“Não descarto a possibilidade de entrar nas conversas sobre 2020”

      



Por Osvaldo Lyra
O senador Walter Pinheiro (sem partido) vai encerrar no dia 31 de janeiro uma vida parlamentar que durou 26 anos. Em entrevista exclusiva à Tribuna, o parlamentar afirma que não pretende deixar a vida pública. "Preciso encerrar a minha carreira no Senado após 26 anos de mandato parlamentar. Já vinha discutindo isso há muitos anos. Não disputei federal mais e terminei indo ao Senado. Disse que seria minha última trajetória parlamentar. Isso não quer dizer que vou deixar a vida pública", revela. Cotado para integrar o secretariado do novo mandato do governador Rui Costa (PT), o ex-petista lamenta a disputa pelo comando da Secretaria de Educação da Bahia - pasta da qual foi comandante até o início do segundo semestre de 2018. "É uma disputa natural. Uma coisa que só que me chateia são as intrigas. As pessoas usarem da mentira para tentar obter determinados níveis de participação. É bom lembrar que o PT estava na secretaria desde o dia que eu cheguei", revela. Ainda na entrevista, Pinheiro faz uma análise do governo de Jair Bolsonaro e revela que mantém conversas com o PSD de Otto Alencar para possível filiação, de olho em 2020. “Não descarto a possibilidade de entrar nas conversas sobre 2020. Já vi gente colocando 2022 na roda. Agora, em 2020, teremos um ano atípico”.

 

Tribuna da Bahia - O senhor estava licenciado do mandato, mas saiu da Educação e retornou para Brasília. Como foi essa transição? Muniz não quis retornar para Brasília? Como está a situação do senhor?

Walter Pinheiro - Na realidade, houve a necessidade da minha volta no mês de outubro, algo até que já estava programado por conta de dois aspectos: um é a própria questão do orçamento da União em 2019, que a gente tinha clareza de que seria um ano muito difícil; e depois disso, eu terminei a pedido do governador ficando para trabalhar a proposta de repartição de recursos na questão do Pré-Sal. Até porque tinha trabalhado com esse texto em 2012, no Senado, e até foi um pedido dos governadores do Nordeste. Como eu tinha um certo domínio do assunto e é uma questão importantíssima para a questão das finanças dos Estados, que é a partilha daquilo que todo mundo vislumbra como sendo a grande questão da chamada Cessão Onerosa. Foram esses aspectos que motivaram a minha permanência. Depois, para voltar em um período de final de ano, também enfrentei dois outros problemas. Preciso encerrar minha vida ali no contexto do Senado, em Brasília, cancelar contratos e essas coisas só serão terminadas em 31 de janeiro. E em 19 de janeiro, acabei tendo um compromisso de uma parceria com o Reino Unido na área da educação. Então, preciso encerrar a minha carreira no Senado após 26 anos de mandato parlamentar. Já vinha discutindo isso há muitos anos. Não disputei federal mais e terminei indo ao Senado. Disse que seria minha última trajetória parlamentar. Isso não quer dizer que vou deixar a vida pública. 

Tribuna - Como o senhor avalia o governo Rui Costa e qual vai ser o maior desafio do segundo mandato dele?

Pinheiro - O governo Rui Costa tem um aspecto interessante: soube combinar um processo de gestão com realizações. Inclusive, na nossa pasta, tivemos o maior número de promessas cumpridas, 17.  E mais ainda você tem a situação de um governo com capacidade imensa de sobreviver todas as crises. No período de Rui Costa, até para conseguir um financiamento no Banco do Brasil tivemos que ir para a Justiça. Portanto, é um governo que viveu de descenso do ponto de vista das relações com o Governo Federal, queda na arrecadação e um certo nível de impossibilidade de busca de captação de recursos por conta do bloqueio que foi feito nacionalmente. Mesmo assim, foi o período em que o governo mais investiu. Quando fui chamado para a Secretaria de Educação, foi justamente para resolver um problema de gestão. Quando cheguei na secretaria, o custeio era de R$ 934 milhões. No final de 2016, derrubei para R$ 473 milhões. Foram mais de R$ 400 milhões de redução de custeio. Isso possibilitou a gente abrir novas frentes, reformas... Estamos fechando o ano com mais de 600 escolas em reformas e 30 escolas construídas. Encontrei mais de 100 obras paralisadas e retomei todas elas. Vamos entregar em 2019 todas essas. Estamos fazendo a maior formação de professores das escolas públicas. Agora, a partir do dia 1º de fevereiro escolas com coordenador pedagógico. Nós não chamamos no ano passado por causa do impedimento eleitoral. Peguei 1050 professores que estavam fora e colocamos de volta. Então, foi um governo que trabalhou uma ofensiva para implantar uma base para começar a enfrentar uma nova etapa. E agora o governo entra numa fase extremamente difícil, que é consolidar esses projetos, consolidando as dificuldades que se aproximam - haja vista as declarações do próprio Bolsonaro.

