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 Gil Vicente Tavares

 
 
Massa, messe e missa; Feliciano e a inteligência omissa
27 de Abril de 2013 19:26

Voltando de uma parada gay, certa feita, parei num ponto de ônibus na esperança de
conseguir algum transporte de volta pra casa. Como era de se esperar, a demora estava
grande e um rapaz, com aparência de morador de rua, olhos bem vermelhos, meio trôpego,
sem camisa, vociferou: “aí, ó, não tem transporte por causa dessa passeata aí dos viado.
Daqui a pouco vai ter dia dos estrupador, dos assassino…” e cruzou os braços.

O Brasil tem uma agenda que precisa ser cumprida, e que diz respeito a questões que são
polêmicas quando analisadas sob o ponto de vista pessoal ou religioso. O ponto de vista é
pessoal, a agenda de um país não pode ser feita de acordo com a sua ou minha opinião, e
sim de especialistas, de pessoas capacitadas a entenderem as necessidades, viabilidades e
possibilitarem, buscarem meios para que tudo seja feito da forma correta.

O mesmo vale para a religião. Legalizar o aborto, descriminalizar as drogas, casamento e
adoção de casais homossexuais, todas essas questões podem incomodar sua ética, sua
religião, seus deuses, ou deus. Então, simplesmente não aborte, não case com alguém do
mesmo sexo, não consuma drogas de forma legal. A questão pessoal confunde-se com a
religiosa e não pode pautar as discussões de um país laico e cujas necessidades prementes
não podem esperar ou ficar reféns de algo que não diz respeito ao Estado.

Opinião, todo mundo tem. Preconceito, como o do rapaz citado no primeiro parágrafo,
muitos, mas muitos têm. Assim como tem gente que diz que preto é inferior, ser gay é
doença, judeu tem que ser banido, árabes são terroristas, existem muitos que comem cocô,
rasgam dinheiro, dizem ser a reencarnação de Napoleão e por aí vai.

Ultimamente, temos concentrado – como é usual do brasileiro – nossas críticas em certas
figuras, representativas de um todo. Críticas, inclusive, que vêm fortalecendo uma figura
completamente imbecil como Marco Feliciano, por exemplo, que a cada dia fala mais
asneiras. Em pleno século XXI, levar a sério o que esse sujeito fala é como ser seguidor de
qualquer das ideias acima. Aí é que entra, pra mim, o grande problema.

A estupidez, arrogância, preconceito, tudo isso sempre fez parte da humanidade. Junto a
isto tudo, ideias estapafúrdias, ilógicas, estúpidas e perigosas. Contudo, perigosas por quê?

Se eu sair agora andando por Salvador comendo cocô e dizendo a todos que me sigam
comendo cocô pelas ruas, vão rir de mim, pensar que sou maluco, e vou ser ridicularizado.

Contudo, a partir do momento em que milhares começam a me seguir, comendo cocô e
comprando a preço de ouro cocô na minha mão para ser comido, a coisa muda de figura.
(Desculpem a escatologia. Mas ela, pra mim, é tão ridícula, nojenta e abjeta quando as
ideias preconceituosas, virulentas e ilógicas de muitos).

Eis aí o xis da questão que passa ao largo da discussão do momento: as massas. Não vou
teorizar sobre elas, não tenho competência nem estofo para tal, e acho que Wilhelm Reich
escreveu um livro seminal que nos faz entender Adolf Hitler e Marco Feliciano na exata
medida: Psicologia de massas do fascismo.

 

Contudo, queria aqui chamar a atenção não para o pastor, mas para quem o segue, para
quem acredita nele e para as condições que permitem a bestialização do humano. Mais
assustador que as palavras tresloucadas, mentirosas e perversas de Feliciano, em seus
últimos sermões, é ver a quantidade de gente com olhos fechados, balançando a cabeça em
concordância.

Adolf Hitler era uma pessoa medíocre, fraca, covarde, sem carisma e sem sucesso. Mas a
criação do monstro que mudou a cara do mundo, deixando nela uma cicatriz
incomensurável, deveu-se a fatores sociais, econômicos, educacionais e, notadamente,
culturais. O filme Arquitetura da destruição, de Peter Cohen, explica como, através de ideias
que perpassavam a cultura, Hitler foi formatando seu pensamento eugênico, antissemita e
tirânico, e a partir daí podemos ver – sem acreditar – como um povo todo submeteu-se a
isso, aceitou e assumiu seu discurso.

