Exposição e lançamento do livro Caretas de Maragojipe

         



Há mais de um século, durante os dias da folia, os moradores de Maragojipe se transformam nos “caretas”, figuras festeiras multicoloridas e sem identidade. Esses personagens seduziram imediatamente o fotógrafo João Farkas na construção de um ensaio fotográfico que demandou um registro, durante cinco anos, desde 2014, realizado através de retratos dos habitantes desta cidade do Recôncavo baiano, distante 140 km da capital da Bahia, Salvador, ao viverem esta tradição centenária de no Carnaval se vestir usando máscaras e fantasias. Máscaras que mantêm foliões anônimos, anonimato que se torna uma das coisas mais divertidas de um Carnaval ao poder se cruzar incógnita a cidade em festa, como é a sua tradição. A exposição e lançamento do livro Caretas de Maragojipe será apresentada a partir do dia 14 de fevereiro, a partir das 17 horas, na Paulo Darzé Galeria, com temporada até o dia 14 de março.

 

Retratos

 

Em Caretas de Maragojipe, Farkas traz um registro da criatividade e resistência referente à cultura popular. Após diversas viagens feitas à cidade - “No primeiro ano tudo merecia ser descoberto e fotografado. As ruas, as fantasias, a dança, a bagunça, os grupos, o coreto decorado e a praça iluminada. Mas quando tudo nos atrai nada se fixa. Por contraditório, onde tudo é enfocado, falta-nos o foco”.

Posteriormente, colocando os foliões diante de uma parede, entre as duas principais praças da cidade, que a prefeitura pinta todos os anos de azul, daí o nome dado pelo autor de “série azul” a este ensaio, para assim fotografar os “caretas” que topassem exibir suas fantasias. E assim foi feito durante cinco carnavais, imprimindo a este trabalho um registro puro e, ao mesmo tempo, muito poderoso da história do povo brasileiro.

“No terceiro ano, hipnotizado por aquele espetáculo, no meio daquela invasão de emoção colorida, entendi que eram retratos. Eram os retratos daquelas fantasias que me interessavam. Eram essas máscaras falsas/verdadeiras/inventadas que queriam se mostrar. Eram os rostos de pano anônimos que substituíam rostos de carne, mas ainda assim expressivos e cheios de personalidade criativa, fantasiosa e real. Era esse grito de criatividade resistente que queriam me contar. Era o trabalho anônimo das costureiras, das esposas e das mães que dão corpo à alma imaginosa de um povo que parece viver mais disso do que de qualquer outra coisa”.

João Farkas, neste ensaio fotográfico, preferiu seguir a linha de uma tradição ligada à arte que as ruas do Brasil inventam e reinventam sua liberdade, em atividades culturais seculares. “Acredito que nenhum povo do mundo tem a intimidade e a liberdade cromática que o brasileiro tem. Não sei se vem da luz, das cores do céu, das árvores, das frutas ou da mistura de peles. Talvez do fato de termos esta inocência cultural esta aceitação pelo que é simplesmente belo e nos rodeia, e pelo que é outro, diferente e instigante. Acho que ninguém é tão íntimo e familiar na apropriação da palheta infinita que se nos oferece. Sou fascinado pela cor. A cor brasileira, brasileiramente. Eles criam as fantasias com uma inventividade absurda, uma enorme liberdade cromática. É um costume antigo que resistiu ali. Desde que conheci, vou pra lá todo carnaval. Foi assim que o povo de Maragojipe me ensinou a olhar suas máscaras”.

 

O livro e a exposição

 

A exposição na Paulo Darzé Galeria apresenta 26 imagens em 50x75cm; 4 trabalhos de110x160cm; três trípticos; e um painel com 72 imagens, de 220x165cm. Já o livro Caretas de Maragojipe (Instituto Olga Kos/2018) reúne 80 fotos, com concepção e design de Kiko Farkas. O livro e a exposição já tiveram lançamentos anteriores em Londres, durante a exposição Brazil – Land e Soul, na Embaixada Brasileira, e em seguida no evento Paris Photo, no Grand Palais, no mês de novembro de 2018. O livro Caretas de Maragojipe, além das suas 80 imagens, traz um texto do autor sobre a construção de seu ensaio, outro do mestre em Cultura e Sociedade Mateus Torres, e do curador e crítico de arte Agnaldo Faria sobre a questão da arte e criatividade fora dos círculos ‘cultos’.

