A corrida dos féretros

      



Por Biaggio Talento

Um antigo administrador do Cemitério Quinta dos Lázaros – necrópole que atravessa atualmente grave crise de superlotação – contou, certa feita, a repórter da sucursal do jornal O Estado de São Paulo uma estranha tradição tragicômica existente no local, que persistiu até o final da década de 1950. Quinta dos Lázaros sempre foi o cemitério mais popular de Salvador. Tendo caráter ecumênico atraia adeptos do catolicismo, candomblé, além de evangélicos e budistas, todos com suas particularidades para homenagear os mortos. Isso sempre provocou uma mistura entre o pitoresco e o sacrílego.

Quando só era possível chegar ao Quinta a pé, tornava-se comum o encontro de dois ou mais cortejos fúnebres diariamente. No passado as pessoas realizavam o velório em casa e levavam o caixão na mão até o cemitério. Ou então, um veículo deixava o féretro no local mais próximo possível do lugar do sepultamento. Foi aí que um esperto comerciante, com boteco estabelecido na parte de baixo da ladeira do Quinta dos Lázaros “estimulou”, por assim dizer, estranha competição, prova do espírito debochado do baiano: os participantes das romarias fúnebres apostavam um ou mais engradados de cerveja para ver quem chegava primeiro no alto, na porta do cemitério, carregando o caixão do defunto. Havia juízes, linha de partida e tudo que caracterizava uma corrida tradicional.

O morto que aguentasse o balanço poderia partir dessa vida com a última vitória terrena. Os que seguravam o caixão vencedor ganhavam a “grade” de cerveja para refrescar. O "dérbi" também fazia a festa dos apostadores inveterados que aproveitavam a situação para apostar uns trocados.