Vivemos num país de maioria extremamente ignorante, analfabeta funcional, de limitação
intelectual assustadora. Todos os que amam o povo devem ter lido isso e pensado o quanto
sou elitista, preconceituoso e sei lá mais o quê. Justamente por isso, não percebem o quão
opressor é ignorar e legitimar esse achatamento cultural e educacional a que a grande
maioria da população é submetida; em todas as classes, diga-se de passagem. (Contudo, nas
classes mais abastadas, e abestadas, a brutalidade é bem mais complicada, pois são pessoas
com condições de acesso, mas que pouco se interessam em sair da ignorância, falta de
leitura e burrice).

Vamos para um exemplo prático. É muito fácil um doutor em sociologia, musicólogo, viajado
e de mente aberta, olhar um fenômeno como o pagode e dizer que ele é algo que merece
ser aplaudido, que é uma manifestação legítima e autêntica de uma sociedade, e identificar
ali méritos, qualidades e potencialidades. Eu reconheço isso, também. Mas percebo, assim
como vários, o valor do pagode, da manifestação, da festa do corpo e da riqueza do ritmo
com uma bagagem cultural e com a possibilidade de uma diversidade cultural ao meu
alcance.

A pessoa que está marginalizada das possibilidades culturais e que tem apenas o pagode, o
sertanejo, enfim, as músicas que chegam pelas rádios, tvs e festas de sua rua, bairro ou
praça, não tem a perspectiva cultural dos intelectuais, pensadores e artistas relevantes que
legitimam aquilo. Eu posso curtir Psirico e depois ver um DVD do Pagliacci, de Leoncavallo.
Posso assistir uma dança de Carla Perez e depois ver o filme Pina, de Wim Wenders. São
perspectivas diferenciadas, cada uma com seu valor, com sua autenticidade – e odeio essa
de alta e baixa cultura. Tudo é cultura, tudo tem seu valor, mas para saber medir valores, é
preciso conhecê-los, é preciso ter referências, leitura, conhecimento; só assim pode-se
aproveitar o mais rico e melhor de cada coisa. E essa volta toda que fiz tem um retorno e um
destino.

Os seguidores de Marco Feliciano não têm condições de medir os valores das questões, das pessoas, das ideias. No belíssimo sermão Sexagésima, o imperador da língua portuguesa,
Vieira, diz que “para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos,
espelho e luz” e conclui: “que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem
dentro de si, e ver-se a si mesmo?”. O padre, genialmente, em seu sermão, questiona
porque os sermões não mais funcionam, não mais tinham força de mudança, não mais
serviam como antes. Ele constata que deve-se ao fato de que não mais “o ouvinte vai do
sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si…”. O discurso de Feliciano acusa
o diferente, não pretende ser um agente transformador do indivíduo, mas sim legitimador
de um comportamento, ideologia, preconceito, acusando o outro. Seja o gay, o negro, o
católico, a pessoa de candomblé, ele vai discursando mostrando que os que estão ao seu
lado são os abençoados por não serem como os demônios lá de fora. Há um conforto
generalizado por se estar seguindo o caminho do bem e uma sensação de “os escolhidos”
vai ao encontro de todos os momentos mais nefastos da humanidade, quando um povo, cor,
crença ou ideologia resolveu atropelar seu diferente perseguindo-o, acusando-o,
tolhendo-o da liberdade de exercer sua naturalidade, sua cultura, sua vida.

Os demônios já foram os comunistas, já foram os judeus, já foram os próprios evangelistas,
juntamente com Jesus Cristo. A situação de estupidez, cegueira e ignorância das massas
levou Cristo à cruz, judeus ao forno crematório, comunistas às salas de tortura. Não fosse a
aceitação, legitimação e fé das massas em ideias absurdas, nem Hitler e nem Feliciano, nem
a Santa Inquisação e nem a noite de São Bartolomeu teriam acontecido.