“João Farkas quer conhecer esse imenso território humano e geográfico, e tem feito disto o nervo de sua produção poética. Seu desafio, contudo, tem uma complexidade singular, posto que no problema dos “caretas” é que não há alguém por detrás, uma pessoa de dotes extraordinários. Seus trajes são obra de muita gente. ‘Caretas’ não têm marca de autoria, de um indivíduo responsável. Tivessem, poderiam receber o beneplácito do cânone da ‘grande arte’, a arte oficial que frequenta os museus e galerias de arte, eficaz em situar casos como este sob a rubrica ‘arte popular’, concepção elástica apresentada com outras nomenclaturas pejorativas como ‘arte ingênua’, ‘arte naif’, e, ainda, a pior de todas, mas que ao menos tem a virtude de jogar às claras: ‘arte primitiva’. João, fascinado por esse outro mundo que se abre em Maragojipe na época do carnaval, depois de vivenciar alguns deles, entendeu que o melhor, o mais adequado à situação era fazer retratos. Ah, os retratos. O fundo azul, dotado da mesma força das cores das coisas submetidas a um sol forte, o baque do sol que as faz retinir enfatiza, por contraste, as cores dos retratos que trazem recortados cabeças e troncos ou, em alguns caos, o corpo inteiro”.

 

Museu do Carnaval

 

O ensaio fotográfico Caretas de Maragojipe serviu como base visual para a concepção do Museu do Carnaval, primeiro museu do país dedicado à memória da festa, inaugurado em Salvador, pela Prefeitura Municipal, em 2018, com projeto e curadoria de Gringo Cardia. “Quando vi Farkas abordando essa arte das Máscaras com um olhar contemporâneo, pensei: é disso que precisamos para mostrar que essas manifestações não são coisa do passado. É um ato atual e pulsante. É cultura e deve ser preservada de uma maneira viva e digna. As Máscaras foram a inspiração para este museu. Elas são a alma deste museu, porque a arte que vem de Maragojipe é uma arte que não pode ser perdida de forma alguma”.

 “Em 2017 enviei o cartaz e convite para o Gringo Cardia.  Ele colocou aquilo no seu mural e ficou com aquilo na cabeça. Seis meses depois ele recebeu a incumbência de estruturar o Museu do Carnaval em Salvador e, segundo me conta, a aproximação que tive com o assunto ajudou-o a definir o jeitão do Museu: pelo reconhecimento do valor de uma cultura e criatividade verdadeiramente popular. Ele me pediu para utilizar as imagens e disse que eu teria uma surpresa quando visse. Não só criou dois painéis enormes com os caretas, como ainda mandou executar aquelas três caretas monumentais que são cópias de três das fotos e que viraram outro local de selfie de Salvador. Uma curiosidade: ao escolher as fotos para as esculturas, o Gringo ainda não tinha visto o livro porque ainda não existia.  Quando olhei as esculturas pela primeira vez levei um baita susto: ele tinha escolhido como principal exatamente a mesma foto que meu irmão escolheu para a capa do livro!  Estas coincidências interessantíssimas”.

“Posso me permitir dizer do prazer enorme que é ter a sua contribuição em alguma coisa importante e bem feita, que com certeza sobreviverá a mim mesmo e será vista e útil para tantos visitantes que ali virão conhecer a arte do povo de Maragojipe. Poderia dizer do prazer de ver minha obra assim perenizada, mas na verdade o prazer maior é ver o meu esforço em registrar e promover a arte anônima de Maragojipe ser bem sucedido, e encampado em projetos maiores do que eu mesmo seria capaz de realizar. É como ver um filho crescer, se desenvolver sozinho e criar seu próprio espaço no mundo. Saber que alguma coisa que ajudou a criar levou em seu destino um pouco de meu DNA, um pouco de minhas intenções e energias sutis”.

A partir do dia 16 de fevereiro, no Museu do Carnaval, Centro Histórico de Salvador, este trabalho também estará sendo exibido para o público.

 

Trajetória

 

João Farkas nasceu em São Paulo, capital, em 1955. Começou seus estudos graduando-se em filosofia pela Universidade de São Paulo e, posteriormente, mudou-se para Nova York, onde estudou no International Center of Photography (ICP) e na School of Visual Arts (SVA). Seus trabalhos, já foi fotógrafo correspondente da Veja e da IstoÉ, onde foi também editor de fotografia, fazem parte de importantes acervos e museus brasileiros, além de estarem no acervo do ICP, no Maison Européenne de la Photographie, um dos mais respeitados acervos de fotografia do mundo, onde suas obras estão acompanhadas de outras 20 mil imagens representativas de nomes como Henri Cartier-Bresson, Robert Frank, Johan van der Keuken, Larry Clark, Sebastião Salgado e Rogério Reis.

 

 

A Paulo Darzé Galeria de Arte está localizada na Rua Chrysippo de Aguiar 8, Corredor da Vitória Salvador Bahia Tel.(71) 3267.0930 (71) 9918.6205 –www.paulodarzegaleria.com.br – paulodarze@terra.com.br), e a exposição está aberta ao público de segunda a sexta, das 9 às 19 horas, e sábado das 9 às 13 horas.