Moinhos de Vento pós-modernos

      



Por Reinhard Lackinger

Aluno é aluno, não importa a idade! Aluno é aluno, sendo criança ou adulto, com ou sem experiência de vida.

Eu já era um quarentão experimentado, preconceituoso e cabeça dura quando resolvi fazer uma “pós”, como dizem os jovens de hoje.

Numa das matérias desse curso de pós graduação eu tive que fazer um trabalho sobre a arquitetura pós moderna de interiores de hotéis.

 

Os hotéis e respectivos interiores que eu havia conhecido até então eram antigos e baratos, com móveis fabricados ainda na época da Monarquia do Danúbio e no século XXI. Sem falar dos hotéis familiares, que conheci quando ainda era solteiro, viajando de ônibus por este Brasil afora. Dava até para sentir o cheiro da comida preparada no recinto.

 

Na verdade, como metalúrgico, eu não entendia nada de arquitetura! Era preciso pesquisar sobre esse assunto pouco atraente. Como eu ainda não tinha computador nesses primeiros anos de 1990, tive que satisfazer-me com o que achava na biblioteca da escola e com as dicas do professor.

Sei que fiz um bom trabalho. Não por convicção própria, mas porque levei um “S” na matéria.

O que ficou na minha cabeça e no meu coração depois dessa experiência, desse mergulho na pós-modernidade, além da gratidão pela avaliação injusta e demasiadamente boa foi a minha aversão a tudo que era pós-moderno!

 

Até onde penetrei no assunto, eu não consegui gostar de ambientes pós-modernos, nem dos materiais empregados.

Diante dos meus olhos preconceituosos desfilavam móveis com geometria imprevisível, feitos de madeira compensada e cobertos por fórmica. A cor que predominava era o preto, contrastando com vermelho chinês, amarelo limão, azul turquesa e verde abacate. Por todo recinto havia peças de metal em cores tipo eloxal. A exemplo do tubo dourado do descanso dos pés e no entorno do tampo do bar. Nas paredes dos ambientes pós-modernos havia pinturas abstratas sem molduras. Bancos e poltronas forrados com couro artificial.

Os espaços destinados ao convívio das pessoas ou eram extremamente claros, com imensas janelas e luminárias, ou então escuros como o cenário preparado para a apresentação de um mágico. Com spots direcionados para garrafas, copos e o tampo do bar.

 

A impressão que colou na minha mente era de que os conceitos dessa pós-modernidade não conversavam uns com os outros. As diversas peças, os móveis e tudo que compunha esse universo pós-moderno, pareciam estar no fórum esperando pelo juiz e a audiência que iria pôr um fim num casamento. Mesas, cadeiras, lustres, poltronas, tapetes... nada parecia querer comunicar-se com coisa alguma.

Falo tanto da não-relação entre os objetos de decoração, como entre o arranjo dos adereços e as pessoas convivendo naquele meio.

O que mais me faltou nesse décor pós-moderno foi um vínculo, uma ligação, um elo para com o passado, com a história!

Do nada vieram de novo aquelas imagens do filme “Africa Addio” dos anos 1960, com o povo eufórico com a saída do homem branco das colônias da África, com as câmeras filmando todo aquele quebra-quebra de ítens de consumo que representavam a presença dos europeus no continente africano.

 

Será que só eu enxergo esse divórcio, essa separação premeditada do estilo pós-moderno com a modernidade?

Qual interesse estaria por detrás desse movimento? Eles não devem ter inventado a pós-modernidade só para desagradar e pirraçar um sujeito ligeiramente retrógrado como eu!

Será que essa não-relação entre o pós-moderno e o público – em boa parte composto por gente idosa – é realmente planejada e premeditada? Ou será apenas mais um delírio de um sujeito preconceituoso que vê em tudo uma conspiração contra o povo?

 

Conhecendo pela primeira e provavelmente última vez o bairro Poerto Madero de Buenos Aires compreendi o que um amigo falou a respeito da arquitetura e da urbanização daquele sítio. Ele dizia que aquilo era um “não-lugar”! Eu concordei com ele!

Interrompemos a volta que estávamos dando por Poerto Madero na metade do percurso, pegamos um táxi e nos refugiamos em Recoleta.

Lá adoramos caminhar pelas calçadas com um comércio de rua vibrante, cheio de lojas vendendo de tudo que se pode imaginar, livrarias, restaurantes e cafeterias.

 

É no comércio de rua que sinto a relação sadia entre o ambiente e o cidadão... de hoje e de ontem! Refiro-me a bairros, onde as casas ao longo das ruas não foram construídas num mesmo momento como é o caso dos shopping centers!