Nosso país sofre de uma grave crise cultural e educacional. Analfabetos funcionais, mídias
imbecilizantes, faculdades sem qualidade, alunos e professores sem capacitação; “neguinho
não lê, [...] neguinho nem quer saber…”, diz a letra de Caetano Veloso, que traduz bem a
atual situação do país. E deixo claro: “neguinho que eu falo é nós”. Somos parte desse lixo,
que lutemos, rejeitemos, aceitemos ou apenas ignoremos a desgraça estabelecida.

Caetano diz, no entanto, num artigo em que discute a eleição de Marco Feliciano, que vê “o
crescimento das igrejas evangélicas como uma forma de progresso no nosso caminho para
onde devemos ir”. Eu discordo. Nada contra qualquer religião e que alguém acredite em
deus e/ou deuses. É uma forma bonita de olhar o homem, a vida e a morte, a natureza e
nosso destino. Mas o crescimento das igrejas evangélicas no Brasil está ligado a
determinadas igrejas evangélicas. Gente de bem tem aos montes em todas as religiões,
assim como malfeitores.

Não respeito nem aceito uma religião que tenha como base o ódio. A religião como
autoconhecimento, busca do divino, mais amor e compreensão é uma bela forma de
crescimento da alma, do espírito, seja ela qual for. Agora, uma religião que acusa e
demoniza outras, que utiliza sua pregação para condenar outras formas de amor, de crença,
de cultura e comportamento, e ainda quer, com isso, interferir na agenda de um país, isso é
um mal virulento e danoso à sociedade. Além disso, vemos o enriquecimento de pastores,
gente comprando água suja como santa de Israel, queimando em “fogueiras santas” seus
pertences, adquirindo tijolos de plástico para sua moradia ao lado o Senhor. De repente, as
piadas tornam-se realidade e uma multidão pateta transforma-se em renda para os espertos
e massa de manobra ideológica, de forma imbecilizante e assustadora. Uma legião de tolos
que pode atolar o país.

Ouço bastante e atenciosamente quem entende de determinados assuntos como
legalização das drogas e do aborto, e não há lógica nem questão social nenhuma que possa
ser contrária a isso, assim como é evidente pra mim a necessidade de legalização do
casamento homossexual (e, por tabela, a criminalização da homofobia).

Muitos têm batido na “situação”, por não lutar contra esse mal nefasto que está tomando
conta do legislativo, e o próprio Marco Feliciano ameaçou Dilma de retirar o apoio de seu
partido e de 50 milhões de fiéis (imaginem o estrago que 50 milhões podem fazer, em
diversos aspectos e sentidos). Contudo, ninguém cobrou uma ação enérgica da oposição, e
nem essa mesma se manifestou em momento algum contra essa loucura. Cadê Aécio,
Marina e Campos que não batem de frente com Marco Feliciano para conquistar a simpatia
dos sensatos? Todos, estão todos presos aos votos, aos apoios, e os oportunistas da
ignorância, burrice, estupidez e preconceito das massas vão mantendo-se no poder,
ganhando mais e mais poder, e oprimindo e impedindo cada vez mais o cidadão de ter
acesso aos bens mais caros que são a cultura e a educação plena.

Enfim, mais preocupante que as ideias absurdas e estúpidas de um homem, é a massa que
acredita e segue o que ele diz. Esta deveria ser nossa maior preocupação. Falsos profetas
sempre existirão, contudo não indomáveis e nem invencíveis: e a cultura e a educação
podem salvar um povo e extirpar dele qualquer sombra do mal.

“As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas
pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras
do diabo”, alerta Vieira. Deus é amor, ou ao menos deveria, para quem crê nele. No
entanto, o que eu vejo é cultivar-se o ódio ao próximo, e um “moinho de homens que nem
jerimuns amassados / mansos meninos domados, massa de medos iguais”, como diria a
famosa canção.

Eu acredito na transformação através da cultura, da arte, do conhecimento e da educação.
Única salvação, que não se avista, para o buraco negro que está a nos sugar a consciência, a
razão e a sensibilidade.

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Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas e diretor artístico do Teatro NU. Atualmente, apresenta um programa diário na rádio Metrópole FM, 101.3, das 13h às 14h, junto a Nara Gil e Ildázio Jr, falando sobre arte e cultura.