Networking: Conexão e Inspiração

      



Por Sara Costa
Ser selecionada para participar do Yale Young Global Scholars (YYGS) — o programa de verão da universidade Yale — foi uma sensação indescritível, mas a experiência de vivenciar o programa foi ainda melhor. E o que eu trouxe na bagagem do YYGS, vou levar para a vida toda. A minha session (curso) foi sobre Desenvolvimento Sustentável e Empreendedorismo Social; basicamente discutimos os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU — ou os ODS, para os íntimos — e na culminância montamos um projeto com o orientador do nosso grupo. Contudo, nesse texto, eu não focarei no conteúdo acadêmico do YYGS (isso fica para outro post), ao invés disso, explorarei o que aprendi fora dos auditórios de Yale, enquanto andava para a próxima lecture (palestra) ou tomava café no dinner hall (refeitório).

Eu voltei diferente, algo em mim havia mudado. Agora, apesar de ainda reservada — ou ambivertida — eu conseguia me conectar com as pessoas. O sentido de networking ficou mais forte e mais claro para mim, assim como a necessidade de se rodear de pessoas que te inspiram. Ouvir tantos jovens descrevendo o impacto que eles tinham em suas comunidades, me inspirou a continuar lutando pelo o que eu acho certo, e me deu certeza de que estou na melhor direção que eu poderia estar. Sou uma pessoa um tanto que ansiosa, sempre desejando estar em um lugar diferente daquele em que estou no momento. O YYGS me ensinou a querer estar exatamente onde estou, porque afinal se você quer ser a mudança, não importa realmente onde você esteja, vai ter algo que possa ser melhorado, vai ter algum problema que precisa ser resolvido, terão pessoas que podem ser impactadas com o que você pode trazer para elas.

Vivenciei vários choques culturais — até porque foi a minha primeira viagem internacional. Na verdade, durante o YYGS tive muitas experiências pela primeira vez: minha primeira viagem solo, minha primeira viagem para o exterior, a primeira imersão em inglês, a primeira vez que provei um café do Starbucks. Acho que o choque que mais me fez refletir, foi quando parávamos para conversar e conhecer uns aos outros, nas idas ao refeitório, nas conversas no dormitório, até mesmo nas refeições e durante as discussions sections (sessões de discussão). Eu logo percebi que todos ali, tantos os americanos como os international students, levavam aquelas conversas não como small talks casuais, mas como grandes oportunidades para criar e fortalecer networkings.


Shayma (à esquerda) virou a minha melhor amiga do YYGS enquanto ela me ajudava a usar a máquina de secar
Eles não conversavam simplesmente sobre bandas favoritas, viagens que fizeram ou suas expectativas de vida como uma conversa para passar o tempo. Eles estavam realmente interessados em te conhecer e, principalmente, enxergar no que você poderia contribuir. Isso me fez abrir os olhos para o quanto eu estava perdendo por não explorar todo o potencial das pessoas que eu conhecia. Quantas vezes eu conversei com alguém que se interessava pelas as mesmas coisa que eu, tínhamos debates acalorados, mas depois do bate papo cada um voltava para a sua zona de conforto e ficava por isso mesmo? No YYGS, cada conversa era uma oportunidade para você encontrar seu parceiro ideal. Afinal, aquele estranho que você acabou de conhecer pode ser a pessoa que estava faltando para o seu blog sobre feminismo, ou para formar o time de futebol do seu amigo, ou para cantar na banda da sua irmã. “Ah, mas é um total estranho, nós nem nos conhecemos direito, como que eu vou conseguir me conectar com alguém assim?”. Às vezes, nós nem damos a oportunidade dessa pessoas se aproximarem, talvez porque acreditamos que elas não vão se interessar pelo o que nós temos a compartilhar, talvez por pura timidez; contudo, na maioria das vezes, porque não estamos realmente interessados em nos conectar com essas pessoas e explorar seus potenciais.

