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 Gil Vicente Tavares

 
 
Algo de nobre no reino da Dinamarca, algo de plebe na província de Salvador
8 de Junho de 2013 18:53

Estudando Hannah Arendt para uma encomenda de peça que me fizeram sobre no nazismo, deparei-me com uma situação que me chocou, me deixou estarrecido e me fez acreditar um pouquinho mais no homem.

Ao falar das deportações da Europa Ocidental, no capítulo X do livro Eichmann em Jerusalém, li sobre uma situação que fez o próprio Eichmann declarar que “por várias razões a ação contra os judeus na Dinamarca foi um fracasso”. O episódio da invasão nazista em solo dinamarquês mostrou que, em alguns momentos, não pode haver a questão quanto a ser ou não ser. Você tem que ser. E se você for, e outro for, o empregado e o patrão, o judeu e o viking, o fúcsia e o âmbar forem, cada um entender que é um todo que se junta ao todo e pode mudar; eis a questão. E com a “Questão Judaica” não foi diferente.

A invasão ocorreu em 1940. Em duas horas, o governo se rendeu. A Dinamarca abrigava mais de sete mil judeus, dentre eles uns mil e quatrocentos alemães refugiados. E veio a primeira ordem: como em todos os lugares ocupados, os judeus deveriam usar uma estrela amarela no peito para serem diferenciados dos “arianos”.

Segundo Arendt, “quando os alemães os abordaram, bastante cautelosamente, quanto à introdução do emblema amarelo, eles simplesmente disseram que o rei seria o primeiro a usá-la”. Outras fontes dizem que o rei Cristian X usou a estrela e o povo dinamarquês também, e, em consequência disso, a estrela foi pro espaço. Independente da real história – que, sabemos, não existe, a verdade é uma ficção –, o fato é que a Dinamarca mobilizou-se para que os judeus não fossem marcados como gado.

Prontamente, o rei declarou que não existia uma “Questão Judaica” na Dinamarca, passou a desfilar de cavalo pelas ruas diariamente, afirmando seu status de rei, e, do outro lado, “irromperam tumultos nos estaleiros dinamarqueses e os trabalhadores das docas se recusaram a consertar navios alemães, entrando em greve em seguida”. Autoridades alemãs, já há bastante tempo no país, sabotaram ordens de Berlim. Em primeiro de outubro, data escolhida para deportação dos judeus, foi preciso trazer unidades de polícia da Alemanha, pois não se podia confiar nem nos dinamarqueses, nem nos judeus, e, nem tampouco, nas tropas estacionadas no país há tempos.

Os líderes judeus tiveram tempo de anunciar nas sinagogas o ato, os dinamarqueses dispuseram-se a acolher e esconder os judeus, e apenas 477 deles foram pegos, porque não entenderem, captaram ou souberam do aviso, e abriram suas portas por livre escolha. Mas o plano nazista deu errado. Além disso, cidadãos dinamarqueses ricos financiaram a fuga dos semitas, com a ajuda da frota pesqueira da Dinamarca, para a Suécia, onde receberam documentos e empregos. Arendt conclui, falando dos nazistas, que, estes, “quando encontraram resistência baseada em princípios, sua ‘dureza’ se derreteu como manteiga ao sol…”.

Não houve atos extremistas, que surgem a partir de uma massa revoltada por algo momentâneo e relacionado a uma situação específica , e que geram baderna, violência, confusão. O exemplo da união do povo dinamarquês com seu rei, do entendimento de que homem algum merece ser tratado de forma distinta, e, acima de tudo, como uma nação unida pode surpreender, enfraquecer e combater o mal sem pegar em armas, sem queimar pneus, sem vandalismo, apenas com a consciência de coesão, determinação e unidade, me faz lembrar a frase bíblica: “Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá” (Mateus, 12:25).

Mas por que relatar tudo isso, hoje, agora?

Bem, primeiramente, acho que é importante sabermos da história do mundo através das exceções, e não simplesmente pelos livros que generalizam, fazem um voo raso pelos momentos cruciais da nossa saga por este planeta sem se debruçar sobre os casos que, contrariando a regra, abrem caminhos de esperança.

Contudo, é vendo minha cidade, Salvador, que toda a história faz sentido, num contraponto com a desarticulação e falta de compromisso ético e político de todos e, notadamente e principalmente, daqueles que poderiam fazer a diferença.

Há um incentivo velado, nebuloso, para que nos fechemos em guetos, na cidade. São eles sociais, étnicos, políticos e, acima de tudo, e, resumindo tudo, culturais. Nesses guetos, iludimo-nos de que nos fortalecemos, temos voz, somos úteis, agimos pelo bem do nosso grupo e, assim, fazemos nossa parte para uma cidade melhor (sob o ponto de vista do seu agrupamento social).

Dentro destes guetos, sabemos dos problemas graves de Salvador. Pontuamos os defeitos de outros grupos sociais e culturais pertencentes e influentes, de alguma forma, na teia funcional de nossa província. Mais natural ainda é desqualificar o discurso dos outros – infernos da gente –, e, assim, pensamos estar solidificando nossa tribo, fortalecendo uma confraria e, com isso, criando uma blindagem e ao mesmo tempo uma sabotagem em relação aos que não fazem parte do nosso “time”.

