Racismo sistemático e maldito

      



Jolivaldo Freitas
Quando Spike Lee - excepcional diretor de cinema -, negro norte-americano, esteve na Bahia algum tempo atrás, perguntou aos seus anfitriões o motivo pelo qual Salvador, sendo uma cidade predominantemente negra, não elegeu um governador ou senador negro. O que ele não sabe é que 130 anos depois da Lei Áurea uma preocupante parte de brasileiros brancos ainda acha que ser negro é ser inferior. Mas o Brasil não está sozinho. A Organização das Nações Unidas (ONU) denunciou, ano passado, que aumentou de forma inquietante o racismo lá pelas bandas do hollywoodiano Lee. Nos Estados Unidos, que historicamente é uma nação racista, e na Europa (seguindo-se a tendência dos países europeus ao culto do nacionalismo), a intolerância passa a ser generalizada.

Por aqui, o Mapa da População Preta & Parda no Brasil, divulgado mês passado, mostrou um dado diferente sobre o que é real em nossos municípios e país afora: quase 57% dos domicílios possuem maioria de pretos e pardos. No entanto, o que chama a atenção atualmente é o que vem ocorrendo na Bahia, onde sua capital é majoritariamente negra, chegando nos mais de 52%. Salvador é a cidade com maior número de descendentes de africanos em todo o mundo, com gente que começou a chegar pela Baía de Todos os Santos no século XVI, com origem em Gana, Nigéria, Benim e, posteriormente, de Angola. Depois da capital baiana, a África está mais representada em Nova York. Mas o racismo tem aumentado nos últimos anos.

Daí que – nunca foi raro - temos mais um caso de racismo em Salvador, agora contra uma cabeleireira que foi chamada de “macaca”. Laina Fernandes Pereira denunciou à polícia e ao Ministério Público que foi agredida, via WhatsApp, por ser negra e baiana. “Macaca”, “baiana burra” e “merece a morte” foram as frases que ela recebeu e sentiu o quanto é doloroso o racismo em todas as suas instâncias. Ela é mais um caso da xenofobia que grassa o Brasil e revelada sob o manto escuro das redes sociais. Seu caso vem se juntar aos casos recentes de racismo explícito ou preconceito, como o envolvendo a estudante do curso de Produção Cultural na Universidade Federal da Bahia Ana Paula Bispo que acusou funcionários da loja Riachuelo, do Shopping Iguatemi; e do ator Leno Sacramento, do Bando de Teatro Olodum, que foi vítima de tiro por parte de policiais civis. São muitos os casos.

Conforme revela a Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), este ano foram registrados na Bahia 60 casos de racismo. No Ministério Público, são 168 ocorrências anotadas. Estudiosos acham que a tendência é piorar a questão, porque melhorando-se os indicadores sociais do país, os mais pobres – que são, na maioria, os negros e pardos – terão mais acesso ao consumo e a frequentar ambientes antes restritos aos brancos. Estarão em maior número nos teatros, shoppings, cinemas, hotéis, restaurantes e ficarão mais expostos.

Mas é preciso lutar contra a intolerância, não achar que faz parte do cotidiano, que o racismo é parte da cultura. Saiba, com certeza, que quem professa o racismo vai sempre criar um expediente para agredir, humilhar ou demonstrar sua ira e bílis. Basta lembrar que logo após a Lei Áurea as autoridades passaram a prender os negros por vadiagem. Qual negro tinha emprego? Surreal, mas verdadeiro!

Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista