Em despedida, Zé Rafael provoca, elege gols marcantes e agradece: "Saio pela porta da frente"

      



Em dois anos, o meia Zé Rafael deixou o status de desconhecido para se tornar a referência do Bahia. Camisa 10 do time, superou a desconfiança, se tornou liderança técnica do time e ainda ajudou a rechear os cofres do clube. Negociado com o Palmeiras na última quinta-feira, ele rendeu R$ 14,5 milhões ao Tricolor, na maior transação da história da agremiação. Nesta sexta-feira, ele recebeu uma despedida especial na Arena Fonte Nova, com direito a camisa comemorativa. No domingo, faz seu último jogo pelo time, diante do Cruzeiro, no estádio de Pituaçu.

Em dois anos de Bahia, Zé Rafael conquistou dois títulos (Copa do Nordeste 2017 e Campeonato Baiano de 2018). Ao todo, foram 127 partidas, com 18 gols marcados e 12 assistências. Reconhecido pela regularidade e ótimo condicionamento físico, o meia recebeu das mãos do vice-presidente do Bahia, Vitor Ferraz, uma camisa especial com o número 128, já contabilizando a partida que ele vai fazer contra o Cruzeiro.

- Queria anunciar, todos já sabem, o desligamento de Zé Rafael do Bahia. Ele sai pela porta da frente. Ao longo dessas duas temporadas que ele defendeu, ainda vai defender, tem mais uma partida, as cores do Esporte Clube Bahia, sempre se dedicou ao máximo, honrou as cores do Esquadrão. Certeza que vai deixar saudade na torcida. As manifestações que temos visto desde o anúncio são nesse sentido. A torcida saudosa, mas sabendo que o atleta se desliga do clube por ter recebido uma proposta que, para a continuidade de sua carreira, será muito boa. A gente agradece tudo o que ele fez durante esses dois anos. Vão ser 128 partidas, hoje são 127. São 18 gols, 13 nesta temporada, cinco na temporada passada, 12 assistências. Destaque do Brasileiro do ano passado, e destaque do Brasileiro deste ano.

- Em todas as competições que disputou teve números importantes, expressivos. Aqui a gente faz questão de ressaltar o profissionalismo, a dedicação durante todo esse período. Alguns dias atrás, a gente conversava que durante um período houve algum tipo de questionamento sobre o desempenho dele, a dedicação. O chamei no CT e disse para ele ficar tranquilo, que ele ia voltar a jogar bem, disse: "você vai voltar a marcar e certeza que a torcida vai reconhecer isso". Se ele saísse, seria pela porta da frente, a torcida reconheceria o seu valor. Não está sendo diferente. Seria injusto se fosse diferente. Por tudo o que ele fez, o profissionalismo, a forma como se dedicou ao clube. É justo que saia pela porta da frente, com reconhecimento pelos bons serviços prestados ao clube - disse Ferraz.

Conhecido agora em todo país, Zé lembra que nem sempre foi assim. O meia afirma que no início da passagem pelo tricolor teve que vencer a desconfiança.

- Minha avaliação é muito positiva. Cheguei aqui contestado por muita gente, ainda não tinha o reconhecimento que tenho hoje. Muita gente não sabia quem era o Zé Rafael, o que o Zé Rafael poderia render. Cheguei com os pés no chão, trabalhei sempre de maneira correta e dura para alcançar meus objetivos. Aos poucos fui ganhando meu espaço dentro do clube e dentro do grupo. Aconteceu de maneira rápida. Hoje vejo que foram dois anos muito regulares e que as coisas aconteceram de forma muito rápida.

A passagem de Zé Rafael pelo Bahia começou em 2017, mas ele foi visto pelo torcedor tricolor bem antes. Em 2016, ainda quando jogava pelo Londrina, Zé marcou um dos gols que deu o triunfo do Tubarão sobre o Tricolor.

- Confesso que não imaginava. Nossa vida, a gente estava conversando, reserva algumas surpresas. O Bahia sem dúvida alguma foi uma desses surpresas maravilhosas que a vida reservou pra mim. Quem diria que no ano seguinte daquele jogo aqui na Arena começaria uma história que ficou marcada na trajetória da minha vida. Tenho que agradecer muito a todos que acreditaram. O Vitor [Ferraz] faz parte disso, já estava no clube. Muito feliz de ter iniciado essa trajetória de 2017 até aqui. No ano seguinte aquele jogo que vencemos aqui na Fonte Nova - disse Zé.

Quanto ao Palmeiras, Zé Rafael preferiu não comentar a chegada ao novo clube. O meia afirma que está focado em fazer uma última grande exibição pelo Bahia, no próximo domingo, diante do Cruzeiro. Para a partida de despedida de Zé Rafael, mais de 20 mil ingressos foram vendidos até esta sexta-feira.

- Saio pela porta da frente. Com relação a perspectiva, ainda não virei a chavinha, como a gente diz no futebol. Ainda tenho esse último jogo domingo pelo Bahia. Acho que vai ser um grande jogo, espero fazer uma grande partida para, aí sim, fechar o ano, fechar o ciclo no Bahia e sair realmente com o pé direito. Ai sim, quando virar o ano, novos ares, uma nova casa. Começarei a pensar o que pode ser feito nos próximos anos.