Eu acho que isso tem muito a ver com o propósito do InspiraSonho também. Foi por isso que, quando abriram as inscrições para o programa de embaixadores, eu pensei: “É isso! Era disso que eu estava precisando: networking, treinamento e principalmente uma nova oportunidade para me desenvolver como pessoa, para me conectar com outras pessoas e me deixar ser inspirada”. E de repente, aqui estou. Parece estranho pensar que quando eu comecei com meus primeiros projetos, essa rotina de calls, reuniões online, pareciam estranhos para a minha mãe (e de certa forma para mim também) que me via às 22hrs/23 hrs conversando com jovens de outros estados sobre os nossos próximos passos do projeto que havíamos montado. Agora, quando eu passo mais de uma semana sem fazer uma call, ela pergunta: “Onde estão as lideranças? Não vai ter reunião hoje? O pessoal já desanimou?”.


Gabriel (à direita), meu mentorado do YYGS Fellowship Brazil. O Gabriel participou da session IAS (International Affairs and Security) esse ano ★
O novo sentido de networking que o YYGS me fez enxergar, ajudou-me muito na escolha das pessoas que poderiam me apoiar a levar meus projetos à frente. Isso se demonstrou na criação do que mais tarde viria a ser o YYGS Fellowship Brazil — um programa de mentoria para alunos do ensino médio que estão aplicando para o YYGS. Montamos um time com o pessoal que participou do YYGS em 2017, e selecionamos alguns jovens para serem mentorados por nós. Hoje, o YYGS Fellowship Brazil é um dos programas que eu tenho mais orgulho de fazer parte, tanto por ter conhecido outros jovens engajados e por ter ajudado-os a alcançar os seus sonhos. Inclusive, corre lá para a nossa página no Facebook, já divulgaremos o próximo processo seletivo para mentores e mentorados ;).

Um ponto chave dentro dessa discussão sobre o que é realmente uma networking, é como se demonstrar uma pessoa interessante durante essas conversas. Eu já tive o desafio de explicar tudo o que construí nos textos para a application e fazer com que o conteúdo fosse apresentável. Falar sobre nossos projetos, nossos sonhos e ambições para terceiros (e nesse caso terceiros que você nunca viu na vida, vulgo admissions officies - a banca de admissão) é como fazer uma audição para uma peça sem roteiro. Tu podes falar o que quiser, afinal tens liberdade para isso, mas sabes que além do conteúdo a forma escolhida de expressão será igualmente avaliada. Por isso, sempre hesitamos, desconfiamos que estamos esquecendo de algum detalhe, que não fomo claros o suficiente, ou pior que não temos nada de relevante á adicionar para aquelas pessoas.


Meu grupo da discussion section cheio de jovens inspiradores
O que aprendi durante o YYGS foi que, com certeza, todos temos histórias interessantes para contar, no entanto, dependendo de como estruturamos as nossas conquistas, podemos não passar a impressão certa da dimensão do nosso feito; isso foi essencial para mim quando estava tentando me conectar com outros jovens. Quando chegava a minha vez de falar sobre meus gostos e interesses, sobre meus projetos e expectativas, eu sempre gaguejava. Não sabia ao certo como poderia equiparar meus feitos aos daqueles jovens incríveis, alguns já tinham criados organizações internacionais, falavam sete línguas, participavam de simulações da ONU na sede da ONU. No entanto, eu havia chegado lá, estava em um programa altamente seletivo no Estados Unidos, afinal eu deveria ter algo para contar, estava na hora de abrir a boca e deixar meus pensamentos fluírem.

Saber demonstrar para as pessoas as suas conquista é também uma reafirmação para você mesmo de quão incrível você é, especialmente porque, quando somos jovens, costumamos duvidar da nossa própria capacidade de estruturar ações e impactar pessoas. Por isso, rodear-se de pessoas que te ajudam a crescer, que te inspiram a sair da sua zona de conforto é o primeiro passo para enxergar em você o seu próprio potencial.