Cada um em seu gueto pensa que, sabotando e alijando o outro, terá uma maior força, proteção e oportunidade. Essa ideia tribal corrobora uma disputa por espaço e poder que é ilusória e nossa grande desgraça.

Uma das maiores facilidades que os portugueses encontraram para apoderar-se das terras tupiniquins foi incentivar a disputa por espaço e poder entre as tribos. Uma a uma, elas foram destruindo-se, foram vendendo-se, aliando-se ao poder devastador da colonização, que muito bem usou a estratégia da cooptação; que falarei mais abaixo. A ideia de cidade, estado, nação, desconhecida dos índios, prevaleceu como violência cultural, devastando identidades, independências, legitimidades de posse e terra, espaço e poder. Não deveria ser assim com a gente, que já faz parte dessa cultura citadina.

Existem forças políticas que vêm mandando em Salvador há séculos, algumas há décadas, mas estabelecidas como absolutas; mesmo sem percebermos (falei sobre isso em meu artigo anterior). Essas forças políticas já se transformaram numa eminência parda que sufoca nossas ações. É algo que vem não sei de onde e dói não sei por que, mas já está introjetado num projeto de falência de Salvador.

É comum vermos, em corredores, mesas de bar e efemérides, pequenos grupos, até mesmo duplas, trios, que discorrem sobre teorias e mais teorias a respeito da decadência da província, propondo, inclusive, soluções e apontando possibilidades. Vemos, também, esses mesmos grupelhos falando mal dos ausentes, dos que fazem parte de outros guetos, grupos, tribos. No entanto, ao apoderarem-se de certos cargos, comissões, ao obterem uma projeção ou poder, vemos como tudo muda. Por um lado, as soluções são minadas por um autoboicote, covardia, ou vontade de que as coisas não mudem para que se possa permanecer do jeito confortável do momento. Por outro, essas pessoas, ao ganharem algum poder – momentâneo, ou não – aproveitam-se deste para destruir, boicotar, demolir o outro; seja ele alguém, um grupo ou um “time”.

Com isso, percebe-se na estratégia de cooptação uma alternativa ao alijamento. Conheço diversas pessoas que criticavam instituições, governos, grupos e nichos sociais e que, cooptadas por estes, passando a pertencer ou ter certo poder nos mesmos, mudaram seus discursos, calaram-se ou passaram a apoiar o que antes era motivo de crítica.

A desunião fortalecida na mente do povo de Salvador parece ser vista, equivocadamente, como estratégia de defesa. Defesa para que o outro não cresça e te derrube: ideia já reforçada de que estamos na cidade CONTRA o outro, e não COM o outro; estamos na cidade APESAR do outro, e não POR CAUSA do outro. A ideia desintegrada de malha social, de teia, rede, rizoma, apenas, e destrutivamente, faz com que nada cresça, nada evolua, nada se destaque. Até porque, pensa-se que o destaque do outro te prejudica, a ascensão do outro te diminui, e o confronto de ideias é sempre o da negação, jamais o do consenso e busca do bem comum. Não se percebe que o crescimento de alguns acaba por puxar o crescimento de outros, e não o contrário.

Duvido que todos amassem Cristian X, o rei da Dinamarca. Duvido que os dinamarqueses todos tivessem profundo carinho pelos judeus. Duvido que toda a frota pesqueira tenha se decidido pela extradição dos judeus com unânime e equânime vontade e disposição. Duvido, também, que todos os ricos do país tenham resolvido fazer um grande fundo de salvação da causa judia.

O que aconteceu na Dinamarca foi a confluência lógica de pensamento de um povo que, unido em todas suas classes sociais, étnicas, culturais e profissionais, percebeu a estupidez, desumanidade e absurdo do nazismo. A Dinamarca uniu-se não pelo que a diferia em seu povo, mas pelo que a unia em prol de uma ideia de dignidade, respeito, honra e nobreza de caráter.

O nazismo não foi inevitável. Um país conseguiu mostrar, unido, coeso, que é mais forte que qualquer invasão, destruição e discórdia. Os relatos de Arendt, ao longo do livro, mostram como jogos de interesse, em diversos países, fizeram com que o nazismo se apoderasse dessas nações. O nazismo encontrou em certos homens, em seus países invadidos pela Alemanha, o caminho para disseminar seu mal. Até mesmo líderes judeus contribuíram para o holocausto, para a desgraça de seu próprio povo; fosse por medo, por chantagem, por ameaça ou poder. As táticas de alijamento ou cooptação funcionaram, cada uma ao seu modo, em diversas nações (basta pesquisar sobre a ocupação francesa e Vichy, pra se ter um exemplo). Contudo, nada abalou a união do povo dinamarquês.

Há uma luz para Salvador, sim. Contudo, como no mito da caverna, de Platão, a facilidade débil das sombras faz com que a gente impeça qualquer caminho ao encontro da luz. Enquanto ficarmos em guetos, em gangues, times, tribos, uns tentando derrubar os outros, uns falando mal dos outros, uns puxando o tapete dos outros aqui debaixo, o grande nada, a grande escuridão deixará nossa ensolarada cidade devastada e obscurecida pela sombra do mal.