- O peso é até um pouco maior. Saber que você vai sair, querer mostrar mais uma vez, deixar a impressão de que tudo o que foi feito valeu a pena. Domingo eu espero estar em campo, em mais uma tarde iluminada, que a gente possa fazer uma grande partida, que possa sair realizado, feliz com mais um grande ano.

Desde o final da última temporada, Zé Rafael teve o nome envolvido como alvo de interesse de vários clubes. O meia garante que isso nunca mexeu com a sua cabeça ou atrapalhou o rendimento em campo.

- Acho que isso é tranquilo. Foi muito coisa de momento. Questão de falta de sorte, um pouquinho dessas coisas acontecerem na mesma hora, justamente quando peguei uma sequência pesadíssima de jogos. Já vinha jogando há muito tempo, dificilmente eu ficava fora dos jogos, foi quando começaram a vazar essas notícias de ter uma coisa mais certa com o Palmeiras. Acredito que isso é coisa de torcedor, de quem está de fora. Quem acompanha o dia a dia do clube sabe o quanto eu me dedicava, o quanto eu fazia um algo a mais para que essa fase passasse. Foi um momento difícil. Todo mundo achava que eu estava tirando o pé. Na verdade eu estava fazendo o contrário para a situação se inverter. Sempre tive na cabeça que estava fazendo o meu melhor. O que realmente importa é o grupo. A família que se criou aqui esse ano. Todo mundo sabia do meu esforço. Quanto a isso, estou muito tranquilo e satisfeito.

Zé Rafael nem sempre esteve em alta pelo Bahia. O meia também viveu momentos turbulentos com direito até a vaias da torcida em jogo contra o Palmeiras, na Arena Fonte Nova.

- Tive realmente alguns pequenos probleminhas. Faz parte do futebol. Tive uma fase complicada, onde tudo parecia que o que acontecia no Bahia era minha culpa. Onde tudo o que acontecia, se o time estava jogando mal, era "põe na conta do Zé que ele não está jogando bem". Aceitei uma parte disso. Quando achei que não era só culpa minha, eu rebatia. Mas acredito que faz parte do futebol. Nem Jesus agradou todo mundo, imagina se o Zé Rafael que iria agradar. Faz parte, em relação aos jogos que fiz, tive uma regularidade muito grande, fiz jogos memoráveis, alguns muito importantes. Nesse último ano agora. Fico feliz de ter participado de forma expressiva na história do Bahia. Saio com a cabeça erguida, com a sensação de dever cumprido, feliz por ter feito parte dessa linda história - comemora.

A entrevista coletiva também contou com uma presença especial. O lateral-esquerdo Léo não só acompanhou as últimas palavras de Zé Rafael como jogador tricolor, como aproveitou para fazer uma pergunta. Léo pediu para Zé definir o Bahia em uma palavra.

- Gratidão. Acho que essa palavra encaixa perfeitamente no Bahia e na minha vida. Tenho que agradecer ao Marcelo [Sant"Ana], dar os parabéns por essa trajetória, Vitor Ferraz e o presidente Bellintani, que Fazem parte dessa continuidade. Principalmente a instituição Bahia, que fez uma aposta, em momento delicado da minha carreira, quando as coisas poderiam não ter dado certo. Serei eternamente grato ao Bahia por tudo o que me proporcionou. Que me fez me tornar como atleta profissional, como ser humano. Saio com o coração partido. Essa hora de dar tchau, de se despedir, não é comigo. Mas meu agradecimento fica, a instituição, aos torcedores, que me deram força quando precisei. Minha família que esteve no meu lado sempre, me deram todo o suporte que precisei.

Gols mais bonitos e provocação ao Vitória

Fiz alguns gols bonitos esse ano. Teve um contra o Vasco, pela Copa do Brasil, a bola sobrou para mim fora da área eu coloco ela no ângulo. Contra o Vice, acho que não pode ficar fora. O jogo era importantíssimo para a gente naquele momento do Campeonato Brasileiro. Jogo difícil. Foi um golaço e também ficou marcado. Foram gols importantes. Queria ter feito um gol em um momento mais expressivo, um título. Fiz um lá em Recife, na final da Copa do Nordeste, mas o juiz invalidou de forma equivocada. Saio feliz com tudo o que conquistei. Queria ter feito muito mais gols, lógico. Mas acho que está de bom tamanho. SE não fiz gol, dei o meu máximo, dei o meu melhor para ajudar sempre os companheiros e o Bahia.

Zé Rafael encerrou o encontro com os jornalistas também agradecendo à família pelo apoio e lamentando a ausência deles na coletiva. O meia tricolor como marca na comemoração dos gols, um gesto em homenagem ao filho, que gosta do desenho Mundo Bita.

- Acho que a família é nossa base, sem dúvida alguma. Queria que estivessem hoje aqui, para participar desse momento que eles também fazem parte. Devido à distância e alguns probleminhas, não foi possível. Mas Domingo estarão aqui. Para prestigiar, ver o último jogo nesse momento com a camisa do Bahia. Espero que eles venham com o pé bem quente para que seja uma tarde muito abençoada para todos nós.
*Da Tribuna