EXCLUSIVO: “MOA DO KATENDÊ NÃO DEVE SER ESQUECIDO”, DIZ VALTER HUGO MÃE

      



Por Elieser Cesar

Uma das principais atrações da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que acontece até domingo, em Cachoeira, no recôncavo baiano, o escritor português Valter Hugo Mãe chegou pela segunda vez a Bahia antenado à divisão radical no Brasil provocada pelo segundo turno da eleição presidencial. À véspera de embarcar para a Flica, a fim de abrir o evento, o escritor lusitano - nascido há 47 em Angola, então colônia de Portugal - foi muito aplaudido durante um encontro com leitores no quadrilátero da Biblioteca Central dos Barris, em Salvador, ao lamentar a morte do capoeirista e músico Romualdo Rosário da Costa, o Moa do Katendê, morto a facadas, aos 63 anos,  na madrugada de segunda-feira, em um bar do Dique Pequeno, no Engenho Velho de Brotas, na capital baiana, após uma discussão com um eleitor de Jair Bolsonaro.

“Eu quero começar fazendo uma alusão a Moa do Katendê, porque viver é justo e não pode haver nada mais desumano do que suprimir a vida de alguém. E não há sentido num gesto desse, na medida em nós podemos ser antagônicos, ser opositores, mas isso não nos dá o direito de suprimir a existência de alguém. É o cúmulo da desumanização, é o cúmulo da desumanidade”, disse o autor A máquina de fazer espanhóis (2010), O filho de mil homens (2011) e Homens Imprudentemente poéticos (2016).

Hugo Mãe ressaltou que não conhecia Moa do Katendê, mas pelo que ouviu sobre o capoeirista covardemente assassinado pelas costas, faz com que o nome de Moa do Katendê “não mereça ser esquecido, nem silenciado”. O escritor português alertou sobre os perigos da polarização que tomou conta da campanha eleitoral brasileira. Em conversa com este jornalista, antes de se apresentar na Flica, na mesa de abertura “Escritores em um mundo intolerante e deserto de compaixão”, ao lado do escritor baiano Aleilton Fonseca e sob a mediação do diretor geral da Fundação Pedro Calomon, Zulu Araújo, Valter Hugo Mãe afirmou:

- A polarização acontece porque está a serviço do interesse de alguém. Não está a serviço do interesse da população. Isso, para mim, é absolutamente claro. As pessoas ficam xingando o vizinho, xingando o colega de trabalho, xingando o amigo. Elas não entendem que estão a ser deformadas, estão a ser deturpadas por interesses que não são os dela. O inimigo não é o vizinho. O inimigo está corrompendo o sistema.

ROMANCE AMBIENTADO NO BRASIL

De formação humanista, Hugo Mãe tentou exercer a profissão de advogado, acabou desistindo, mas conservou o que considera seu grande legado do aprendizado de direito: “Eu entendi que nunca mais poderia perder aquela consciência jurídica e  que ninguém haveria de roubar a minha concepção de que devemos ter direitos iguais. E mais ainda: ninguém vai me convencer, algum dia, de que os direitos humanos podem ser desprezados”.

Valter Hugo Mãe informou que está escrevendo um romance (ainda sem título) que se passa no Brasil, no período da abolição da escravatura, sobre a complexa amizade entre dois povos subjugados pelo branco português: os negros e os índios. Ele não sabe quanto terminará o livro, mas espera publicá-lo até 2020. Para seus leitores brasileiros, ele deu um recado nestes tempos de intolerância: “O inimigo não é o vizinho, não é o parente. Você nunca deve se excluir, nem excluir ninguém. Quem estiver na cúpula do poder é que está excluído”.
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O autor é escritor e jornalista
Foto: Ítalo Pacheco/FPC