O filho da escarnecida

      



Por Ionei Oliveira
De volta ao Brasil corro ao encontro do sertão, minha sina e sorte. Chego com olhos e ouvidos atentos a cada detalhe, com o mesmo deslumbre da primeira vez. E não dispenso a ida à feira livre, esse mercado aberto , estilo medieval , que ainda resiste em algumas cidades do interior da Bahia. 

Aprendi a fazer feira com a minha mãe. Ela sabe qual a barraca que vende o melhor tomate, a abóbora enxuta, o aipim que “esmolega” em dois minutos de fervura, a melancia suculenta , escolhida depois de inúmeras batidas com os nós dos dedos em torno da fruta. Em cada barraca, entre a escolha da mercadoria, a pechincha, o pagamento e o troco, a conversa é rápida pois “feira não é lugar de conversa demorada.” 
Mas essa regra não vale para todos. Nessa segunda-feira, quem estava nas imediações da barraca, a única, onde compramos bananas sem carbureto, deve ter ouvido, como eu, a seguinte conversa entre duas mulheres:
- ... eu já te disse que ele num vale o pirão que come!
- Eu sei...mas tô encafifada nele!
- Então fique. Fique abrindo os dentes pra esse filho duma escarnecida, que passou os traumas pro filho coitada! E agora ele desconta em tudo que é mulher que cai na conversa dele. 
- Tadinho, né?
- Tadinho??? Tadinhooooooooo??? Tadinha de tu, encafifada! Que tá perdendo a beleza com quem num te merece. Depois num venha chorar no pé do pote!
- Chorar eu já choro...
- Então chore por amor de verdade, mulher! Esse dito cujo num te ama. Ele é igual a carrapato. Vai te sugar até tu ficar o couro e o osso. Depois te larga. E com um filho na barriga!
E antes que eu soubesse o que a “encafifada” havia decido, depois daquele esculacho no meio da feira, minha mãe, com um belo cacho de bananas na mão, me puxou pelo braço:
- Bora, filha! Num aguento mais essa quentura!
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Jornalista e escritora