O “Filósofo do Deserto” e os caminhos da escrita

      



“O medo do esquecimento apavora, por isso todos querem deixar suas pegadas. Sugiro que num memorial de pequenos feitos sejam registrados os hábitos mais insólitos. Não ouso dizer quais seriam os hábitos dignos de nota, a lista não teria fim, além do que estaria sujeita a contestações variadas”. “O mundo não me intimida só porque é violento ou caótico – não temo sua feiura. Inquieta-me o que nele há de pequeno e silencioso, e a sua sedução fabricada”.

Esses dois parágrafos são do romance do escritor Márcio Salgado: o “Filósofo do Deserto”; lançado recentemente em Salvador. Márcio é baiano mora no Rio há muito tempo. Não há personagens caudalosos ou de viés psicológico e muito menos trágico. Brás, talvez seu altero ego, empreende uma viagem para consagrar sua inquietação.

A literatura está nos autores de forma variada, e quem sabe esse seu seja seu grande logro. Nem sempre o leitor é surpreendido com grandiloquência ou tramas e desfechos encantadores. Há outros espaços. No caso deste livro, a mulher, o livreiro, Agostinho, Dolores e Brás são despistes para a escrita prosseguir seu caminho, entre dúvidas e comentários; breves.

Estamos falando de quase um relato, uma crônica, um texto que não deseja agarrar o leitor, impor-lhe uma avaliação, suscitar ou levá-lo a prestar a atenção e reivindicar uma tradução ou um insólito compreendo. “Então sigo tranquilo, no mesmo passo, pois é dessa forma que se percorrem os grandes desertos”.

A narrativa do “Filósofo do Deserto” leva o leitor a uma cumplicidade amorosa e divertida, sem a obrigatoriedade de gostar. “Escrevo com temor estas linhas, o ofício de escritor está fora do meu escopo. O leitor perguntará porque o faço. Logo direi, para que não se perca tempo e oportunidade; faço-o por um dever de consciência”.

Sabe-se que as narrativas são multitudinárias, estão por toda parte, embalando romance, conto, tragédias, comédia e até mesmo bilhetes e cartas. Onde houver uma frase a narrativa está presente.

Mas em o Filósofo do Deserto, a narrativa prescinde da história. Brás faz comentários, mas não encontramos, a geografia, a mathesis, a física, a química, muito menos a gastronomia e o que dizer das intempéries do tempo.

Tomamos conhecimento de Dolores na sua rotunda afirmação: “Ah! Gosto de comprar coisas incomparáveis”.

Estamos diante de uma escrita que prepara sua consciência, sem enunciar certezas, talvez um ioiô de gestos. “Admiro os que procuram o sentido da vida nos pequenos atos, os que riem dos seus dramas, glosam as suas tragédias. Quando digo tchau anuncio o começo de uma nova aventura, não determino como será o percurso. O viajante sabe que o desapego ilustra a paisagem”.

A narrativa – embora com séculos de afastamento – se encontra com a de Montaigne, que não empreendia caminho para dele voltar,”nem para o perfazer; empreendo-o apenas para me mexer, enquanto o movimento-me agradar”.

O Filósofo do Deserto está nas livrarias LDM, no Shopping Paseo e na livraria do Cine Glauber Rocha.