A PARDOCA DE PIRAPORA

      



Por Ernane N. A. Gusmão 
Estou sentado à mesa do Restaurante e Churrascaria Barreto’s em Pirapora, nas barbas do Velho Chico, o Rio da Integração Nacional, aguardando o petisco número um daquelas barrancas, filé de surubim assado na brasa. Sinto-me totalmente à vontade, mesmo não sendo o “caipira pira pora” da conhecida modinha do cancioneiro são-franciscano; afinal de contas sou meio baiano e meio mineiro, baianeiro diriam uns, mineiro do norte, fronteiriço, acertariam outros. Mas vivo na Bahia desde pequenininho e agora estou de férias, de passagem por Pirapora, enlevado na majestade histórica do Rio dos Currais que desce tamborilando na leve corredeira bem aqui na minha frente, quase me molhando os pés, levando correnteza abaixo os pensamentos, as minhas lembranças de Xique-Xique e Juazeiro, as saudades de Penedo e do Pontal do Peba, lá na foz deslumbrante das Alagoas, que agora reflito sobre o caudal.


Nesse devaneio gostoso surpreende-me a pardoquinha perneta, em meio ao alarido dos pardais sobre as mesas vazias do restaurante. O bando vai e vem - revoa lépido para os galhos da amendoeira vizinha quando alguém se aproxima do prato de arroz propositalmente esquecido, como sempre, assim me confidenciou o maitre, sobre a única e tradicional mesa dos alados comensais, fregueses gratuitos e diários do restaurante, e volta pressuroso, quando o garçom já passou. Gulosos, os pardais disputam cada porção do banquete e a pardoquinha perneta não tá nem aí para a falta que a perninha direita lhe faz desde que, talvez uns dez anos passados, alguma pelota de estilingue a ceifou.


Diz-me o Mac, garçom aportado na Barreto’s há mais de seis anos, ao chegar lá encontrou a pernetinha já veterana frequentadora do local. Ela é então uma das matriarcas do bando, criou certamente muitas ninhadas e como toda pardoca que se preza já deve ter invadido ninhos alheios e escorraçado das redondezas até os voluntariosos, patriotas e aguerridos bem-te-vis. Acabo de conferir nesta reflexão os meus conhecimentos de velho e apaixonado passarinheiro, quando a pernetinha pousa novamente a fome sobre o ímã do arroz. Dá uma bicada no acepipe, desequilibra-se, bate freneticamente a asinha direita, volta a erguer-se, mantém-se instavelmente ereta, bica de novo os grãos, bandeia involuntariamente o corpo, bate a asinha, reequilibra-se, lá vem passando um freguês recém-chegado, descamba à direita, voa para o galho mais próximo levando ainda no bico o último naco abocanhado. Descansa de tanta canseira, o ventre pousado para alívio da perninha remanescente.


Penso cá com meus botões, será que os pardais monopedestam melhor com o pé esquerdo, como os homens? Se assim é, deve ter sido menos difícil para a pernetinha aguentar a barra dos primeiros tempos sem a perna direita. Ela está lá na amendoeira, pachorrenta, arriada de corpo inteiro, aguardando a chance de nova decolagem.


Vem finalmente o meu espeto de surubim assado, um manjar dos deuses que a prodigalidade do Velho Chico nos oferece simploriamente. Almoço de olho no peixe e no passarinho, o grelhado descendo ao estômago, as asas subindo à cabeça. Meus filhos ao lado concordam comigo, é um exemplo luminoso de vida esta pardoquinha perneta. Privada há tantos anos do apoio destro, vive diuturnamente um sinistro e instável equilíbrio monopédico, disfarçável apenas quando repousa o ventre nos planos e quando alegremente saltita, como se fora um alado saci. E nem por isto lhe parece menos álacre a revoada, à qual reúne os seus alegres chilreios; decola meio de banda, como um teco-teco com excesso de peso lateral, mas faz disto o seu encanto maior; voa, e bem, como todos os pardais sabem voar; pousa assim desconcertada, num pé só, mas logo se acomoda com o ventre todo assentado; disputa seu arroz no prato e suas migalhas no chão, no peito e na raça, sem reclamar qualquer protecionismo; está gordinha, gordinha, feliz como se nada houvesse na face da terra a ameaçar sua bem-aventurança.


Ah!, minha cara pardoquinha barranqueira, amei te conhecer. Se nada mais me acontecer de bom nesta viagem de férias, envolto nas minhas saudades, eu me darei por satisfeito com a tua lição. Sigo em frente, agora mais ainda sem queixumes da vida. Garanto, vou escrever e difundir a tua história, para muita gente lamuriosa se mancar. E em cada momento de provação que a vida me reservar, terei presente a tua imagem de luta e fé, como se cada um deles fomentasse em mim a vontade de mais viver.