Escultores Contemporâneos Brasileiros: momento e circunstâncias

      



Com abertura ocorrida em 31 de janeiro, a Exposição Escultores Contemporâneos Brasileiros, reunindo obras de 17 artistas brasileiros ocupa o Casarão do Museu de Arte Moderna da Bahia, na Avenida Contorno, em Salvador. A entrada aberta ao público, com visitação de terça-feira a domingo, das 13h às 17h, e fica em temporada até 5 de março. Exclusivo para a mostra, o escritor Claudius Portugal escreveu o texto a seguir:

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente...”. Esta frase de Marx vem logo ao pensarmos o que escrever sobre esta ação que o Museu de Arte Moderna da Bahia traz a público, com o título de Escultores Contemporâneos Brasileiros.

Vamos então iniciar pelo que se define sendo escultura. No dicionário, ‘representação estética tridimensional de um objeto em diversos materiais’. Ou lendo o verbo esculpir: ‘desbastar terra, pedra, madeira, para criar esculturas. Isto representado por bustos, estátuas equestres, e similares’. A escultura era o monumento, marcado pela tradição naturalista.

Conforme Giulio Carlo Argan, “uma representação comemorativa. discurso demonstrativo de valores históricos e ideológicos, uma alegoria plástica e arquitetônica, representados pela figuração, cuja função seria a da retórica e da persuasão”. Mas hoje não temos mais estes limites. Rodin é visto como o pai da escultura moderna.

Chega-se ao século XX e nela, sem seguir uma cronologia, temos as colagens cubistas, o ready-made duchampiano, os futuristas, a action painting norte-americana e seu interesse em invadir o espaço, a minimal art, Povera, os experimentalismos de grupos - concreto, neoconcreto, Fluxus, etc.

Mesmo sendo uma redução arbitrária o parágrafo acima, serve para expor que o que antes se considerava escultura, na sua assimilação, por seus elementos físicos, fazia agora o público deixar de meros observadores para se tornarem atores. O objeto artístico rompia sua representação e contemplação, como um convite para exercer uma expressão do espaço real, de forma táctil, audível, olfativa, como “veste” para o nosso ser.

Isto está nesta exposição no MAM, com obras de Amilcar de Castro, Cildo Meireles, Emanoel Araujo, Frans Krajcberg, Franz Weissmann, Iole de Freitas, José Resende, Ligia Pape, Lygia Clark, Mario Cravo Júnior, Raul Mourão, Rubem Valentim, Sérgio Camargo, Sérvulo Esmeraldo, Tunga, Waltércio Caldas, ao abranger muitas das tendências, no Brasil, a partir da segunda metade do século XX, e com ela a oportunidade para que se analise e se dialogue sobre quais as possibilidades (circunstâncias?) da arte agora.

Obviamente é um recorte, muitos outros nomes poderiam estar aqui presentes. Um recorte diacrônico e sincrônico, o individual e o coletivo, um painel em algumas de suas variantes, para que cada um de nós se torne seu autor/ator, e que ao vivenciá-las analise e reflita sobre as circunstâncias do que aqui se mostra e suas consequências como ação ou herança para os dias de hoje.

Sem descartar a história, apesar de ter lido em E.H.Carr, no livro Que é história? “O historiador é necessariamente seletivo”, disto como consequência, “é o historiador quem escolhe a que fatos dar a palavra e em que ordem do contexto”, é necessário mais do que nunca conhecê-la, estudá-la, digeri-la, vomitá-la, nunca ignorá-la.

Crendo que não está nas soluções de ontem que responderemos os problemas de hoje, não está nas velhas roupas originais guardadas no armário, e a exibição de suas inúmeras variantes uma das trilhas ainda a se seguir, é que me coloco diante de uma das possibilidades de ver esta mostra.

Com esta visada me vejo ao encontro nestas obras de uma circunferência abrangente do contemporâneo. Utilizo a forma circular, pois nela se põem explícitas o dentro e o fora, e o que isto propõe como algo bem mais amplo, qual seja instigar e provocar uma conversa que atravesse possibilidades acessíveis, ou não, nestes múltiplos caminhos que estão sendo feitos ou se fazem hoje e agora por mais ninguém que nós mesmos.

 

Abro um parêntesis. Devo logo dizer que este texto está sendo escrito sob o efeito da atmosfera, da cobertura e das citações de uma ideia de Bauman - a retrotopia, título do livro deste pensador polonês falecido em janeiro de 2017, onde discorre sobre um “desencanto generalizado em relação ao futuro e as utopias”.

 

As circunstâncias levam a que este alcance nesta sua exibição, diante de uma caminhada entre dificuldades, se tenha uma possibilidade para verificar como anda a arte, ou como transitam seus artistas, ou o que é um museu, sua função, forçando que esta sua passagem atravesse palavras como abandono, indiferença, medo, luta, poder, força, corpo, obra, ou corpoobra, linguagens que se sobrepõem, autonomia, experiência, trabalho, invenção, e tudo mais que possa ser incorporado como construção para uma opinião.

É na opinião de cada um de nós, advinda da leitura das obras, individualmente e em seu conjunto, com o repertório próprio de cada um, que está a finalidade maior desta mostra. Ela exercita a consciência de que tudo que nos acontece e que vivemos, ou vivenciamos - ainda mais num tempo e momento em que grassa uma agressividade intrínseca instintiva e impulsiva, armada por uma violência incontrolável, uma impotência, e como toda impotência, autodestruitiva -, está disponível para uma boa e velha conversa. É nesta consciência do diálogo que as obras e a mostra criam o que pode nos levar a que possamos deixar de sermos espectadores para sermos protagonistas de nós mesmos.

A importância desta mostra, diante do momento e de suas circunstâncias, não está simplesmente em promover arte ou artistas, é natural que traga este aspecto em seu bojo, nem em apresentar uma ação, que a arte em si possui de sempre se renovar diante das adversidades, ainda mais quando em tempos de censura, de dogmatismos, de puritanismos, de demandas, de “mercado” e de mercadoria, mas, sim, a se constituir em elemento a mais para reflexão, e desta a escolha - em Sartre, “o homem vive de escolhas, e são através dessas escolhas que o homem manifesta a sua presença”.

Escultores Contemporâneos Brasileiros vai um pouco além de uma mera mostra de esculturas. Espalha significados: o MAM na primazia dos espaços públicos baianos nas artes visuais ao agendar uma exposição da maior qualidade estética; coloca em ação não apenas obras e artistas no que se denominam esculturas, mas seus desdobramentos e significados para o século XXI no Brasil; e junto a estes expõe, efetivamente, momento e circunstâncias, reflexão e e consciência, elementos que sempre podem conduzir para a construção da arte, ou da vida, ou artevida, ainda mais quando o tempo não está para se poder viver como de resistência, mas, sim, de reexistência