorrente perguntarem-me, no reduzido círculo de conhecidos e amigos que gostam de arte, quando os espetáculos do Teatro NU voltarão em cartaz. Gente que quer ver ou rever Os javalis, Sargento Getúlio, Quarteto. Ficamos na dependência de festivais, editais e convites, pois se tivéssemos certeza que teríamos 70% de pagantes por sessão, talvez pudéssemos voltar no risco, mas o público do teatro baiano é reduzido e a sua maioria constrangedora é de pessoas que pedem convite; não se dignam sequer a pagar por nosso trabalho – e sequer oferecem o trabalho gratuito delas em troca – e ainda encaram a ida ao teatro como um “vou te prestigiar”. Como já disse em artigo anterior, se quer me prestigiar, compre um bom vinho, queijos, castanhas e marque comigo pra gente brindar; mas pague pra ver minha peça.

A quantidade de assaltos ao sair de teatros e cinemas de rua não justifica o medo de ir a esses lugares, e o soteropolitano não trabalha mais que o paulistano, londrino ou parisiense; portanto, a justificativa do cansaço da semana de trabalho é desculpa esfarrapada ou preguiça mental. Por tudo isso, a única justificativa que temos para o vazio das salas é que teatros e cinemas que fujam do circuito comercial não significam absolutamente nada pra Salvador. Se eles fecham, a maioria acachapante nem vai notar, alguns gritarão, outros – que não vão, não pagam e nem se interessam, mas ficam de casa bradando contra a situação da cultura – vão fazer postagens em redes sociais, vão criticar governos, o atraso de Salvador, sem vestirem a carapuça que lhes cabe tão bem.

Quando o Circuito Sala de Arte surgiu, ele era uma alternativa à Sala Walter da Silveira que, com programação por vezes excelente, vive às moscas até hoje. Boa parte do melhor cinema feito no mundo passava no Bahiano de Tênis (que fechou e não teve mobilização que fizesse ele voltar), Cinema do Museu, Sala de Arte da UFBA, etc., com um conceito diferente de sessões diferenciadas, num cardápio diverso que era um prato cheio para cinéfilos. Na esteira disso, o Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, reforçou esse circuito de rua, com foco nas produções mais independentes (e com dificuldades, mesmo com o Itaú por trás), trazendo uma esperança para o enriquecimento da programação cultural de Salvador.

O poder público tem culpa? Sim. A iniciativa privada tem culpa? Sim. A crise financeira tem culpa? Já não posso afirmar tanto assim, pois em qualquer esquina há pessoas em mesas de plástico com diversas garrafas de cerveja aos pés, e os shoppings da cidade vivem cheios de pessoas com sacolas pra lá e pra cá. A questão é que o consumo da arte não interessa.

Problema insolúvel? Claro que não. O ensino de artes nas escolas primárias e secundaristas pode ser uma janela que se abre. Talvez os pais possam fazer mais que pagar uma grana preta pra escola do filho levá-lo a peças caça-níqueis, dando uma sensação de dever cumprido quanto à cultura do rebento. Mas, acima de tudo, nós, vocês, eu, ele, muita gente precisaria encarar Salvador para além das festas, eventos, praias e bebidas. Precisaria se interessar por arte, por ser um fruidor que vê na arte um descanso, uma provocação, uma forma diferente de ver a vida. Assim, perceber que o barato de um grande filme ou de uma grande peça pode ser tão bom quanto a cerveja, o vinho, o beijo, o banho de mar. Por diversas vezes venho problematizando essa mentalidade festeira, carnavalizada, de multidão e efemérides[1], e mais uma vez bato na tecla, aqui.

Antes de tudo, é preciso que a população de Salvador mude. Não adianta cobrar do poder público e/ou privado, se seu discurso é distanciado e vazio de conhecimento e relação com o problema. Senão, eternamente seremos a cidade do já teve, dos novidades salvadoras que morrem (literalmente) na praia. Descobri que o bairro Politeama chama-se assim porque ali havia um teatro pra 600 pessoas. O Teatro do ICEIA, onde Elis Regina cantou, está acabado. O Cine Jandaia (na foto de Tiago Lima, acima), está desse jeito aí; e por aí vai. Como disse noutro artigo, “Salvador decretou sua desgraça, sua ruína e sua sina de ser uma cidade fracassada quando derrubaram a Igreja da Sé pra passar uma linha de bonde”.

Algumas salas de cinema do Circuito Sala de Arte estão para fechar, e sabe o que isso significa pra Salvador? Significa que talvez a cidade não mereça, não saiba aproveitar ou mesmo não esteja conectada com as diversas artes que pululam na cidade.

As salas podem fechar; o que será lastimável e uma falta (e vergonha) imensa para um grupo minúsculo, eu incluso. As salas podem continuar, devido a parcerias públicas ou privadas, ações de gestores públicos e patrocínios da iniciativa privada. Entretanto, continuaremos numa luta que é muito maior que salvar tal sala de cinema ou teatro. É a luta pelo real valor da arte em Salvador. E pra isso, muita coisa precisa mudar, a começar por nossa própria inércia em dialogar com a potência artística dessa terra.