SOMOS TODOS IMORTAIS

      



Por Ernane N. A. Gusmão 
Um dos maiores temores, e ao mesmo tempo um dos enganos do ser humano, é o medo da morte. Abomina-se a morte face a razões aparentemente justificáveis, tais como o receio de não haver outro mundo para além da nossa esfera de vida; a sensação de finitude mortal das coisas; o pavor das chamas do inferno; a ojeriza às provocações do purgatório; o abandono aos entes queridos; a perda dos bens materiais; o apego à vida terrena. Bem sabemos, os médicos, o quanto dói uma morte sofrida, destilada gota a gota nas agruras dos hospitais; muitas vezes sozinho o moribundo, abandonado pelos seus, separado de tudo o que se viveu e desprezado por tudo o que se amou; morrer silente “sem uma mão que afaga e enxuga o rosto de palor molhado pelo orvalho da morte em alvorada”.


Há por outro lado uma visão ridente da morte, confuciana, que nos ensina a morrer sorrindo enquanto os expectantes pranteiam, contrapartida do nosso choro nascituro em meio à alegria dos que nos assistiram nascer. Esta visão da morte só seria passível de vivência pelos que houvessem trilhado os caminhos da vida na plenitude feliz tributária dos deveres cumpridos, a consciência pejada pelo refrigério satisfatório de haver feito sempre o bem.


Esta segunda imagem aproxima-nos mais da espiritualidade embasada na comunhão plena com as forças do mundo, identidade tal que nos conferiria a certeza de estarmos apenas mudando de esfera ou forma de vida e mantendo a nossa energia vital na engrenagem geral do cosmo. Tal espiritualidade nada tem a ver, obrigatoriamente, com a visão religiosa ou deísta, de sorte a poder ser comungada não apenas pelos adeptos de determinado credo, como também pelos agnósticos, ateus, materialistas. Para estes últimos neste caso caberia bem o rótulo “ateísmo místico”, posto proporcionar evidências de sintonia com as vibrações do universo, fé na reciclagem tanto da matéria quanto da alma, se bem seja esta compreendida como inquietação ou energia daquela.


Quando o ser humano compreende realmente a sua posição no concerto universal, passa a crer nas forças telúricas, no ânimo vital como um todo, na reciclagem eterna das formas e da energia que as condiciona. Neste ponto dicotomizam-se as crenças, abraçando uns os preceitos religiosos e outros a espiritualidade espontânea das coisas. São antagônicas as posições apenas pelo fato de um dos ramos do pensar aurir as suas certezas na suposta realidade de um Deus criador, enquanto o outro nutre a sua fé universal na certeza de um deus criado. Para uns, o homem é o topo da criação, conquanto os mais avançados teólogos já o admitam como etapa de um processo gradativo na plasmagem do mundo vivente. Esta concepção menos arraigada no Velho Testamento aproxima-se razoavelmente da corrente darwinista segundo a qual o ser humano é apenas a ponta do processo evolutivo das espécies, em contínua e lenta marcha de aperfeiçoamento no bojo da seleção natural.


De tudo o que se tem dito, pensado e escrito sobre a origem e o fim do homem, nada mais nefasto que as supostas “verdades”. Dentre tais certezas, toma assento presunçoso o dogma da criação divina - é dele que nasce o aforisma, se “Deus criou, dispõe”; se tem, manda, escraviza; se retém, provê o destino, cuja finitude vai ao céu ou ao inferno, talvez também ao purgatório, na trilogia escatológica do cristianismo. Outros credos mudam a maneira da dissertação, sem desvalidar o início e o fim da criatura plasmada “à imagem e semelhança” do criador. O Juízo Final está aí, brandindo a cada momento o látego aos pecadores e bafejando de aromas celestiais os cordeiros de Deus. A espiritualidade deísta e religiosa é acessível à população, e a ela também se atrelam figuras iluminadas como que a demonstrar a pluralidade das concepções da mente humana.


Não se conhecem exemplos de homens obtusos e ateus. Os bárbaros sempre tiveram seus deuses e as tibiedades das mentes sempre também os procuraram. Nietzsche deixou escrito “a consciência da fraqueza, da pobreza e do sofrimento dá origem a exigências morais e a religiões redentoras”. Não se louvarão porém os agnósticos pela simples descrença, mas, sobretudo, pela independência do pensar. Talvez a religiosidade natural do ser humano, em sua incessante busca da verdade, encontre um porto mais próximo e mais seguro no amparo das igrejas - ao filiar-se a um credo, porém, o homem entrega de mãos beijadas boa parte do seu livre-arbítrio, prisioneiro de dogmas e conceitos rígidos, escravo da comodidade de uma explicação para o enigma da vida. Há de se notar o crescimento assustador das novas seitas cristãs em todo o mundo ocidental, particularmente nos países menos desenvolvidos e entre as populações mais carentes. O neo-cristianismo é um grande negócio onde multidões imensas, capazes de encher em uma tarde os maiores estádios, rendem a bispos e pastores leigos quantias fabulosas, inocentemente doadas como se estivessem garantindo um lugar no céu. A própria cúria romana teve suas épocas de assédio financeiro mais explícito, cobrando dízimos e distribuindo benesses celestiais, acoitada por senhores feudais, príncipes e reis, contra o que se insurgiu, no devido tempo, a figura impoluta de Martinho Lutero, um divisor de águas na história das igrejas cristãs.


A religião ensina a morrer em paz com a consciência, a caminho do céu, ameaçando permanentemente com eternos castigos no purgatório e no inferno. O que o homem deve todavia saber é que não existem tais lugares para além da existência terrena e que ele próprio pode fazer da sua vida um paraíso ou uma fornalha. O problema não está no ser ou não ser religioso, mas em viver uma religiosidade natural, no sentido de que o culto seja voltado para a própria natureza das coisas, o poema da vida, que transcende a noção de espiritualidade deísta formal e exalta o deus imaterial existente em cada ser ou objeto, e em nós próprios, acima dos conceitos dogmatizados. A religião, já se disse, “é uma espécie de segundo útero. Toda religião é verdadeira quando compreendida metaforicamente; mas se ela se aferrar às metáforas interpretando-as como fatos, haverá problemas”.


O entendimento desta mensagem nos leva a crer, particularmente para o homem ocidental, distanciado de sua origem na mãe-terra, que ao fazer a ciência uma faxina nos credos, ao longo dos últimos séculos, nos levou também à necessidade de reaprendermos o ancestral acordo com a sabedoria da natureza e reencontrarmos os elos perdidos da consciência da nossa fraternidade com os animais, as plantas, as águas, os ares. Um dos exemplos mais típicos da dissociação entre o homem e a natureza está na identificação da mulher com o pecado, implícita na lenda do jardim edênico, um desvio imposto à história posto não haver felicidade humana sem mulher - “ a semente é o símbolo mágico do ciclo infinito”. A integridade da existência de cada ser humano deve ser cultivada e se todos assim fizessem o mundo dito civilizado mover-se-ia melhor. A finitude das coisas é dolorosa e desta dor nos libertamos quando aprendemos que finitas são apenas as formas eventuais, mas a vida é infinita, recicla-se através as diversas condensações da energia universal. Se pudéssemos caminhar um dia, voluntariamente, na direção da abóbada celeste, veríamos que embora pareça ser uma viagem finita, a cada passo mais longe ela estaria de nós. Depois de muitas jornadas sem nunca chegarmos descobriríamos a suprema revelação - a verdade está em nós próprios, e o verdadeiro fim é o percurso. A cada minuto vivemos a eternidade; e nessa eternidade somos todos imortais.