"Presença"

      



Por João Leite
Figura incomum da política camaçariense, Douglas Rocha, falecido aos 69 anos no dia 21 de dezembro último, se orgulhava da sua capacidade de ser polêmico e da sua trajetória recheada de histórias e embates. Em mais de 40 anos de Camaçari, esse baiano nascido em Uauá construiu uma história incomum na cidade que viveu intensamente e adotou como sua. Bacharel do curso de direito que custou a concluir, diante das muitas ‘paradas obrigatórias’, como gostava de definir as dificuldades financeiras para conquistar sua sonhada OAB, Douglas não foi um personagem comum, encontrado às centenas no folclore político desse Brasil adentro.

Observador privilegiado, desde a Camaçari nascida com o Pólo Petroquímico, nos anos 1970, Douglas Rocha conheceu como poucos os personagens da política camaçariense e seus movimentos, independente do entendimento e as suas práticas ortodoxas ou heterodoxas.

Estudioso da legislação eleitoral, soube como poucos esgrimar nesse terreno cheio de interesses. Foi um dos idealizadores e executores do projeto que resultou na maior revisão eleitoral de Camaçari, com o cancelamento de milhares de títulos eleitorais irregulares.

Essa condição lhe ajudou na construção da fama de adversário implacável e aliado importante. Conspirador nato, da sua cepa nasceu parte significativa das ações contra atos de improbidade administrativa de todos os gestores de Camaçari nas últimas décadas.

Foi justamente essa capacidade de cutucar, independente de partido ou ideologia, que lhe rendeu uma legião de amigos, aliados e adversários. Sempre agindo de forma intensa, transformava aliados em desafetos, depois novamente convertidos em coligados, e, em seguida, comum no ciclo da política que tanto soube transitar, em alvo da sua capacidade de tiro.

Com esse histórico, a depender do adversário, não lhe faltava credencial para trocar de florete e posição no tablado. Com uma ampla capacidade de participar da cena política camaçariense, não se intimidou com os novos tempos das redes sociais. Logo, logo converteu o Facebook e o WhatsApp em seus eficazes artefatos pontiagudos.

Polêmico e dono de um humor ferino, Douglas Rocha não poupava amigos, adversários, muito menos autoridades com ou sem mandato, aspones, integrantes do Legislativo, Executivo ou Judiciário. Por motivos óbvios, a Coluna publica, por ordem alfabética, algumas alcunhas sem as respectivas identificações. ‘Besta-sabido’, ‘burro inchado’, ‘contra’, ‘dona lulu’, ‘eliminado’, ‘fala fina’, ‘galo’, ‘gazela’, ‘general’, ‘jegue manso’, ‘judeu’, ‘menino veneno’, ‘nego égua’, ‘rotinha’, ‘secretário da madrugada’ e ‘tabaréu’ eram alguns apelidos carinhosos que gostava de citar durante suas conversas, muitas vezes cifradas e cheias de reticências.

Fora da lista dos personagens, o ‘pirulito’ talvez seja o verbete mais simbólico do seu irreverente dicionário. Na sua visão política, o famoso doce no palito era a definição ideal para a ajuda geralmente mensal ao colaborador do mandato que ficou fora da lista dos nomeados, seja parlamentar ou ocupante de cargo executivo, como prefeito. Sem recibo ou comprovação do pagamento, esse valor que adoçaria a amargura do período, é fruto do caixa obtido com o repasse compulsório de parte dos salários dos assessores nomeados.

Douglas Rocha, o ‘velhinho’, como esse jornalista costumava chamá-lo, não escondia seu sonho. Dizia que seria prefeito de Camaçari.

João Leite Filho joaoleite01@gmail.com é jornalista e editor do www.camacariagora.com.br