Falo de uma pluralidade que só existe no comércio de rua, com os seres humanos imprimindo sua cultura! Com cada indivíduo experimentando, expondo e participando da vida da cidade!

 

Sinto nos shopping centers e em bairros artificiais como Poerto Madero a mesma angústia que sinto em ambientes pós-modernos. Em espaços, onde o ser humano parece fragilizado desde a entrada, premido, coagido e constrangido a seguir por corredores e praças de alimentação. Um roteiro parecendo curral e corredor polonês, forçando o frequentador a consumir! Cadê a liberdade que há no comércio de rua? Ela definitivamente não existe nos templos do lazer e do consumo em massa!

A impossibilidade de se mover o assento de uma lanchonete mostra bem a falta de autonomia que as pessoas têm nessas instalações!

Naqueles estábulos de demanda induzida, a liberdade do indivíduo deve e precisa ser limitada, suprimida eliminada! Não há espaço para coisas que não sejam padronizadas! A autodeterminação e a soberania do cidadão não existe nos shopping centers. Lá ele é reduzido a um mero consumidor.

O mesmo parece valer para ambientes pós-modernos! A assepsia e a esterilidade dominam a situação, impondo um modus vivendi tipo “Admirável Mundo Novo”, onde o passado fora abolido!

 

Insisto em bater na tecla da pluralidade! Continuo achando uma violência querer obrigar o consumidor em potencial, o transeunte e visitante ocasional a ajustar o comportamento dele segundo as conveniências do mercado!

Vimos isso ontem com o desaparecimento das belas barracas das festas de largo de Salvador. Antigamente, cada barraqueiro esmerava-se, ornamentando o ponto de venda de comida e bebida com pinturas únicas. Era uma tradição de muitas décadas, com gente de mais ou menos cultura escrevendo a história das festas de largo de Salvador.

Cultura, que foi extirpada, aniquilada e arrasada para dar lugar à mesmice de tendas impostas pelas cervejarias.

Além de proibir a expressão religiosa e mundana dos barraqueiros, o poder público passou a vetar também a comercialização de determinadas marcas de bebida. Com a obrigação de vender apenas um tipo de cerveja, o gesso e a imobilização do indivíduo ficou completo!

Resta-nos a criatividade dos vendedores de cafezinho! Esses ainda tem a liberdade de construir e decorar os carrinhos deles, guiando e levando as garrafas térmicas pelas ruas da cidade e até os taxistas, porteiros de prédio e outros consumidores desse líquido capaz de acelerar os batimentos de muitos corações sofridos.

 

Falando sério, ouso considerar o estilo chamado “Shabby chic” o oposto da pós-modernidade. A palavra “shabby” vem do iídiche “shäbby”, do alemão “schäbig”, que significa gasto, puído, carcomido.

Trata-se de um amontoado simpático de velharias, de antiguidades. De peças herdadas de entes que já desencarnaram há tempos, ou que foram adquiridas em mercados das pulgas ou em brechós.

Madeira de lei, natural ou pintada, couro, ferro batido, linho e brocado são os materiais mais comuns empregados no estilo “shabby chic”!

Espera-se do estilo “shabby chic” que apresentem sinais nítidos de uso ao longo de épocas! Quanto mais desgastada a superfície de um tampo de bar, de um braço de poltrona, de uma pintura feita a mão num guarda-roupas antigo, maior nobreza e mais valor a peça tem!

Eventual marca preta causada pela brasa de um cigarro ou charuto deve ter o valor de uma medalha militar conferida por bravura.

Importa para mim no caso do estilo “shabby chic” a presença do passado, da história! A forte ligação do presente com a cultura de ontem. Mensagens da luta dos antepassados enviadas através de antiguidades desgastadas com o passar das tempos em que o povo lutava por direitos trabalhistas...

 

Estarei tão equivocado se eu pensar que a pós-modernidade ignora propositalmente a relação entre os seres humanos e tempos idos? Não havendo vestígios ao nosso redor que tenha algum vínculo com objetos que alguém um dia produziu, construiu ou utilizou, elimina-se nega-se o passado!

 

Agora querem mexer com o currículo escolar, retirando matérias como história, filosofia e sociologia!

Estaríamos diante um desmonte de nossa cultura? Estaria havendo uma conspiração, uma tentativa de alguém em nos transformar de vez numa mera multidão de consumidores satisfeitos, alegres, conformados e incapaz de questionar coisa alguma?

 

Cabe a nós nos rebelarmos e lutar contra essa massificação, evitando que se comete mais esse crime contra a humanidade!