Aquele gol de Zico faz 40 anos

      



Por Marcelo Torres
Dia 3 de junho de 1978. Lá se vão quarenta anos. Era a estreia do Brasil na Copa da Argentina contra a Suécia. Eu, um menino de dez anos, via pela primeira vez, na tevê, uma partida da seleção. No Junco, a luz elétrica acabara de chegar e o sinal de TV era difícil, mas na casa de Fernando de Caboco, um local alto, pegava bem.

 

E fomos lá, uns trinta patriotas, entre meninos e adultos, mulheres e barbudos, todo mundo juntinho, sentados ombro a ombro no chão da sala, diante de um televisor preto e branco. Tempo de festas juninas, a mesa cheia, comes e bebes, o amendoim, o bolo, a canjica, o licor de jenipapo.

 

Um dos presentes era Raimundo, conhecido como Vovô, apelido que ganhou por parecer mais velho do que era: tinha vinte e pouco, mas aparentava quarenta. Era, contudo, uma alma pura, não mexia com ninguém. O povo é que brincava com ele, dizia que ele decorava palavras bonitas e as usava sem sentido.

 

Eu o conhecia de vista e de chapéu, morando no mesmo lugarejo, mas, pela diferença de gerações, até ali nunca tinha ouvido antes sua prosa, as “palavras difíceis” de que o povo tanto falava.

 

Antes do início do jogo, quando ainda estávamos em pé e espalhados pela casa, fiquei ouvindo a conversa de Vovô com Édson de Edgar. Este dizia que os argentinos, jogando em casa, seriam campeões. “Ora, os argentinos”, replicou Vovô. “Os argentinos só têm um título e nem é de campeão”.

 

Disse ele: “O único título da Argentina é que eles inventaram o gol olímpico, não o lance em si, mas a expressão, o nome do gol”. "Em 1924 o Uruguai, campeão olímpico, disputou um amistoso com a Argentina. Esta venceu por 2 a 1. Como o gol da vitória foi de escanteio, os argentinos disseram que foi um gol olímpico”.

 

Eu não acreditava no que ouvia. Como ele sabia tudo aquilo? E Vovô: “Eu sei essa história, Édson, porque o autor do gol foi um tal de Cesáreo, que vem a ser o nome do meu bisavô”. Incrédulo, eu tremia. De surpresa, de emoção. Aí chegou a hora do hino nacional e mandaram que ficássemos todos em “posição de sentido”, eretos, em respeito a um dos símbolos da pátria.

 

Depois fomos nos acomodando pelo chão. E a peleja começou em Mar del Plata. Bola para lá, bola para cá, jogo chocho. Perto do fim do primeiro ato, gol da Suécia, mas, logo após, gol do Brasil. O segundo tempo também foi aquele jogo morno, sem emoções, bola vai, bola vem, até que, na última volta do ponteiro, o Brasil ganhou um escanteio pela direita, a nossa última chance.

 

O lateral Nelinho pegou a bola. “É um exímio chutador”, disse o narrador. “Seu chute pega um efeito, a bola faz curva". Vovô virou para Édson: “Vai ser gol olímpico de Nelinho”. E lá veio a bola voando, como um pombo-correio a trazer a boa-nova para nós, os patriotas de chuteiras. Fácil, Zico botou o cocuruto na pelota e... gol do Brasil!

 

Nós pulamos, nos abraçamos, mas o árbitro anulou o lance. “Ele apitou o fim do jogo”, disse Fernando. “E pode terminar no escanteio?”, perguntaram. “Pode, só não poderia terminar se fosse cobrança de pênalti”, concluiu ele. Fernando de Caboco era o árbitro oficial dos jogos que aconteciam no campo de bola do Alto do Cruzeiro.

 

Vovô foi até a mesa. Lá levantou um copo, virou a metade e falou: “Foi um gol líquido”. Respirou, ergueu de novo a bebida, sorveu a outra metade e: “Foi um gol líquido”. Estava todo mundo sem graça, ninguém riu. E de fato não era para rir. Quem quisesse que fosse olhar no dicionário. Líquido também significa claro, límpido, exato — e assim tinha sido o gol de Zico.

 

Depois desse dia, lá se vão quatro décadas, toda vez que um soprador de apito anula um tento do meu time, eu lembro de Vovô e lanço um grito mudo até a infância: “O gol foi líquido, seu juiz!”

 

Marcelo Torres é jornalista, baiano, torcedor do Vitória.