MOCÓ INCENDIADO

      



Por Henrique Ribeiro
Era final da década de cinquenta, mais precisamente o ano de 1957, a
Fazenda Mocó vivia o seu auge, resplandecia na beira do Rio Pardo como
a maior produtora de farinha de mandioca e portadora de um grande
rebanho bovino. O coronel Cândido Nova e sua esposa D. Deija viviam em
plena felicidade e planejavam a festança surpresa de quinze anos da
sua filha Júlia que estudava no convento em Jabaquara.
Júlia era uma moça educada, linda encantadora e que tocava piano e o
coração das pessoas como ninguém. A festa foi o maior evento festivo
na região.
O coronel comprou um piano e levou para aquele pequeno e recatado
lugarejo, nos finais de semana o piano e a habilidade de Júlia enchia
os arredores de sons magníficos, de valsas, boleros, etc...
A maior preocupação do coronel era casar sua filha com um pretendente
a altura, jamais gostaria de ver a filha casada com um nativo rude
daquele lugar , ela merecia coisa melhor.
Como todo bom coronel tinha amigos e desafetos, um dos amigos era o
Capitão Hilário d’ égua, cuja patente foi era seu maior orgulho e
motivo de gozação, falava pelos cotovelos e tinha um parafuso a menos,
vivia para cima e para baixo montado na égua e sonhava ser prefeito de
Rio Pardo quando o mesmo se emancipasse. Era casado com D.Joana,
mulher ajuizada com cabeça centrada que vivia sofrendo para colocar o
capitão na linha. Eles tinham um filho Omar que desde de cedo decidiu
que seria marinheiro,passou no concurso, ingressou na Marinha e morava
no Rio de Janeiro.
Os meninos viviam fazendo gozação com capitão, apelidando de Pai
d’équa. O capitão corria atrás dos moleques, com uma taca na mão,
querendo surrá-los, furioso da vida.
Um desafeto do coronel, era Joaquim Filinto, homem rustico, que não se
dobrava ao poder dos coronéis e não admitia ser destratado ou receber
ordens aos gritos como fazia os senhores da época. Fazedor de
sandálias, bolsas de caçar e celas de couro com arreios de montaria,
um artesão no couro, morava nas terras do coronel desde que chegou de
Recife com o pai que matara um homem para defender a honra, mas não
gostava de tocar no assunto desde que seu pai morreu...morreu esse
assunto, era casado Sinhá Jovina e tinha uma filha, Dionísia,
portadora de doença da cabeça, que viva gritando dia e noite, até ser
internada no manicômio em Medina. Seu Joaquim tinha um aspecto feioso
e com o tempo trabalhando com cola de sola passou a ficar com os olhos
amarelos, barba grande e seu grande porte, que logo associaram a
imagem de um Lobisomem, como gostava de andar a noite a distância
entre a fazenda Mocó e sua casa na beira da estrada que no futuro
seria Rio-Bahia, as vezes era surpreendido por algum morador que se
assustava e acreditava que ele era um lobisomem. O homem sofria com a
doença da filha e com essa imagem que o pessoal do povoado tinha dele.
A filha era afilhada de Hilário d’Équa que o ajudou a interna-la no
hospício em Medina .
Outro desafeto do coronel, que não era só dele, mas de toda região era
o cangaceiro Joca d’Pajeú que se julgava o Robin Wood do Sertão e seu
bando de jagunços.
O coronel resolve expulsar seu Joaquim Filinto da sua terra porque o
mesmo era muito agressivo e pela fama de lobisomem.
Joca d’Pajeú tomou as dores do Joaquim Filinto e foi a Fazenda Mocó,
humilhou o coronel e deixou bem claro que o amigo dele,Joaquim jamais
ia sair da casa dele, deixasse o amigo dele em paz ou então ele
voltava e botava fogo na fazenda.
O coronel não aguentou a desfeita, deu uma surra no seu Joaquim e o
expulsou da fazenda.
Joca d’Pajeú voltou a fazenda roubou o gado e botou fogo na farinhada.
O coronel vendeu o que restou e foi morar em Salvador, onde casou a
filha com o filho do dr Amâncio Alves Pires
Hilário d’égua era desmiolado mas, de bom coração, quase um Dom
Quixote nordestino que ajudava a todos e morreu velho sonhando em ser
o prefeito de Rio Pardo.
Joaquim Filinto suicidou com a faca amolada , velha companheira de
tantos trabalhos, cravada no peito devido a decepção que ficou após a
surra que levou. Apesar de analfabeto tinha umas tiradas inteligentes
como essa:
- Mais vale uma grama de saúde do que um quilo de doença.
Até hoje, nos escombros da sede da Fazenda Mocó está gravado na
frente, o ano inesquecível de fartura de 1957
Assim foi o fim da Fazenda Mocó e dos ilustres moradores desta memorável região.