Coluna A Economia da Salvação

      



O rito se transforma

Por Biaggio Talento

Se no passado a regra do bem-morrer do católico era, através de testamento minucioso, determinar como distribuir os bens a parentes, amigos e instituições religiosas, indicando também a celebração certo número de missas para salvar a alma, as preocupações nos dias de hoje das pessoas que se preocupam com o fim da vida, são outras. Matéria recente publicada pelo portal UOL indica que cresce a tendência de se registrar como quer ser tratado quando estiver próxima da morte: é o chamado “testamento vital”, documento elaborado “enquanto você está consciente das suas decisões e que especifica quais são os tratamentos e procedimentos aos quais deseja (ou não) ser submetido em uma situação terminal. Não precisa estar doente para redigir o seu, basta querer”, diz o texto. Ou seja, é a determinação de desligar (ou não) os aparelhos...

Estar consciente do que pede como desejos finais, é a versão moderna de uma característica marcante da elaboração de testamentos nos séculos XVIII e XIX quando, geralmente, o testador (o que manda fazer o testamento) diz ter decidido escrever suas últimas vontades em “plena consciência”, sem a pressão de algum interessado a receber a herança. Veja o caso do ex-escravo Turíbio Ferreira de Matos, que viveu em Salvador no século XIX, tendo elaborado seu testamento em 1864. Logo no início ele diz: “estando doente de cama e em meu perfeito juizo e entendimento e por não saber a ora que o Senhor Deos será servido chamarme faço este meu testamento, pela forma e maneira seguinte”.

No nosso século XXI, citada na matéria do Uol, Neuza de Carvalho, 87, anda com o seu DAV (Diretivas Antecipadas de Vontade) na bolsa “e um aviso colado no RG sobre onde encontrá-lo, caso sofra um acidente na rua e seja levada para um hospital. A professora de biologia aposentada está com a saúde em dia, anda por São Paulo, frequenta cursos e dá palestras, mas diz que ‘se deu conta de que seu tempo não é mais muito grande [não sabe a hora que Deus irá chama-la]’. Por isso, desde 2014, reconheceu em cartório, ao lado dos dois filhos, o seu testamento vital”.

No passado não exista fim pior que uma morte súbita, sem as preparações adequadas para o pós-vida. A crença era que sem as disposições e tarefas finais passadas aos que ficam (por exemplo, o pagamento de dívidas), além dos ritos fúnebres necessários, o espirito do defunto iria vagar entre os dois planos – terreno e espiritual - sem conseguir encontrar o caminho certo no mundo dos mortos.

Agora, quando o mundo espiritual deixou de ser uma preocupação para muitos, o que se busca é uma morte tranquila, sem sofrimentos para si e seus familiares. Dona Neuza pediu: “caso eu seja acometida de alguma enfermidade incurável, os cuidados devem ser resumidos a medidas paliativas para aliviar dores, inquietação e medo. Quero morrer com dignidade e paz. E se de for possível, no meu ambiente familiar. Recuso terminantemente alimentação forçada ou artificial. Em caso de UTI, exclusivamente se tiver chance real de sair em no máximo uma semana. Solicito aos meus médicos que aceitem este testamento vital e procedam de acordo com a minha vontade. Outra decisão não tem qualquer interesse para mim”. A reportagem revela que busca tirar “o peso da responsabilidade dos familiares”, pois teve um cunhado que ficou mais de dois anos entubado. “Vi minha família desestruturada completamente, sem saber o que fazer quando foram questionados.” É um ato de amor aos parentes. Ela não se preocupa com a salvação da alma, quer apenas “morrer com dignidade”.