Página Inicial  |  Perfil  |  Equipe  |  Contato  | 
Links

  

redacao.noticia@noticiacapital.com.br
71 9128-9520

 
  Home - Poesias - MP dos médicos, PQP dos artistas
 

Categorias

  Brasil
  Cultura
  Cursos & Concursos
  Dos Blogs & Sites
  Economia
  Educação
  Entrevistas e Reportagens
  Esporte
  Geral
  Internacional
  Mosaico
  Municípios
  Notas
  Opinião
  Politica
  Salvador
  Saúde & Medicina
  Turismo
 

Colunistas

 Agenor Calazans
 Aldo Trípodi
 Alessandra Nascimento
 Gerson Brasil
 Gil Vicente Tavares
 Guto Amoedo
 Kim Niederauer
 Marcelo Torres
 Valter Xéu
 Vitor Carvalho
 

Serviços

  Coelba
  Embasa
  Auxílio a Lista
  Prefeitura de Salvador
  Previdência Social
  Receita Federal
 
COLUNISTAS
 Gil Vicente Tavares

 
 
MP dos médicos, PQP dos artistas
16 de Julho de 2013 10:58

Em 2001, quanto estive em Barcelona, conversava com meu anfitrião sobre a realidade social da capital catalã. Ele me explicava que quase todo mundo do círculo de amizades dele ganhava um salário parecido, a diferença entre o maior e menor salário era pequena. Com isso, havia uma igualdade de poder aquisitivo que fazia com que muita gente frequentasse os mesmos restaurantes e concertos, vestisse roupas de qualidade parecida, enfim, tivessem uma vida social equilibrada; sempre com um serviço público de qualidade para todos.

O Brasil é conhecido por sua imensa desigualdade social. Um salário mínimo muito mínimo, e salários “máximos” exorbitantes, desnecessários e acintosos. Vivemos o eterno problema da concentração de renda e uma classe política que gasta e desvia muito mais o erário do que o põe a serviço da população. Temos serviços públicos historicamente deficitários, que estimulam as classes menos favorecidas a tentar possuir um carro, um plano de saúde, colégio particular para os filhos, e no que tange à cultura, temos um orçamento abaixo do mínimo recomendado pela UNESCO.

Recentemente, o Brasil foi surpreendido com a MP dos médicos, anunciada pelo Governo Federal, que, dentre as propostas, indicava que após a residência, os estudantes de medicina deveriam – com registro profissional provisório – ficar mais dois anos atendendo pelo SUS, em locais deficitários de médicos.

Não tenho a capacidade intelectual da maioria dos meus amigos de redes sociais para fazer análises sobre uma área que desconheço. Nunca frequentei cursos de medicina, não conheço o currículo, não ando por postos de saúde do interior, não sei quanto cada instância investe na saúde e quais são as atribuições, obrigações e responsabilidades de cada um nessa história. Contudo, algo me chamou bastante a atenção. O salário proposto pelo Governo Federal seria de R$10.000 (dez mil reais)*. Em termos práticos, o aluno de medicina que saísse de sua residência – obviamente preparado para a profissão, visto que atualmente é assim que acontece – sairia de sua universidade pública com um estágio garantido de dois anos, ganhando experiência, retribuindo, ou, para não soar como cobrança, contribuindo para melhoria da situação deficitária desse imenso Brasil, e ganhando R$10.000 por mês.

É público e notório que medicina é um dos cursos mais requisitados pela carreira financeira que a profissão permite. É difícil imaginar seu médico indo para o trabalho de ônibus, ao seu lado. Sabemos que rapidamente há uma ascensão financeira, e, assim que podem, os médicos fogem de carreiras públicas e passam a rejeitar planos de saúde para atender somente particular. A ascensão social vem, paradoxalmente, associada e uma formação profissional mecânica, desalmada, muitas vezes descuidada e despreparada. Erros médicos, péssimos atendimentos, atrasos em consultas, tudo isso vem aliado à atitude individualista e carreirista de muitos que pensam em subir na vida sem pensar, necessariamente, nas vidas que se deixa pra baixo.

O governo parece querer que os alunos de faculdades públicas que, assim que puderem, serão médicos abastados e afastados da grande maioria da população de parco poder aquisitivo, deem um retorno para a sociedade atendendo, durante dois anos, a população mais carente através do SUS. Médicos e estudantes prontamente gritaram. Professores e diretores de faculdades de medicina renomadas, com ponderações, concordaram. No entanto, de tudo isso, vou me limitar a falar de algo que pra mim evidenciou essa abissal diferença de valoração de profissões e como o Brasil configura-se socialmente.

Pensemos não na metade, mas em um terço do valor que um estudante receberia do governo por dois anos. Seriam R$3.400 (três mil e quatrocentos reais), arredondando. Eu paro e penso quantos estudantes de outras faculdades achariam ruim, após terminar sua graduação, ter garantido um estágio – onde ele adquiriria experiência, conheceria mais a fundo problemas e necessidades que o fariam crescer profissionalmente – ganhando R$3.400.

Em toda minha carreira, incluindo os quatro anos em que fui um dos autores de um sucesso teatral baiano, se eu juntasse o total que ganhei num ano e dividisse por 12 não daria esse salário por mês.

Remetendo-me à minha graduação, penso que eu adoraria, recém-formado, ganhar mais de três mil reais para viajar por regiões desfavorecidas, carentes de arte, lecionando teatro, dirigindo peças, transmitindo meu razoável conhecimento adquirido na universidade. Eu jamais encararia como um fardo a atrapalhar o começo da minha carreira profissional, mas, na verdade, como o início da minha profissão.