Tribuna - Como o senhor está vendo essa disputa no PT pela Secretaria de Educação?

Pinheiro - É uma disputa natural. Uma coisa que só que me chateia são as intrigas. As pessoas usarem da mentira para tentar obter determinados níveis de participação. É bom lembrar que o PT estava na secretaria desde o dia que eu cheguei. Portanto, é lícito qualquer partido pleitear. E outra, nem eu assumi esse compromisso com o governador e nem o governador comigo. Não me escalei para ser secretário. Fui convidado. Portanto, meu prazo inclusive venceria em abril de 2018. Em outra condição, o prazo vence no final do mandato. A partir do dia 1º de janeiro o governador tem toda a liberdade de montar a sua nova equipe, mantendo alguns.

Tribuna - O senhor é cotado para a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, onde o PSB ocupa hoje com Rodrigo Hita...

Pinheiro - Essa cotação nunca existiu. Essa cotação é típica da ilação, entende? Em hora nenhuma o governador ofertou coisa nenhuma. É uma conversa que nunca existiu. Eu não sou cotado para nada. Volto a lhe dizer, quando fui para a Secretaria de Educação, não foi por cotação ou pleito. Fui por um convite para tentar estabelecer outro patamar. Arrumar a casa, preparar o eixo pedagógico e enfrentar um problema gravíssimo que a educação viveu ao longo dos anos. Agora, o modelo pedagógico novo nós implantamos apenas em fevereiro de 2018. Portanto, não existe nenhuma cotação. Esse é um aspecto que o governador ainda tem que decidir. É uma decisão pessoal dele.

Tribuna – Pode-se dizer que vem "Pinheiro 2020" por aí?

Pinheiro - Olha, 2020, além de estar muito longe, acho que as pessoas antecipam demais. Até uso uma expressão comum no período de Natal: a única coisa que eu conheço de véspera é o peru, que acaba morrendo. Agora, não descarto a possibilidade de entrar nas conversas sobre 2020. Já vi gente colocando 2022 na roda. Agora, em 2020, teremos um ano atípico. É a primeira experiência de eleição em que cada partido terá que apresentar a sua própria chapa de proporcional, o que consequentemente pode levar diversos partidos a lançar a um processo de que entender que é importante lançar cabeça de chapa para chamar votos e cumprir a cláusula de barreira. Então, as composições ainda estão muito cedo. Se, porventura, houver um nível de interação até lá, estou à disposição. Agora, é óbvio que isso terá que vir acompanhado de uma decisão minha de me filiar a algum partido.

Tribuna - Você já teve vários convites, inclusive um namoro próximo com o PSD de Otto Alencar. Por que não se filiou até agora?

Pinheiro - Continuo conversando com ele, inclusive. O que eu o disse foi que não posso me filiar a algum partido apenas para disputar eleição. Aí, além de oportunismo, seria rasgar minha história política. Fui sujeito de apenas um partido a vida inteira. Por isso abri conversa apenas com um partido, apesar de ter recebido vários convites. Já disse que não vou conversar com mais ninguém, porque senão fica parecendo que estou fazendo um leilão. Isso não é só falta de respeito com os outros, como também é falta de respeito comigo mesmo. Portanto, disse que vou deixar as coisas acontecerem. Como já havia decidido a não disputar mais nenhuma vaga no parlamento, e não tinha também nenhuma vaga em majoritária, questionei pra quê iria me filiar em algum partido. E outra, me filiar só para tentar disputar dentro de um partido. Na época até cheguei a brincar com Angelo Coronel de que não posso chegar em um partido já dizendo para onde eu quero ir. Pode ser que até 2020 eu não faça filiação nenhuma. Nunca fui de máquina de partido. Portanto, pode acontecer ou não a filiação. Vou me colocar à disposição para continuar servindo do ponto de vista da política, para onde vou estar ainda é um processo. 

*Da Tribuna da Bahia