Penso, também, que atores, diretores, professores de teatro, democratizando seu conhecimento, seriam um ganho fantástico para as estruturas amadoras, deficitárias e marginais das diversas estéticas e bibliografias. Sempre que viajo pelo interior, a demanda é recorrente por bons, efetivos e consistentes cursos de teatro. Há uma carência teatral imensa de formação, de conhecimento e experiência ao redor do país.

“O artista é a antena da raça”, “na Grécia, os médicos recomendavam como remédio a ida a teatro”, “o teatro é um avançado meio de civilização, mas não progride onde não a há”. Diversas frases comprovam o valor e a necessidade da arte como remédio para alma, como formação do homem em sua subjetividade e sensibilidade, como provocação e estímulo ao intelecto, ao raciocínio, como fortalecimento da criatividade, da leitura, da percepção poética do mundo e das pessoas. Contudo, políticas públicas estúpidas, falta de sensibilidade da iniciativa privada, péssimos salários dos professores – imagino que com os de artes isso seja ainda pior –, desvalorização da carreira, surto de burrice e insensibilidade generalizada, preguiça mental, tudo computa contra o teatro. A forma de reverter essa situação seria através da Arte, essa arte com letra maiúscula que pouco importa em colégios, em editais públicos, em mesas de gerências de marketing, na mídia impressa e audiovisual.

Desconfio que se o Governo Federal propusesse à maioria dos alunos de faculdades públicas que trabalhassem dois anos, ao terminar seus cursos, atendendo aos mais necessitados e desvalidos de suas especialidades, ganhando três, quatro, cinco mil reais (metade do proposto aos estudantes de medicina), não seria, de modo algum, incômodo ou ofensa. Muito pelo contrário. É recorrente vermos, na minha área, pessoas que se formam em direção, licenciatura ou direção e vão viver de outras funções, sem poder transmitir seu conhecimento e nem tampouco exercer a função para qual elas foram preparadas em universidades públicas, com cada vez mais não só benesses, como bolsas, transportes de graça, alimentação barata, residências universitárias mais bem equipadas, etc.

De certa forma, há um abismo paradoxal entre um estudante de medicina e um de teatro, no geral. O primeiro forma-se numa universidade pública com o objetivo de, o mais rápido possível, trabalhar no privado, ascendendo socialmente e economicamente, num projeto de carreira particular em todos os sentidos do termo, depois de ter seu estudo financiado pelo dinheiro público. O segundo, no qual também foram investidos recursos públicos, ao invés de partir para o privado, para o particular, sem retornar o investimento feito pelas instâncias públicas, desperdiça esse dinheiro ao desviar o foco de sua carreira por necessidade de sobrevivência, e não para ascender socialmente e economicamente.

Não serei leviano em desprezar o valor de um médico. Inclusive, seu valor é essencial para a sociedade e acho fundamental que haja uma formação adequada e de qualidade para que tenhamos bons médicos para a população. Contudo, a grande maioria da sociedade acaba por não ter acesso a um profissional qualificado, com boa-vontade, com dedicação. A primeira justificativa que muitos dão é que os salários são baixos. R$10.000 para um aluno recém-saído de uma universidade é um salário baixo?

Definitivamente, vivemos vários brasis, várias realidades sociais e econômicas, que fazem o país viver sempre numa grande desestrutura e injustiça. Um professor doutor, adjunto, ganha numa universidade um salário bruto igual ao que um estudante de medicina poderá receber ao sair da faculdade, sem ao menos fazer o esforço de se candidatar a uma vaga. Ele, automaticamente, para concluir sua profissionalização, terá que ganhar os míseros R$10.000 por mês durante dois anos, além dos auxílios moradias, etc. (ressalto que meu foco, aqui, é o salário, e não a medida como um todo, essa obrigatoriedade, os dois anos a mais além dos seis do curso somados graduação e residência, etc., não tenho competência nem conhecimento suficientes pra isso).

É claro que com esse salário, durante dois anos, a ascensão econômico-social do futuro médico será desacelerada, ele não poderá abrir sua clínica, nem atender cobrando valores impagáveis pela maioria da população. Ele irá demorar mais para ter seu apartamento de quatro quartos, depois uma cobertura, seu carro utilitário, suas viagens internacionais, camisas lacoste, vai reclamar mais dos gastos com escovas, pés, tinturas e mãos da esposa, talvez não possa fazer um suntuoso casamento, muita coisa lhe será vedada, a princípio.

Eu vivo num Brasil onde ninguém precisa de cobertura de prédio, carro gigante, jet-ski. Precisa-se de transporte público digno, segurança nas ruas, calçadas e árvores. Resido num lugar onde, pela carga tributária que pagamos, deveríamos ter saúde e educação gratuita e de qualidade. Moro numa nação que deveria olhar mais para o lado, para o outro e o diferente com carinho e cuidado, que deveria, assim, cuidar mais de sua arte e fazê-la se espraiar pela imensidão desse país carente de tudo, uma nação que merecia ser mais viajada e viajante por si, com cabelos crespos, lisos, ondulados, com diversas cores misturadas em plateias, postos de saúde e salas de aula.

O Brasil em que eu vivo é um país onde todos deveriam ter serviços públicos de qualidade e poderiam ganhar em torno de R$10.000.

 

 

 

*Esse valor é especulativo, pode ser corrigido até 2015, quando passaria a vigorar a MP, e li noutro site que os valores iriam variar entre uns R$4.000 e uns R$11.000. De qualquer forma, são valores acima dos R$3.400 usados como referência para o artigo.