A baianidade de Nizan e Donata merece ser apoiada!

      



Por Cláudio Magnavita*
Nizan Guanes tem nas últimas semanas assinado na imprensa vários textos de declaração de amor a Bahia e especialmente a Salvador. É empolgante ver um baiano vitorioso retornar as suas origens. É o poeta sendo universal cantando a sua própria aldeia.
O que aconteceu com ele e Donata foi batizado pelo escritor Florisvaldo Mattos de “tsunami internáutico” e como bem lembrou um dos mestres do jornalismo baiano, Sérgio Gomes: o Otávio Mangabeira sempre dizia: “Pense num absurdo e já aconteceu na Bahia”. O próprio Sérgio, em rede social postou “ para não ser considerado escravocrata, deixei de ir a restaurantes típicos, pois não quero mais ser servido por mucamas. Baiana de Acarajé nunca mais!”. Aplausos para este comentário, que com a ironia refinada da família Gomes, disse tudo em poucas palavras.

Sabe o que está faltando? Que os baianos se mobilizem para defender em coro Donata e Nizan. Quem se deu ao trabalho de assistir os vídeos e a fotos do evento saberá que foi uma noite em homenagem a cultura baiana. A baianidade! Todos os ícones da nossa cultura estavam lá: nossa música, nossa culinária, as nossas Baianas e o carinho soteropolitano.

Queriam que fizessem uma noite baiana com recepcionistas vestidas de Carmem Miranda, aliás, uma roupa típica inspirada nas nossas Baianas. Será que Carmen fazia apologia a escravatura ou o cesto de frutas na cabeça lhe concedia a alforria dos censores de plantão?

Como bem lembrou Sérgio Gomes e as alas de baianas exibidas com orgulho por todas as escolas de Samba do Rio? É uma apologia a escravatura?

Vamos fechar o Museu Carlos Costa Pinto que exibe uma riquíssima coleção de joias e artefatos de ouro e principalmente prata que pertenceram as grandes damas das nossas raízes afro? Elas compravam suas joias com a venda de seus quitutes nas ruas de Salvador.

Sabem qual o grande erro dos ativistas de plantão e destes moralistas idiotas que atacam como manada nas redes sociais? A falta de conhecimento histórico e a vontade de cristalizar a realidade apenas por um fotograma ou uma frase infeliz, pinçada de um contexto, como foi o “relaxe e goze” da querida Marta Suplicy, que eu presenciei ser dita após uma reunião do Conselho Nacional de Turismo.

As nossas baianas, ricamente vestidas representam não mucamas ou serviçais. Representam a dignidade e a realeza de um povo, que arrancado de seu continente e atravessando o Atlântico em condições fétidas dos navios negreiros sobreviveram sem perder as suas crenças, as suas raízes, a sua história e a sua dignidade. Não foram triturados culturalmente como ocorreu nos Estados Unidos. Aqui, os orixás ficaram vivos, as roupas típicas e até a culinária eram símbolos de resistência e as nossas quituteiras de rua, hoje baianas do acarajé representam a sobrevivência de um espírito tão forte, que nem na África conseguiu ficar tão puro. Os panos de costa, as diversas saias, os torsos na cabeça são sinônimo de uma cultura vitoriosa, que de tão forte, virou o símbolo de uma terra que se dobrou em reverência e orgulho as suas raízes e ao DNA africano que prevaleceu na Bahia.

No nosso ocidente só há um caso similar a Bahia no culto as raízes africanas e neste caso sem o risco da mediocridade de plantão; É Cuba! Santiago de Cuba e Havana receberam a mesma corrente migratória forçada pela escravidão dos reinos ibéricos. Lá, toda sexta-feira é dia de vestir branco. Lá os orixás são quase os mesmos e os ícones da cultura afro são símbolos da identidade cubana.

Nas feiras internacionais de turismo no exterior as nossas baianas representam a nossa cultura e a nossa identidade. Elas são verdadeiras pop-star. São fotografadas e trazem um sorriso que traduz a hospitalidade baiana.

De todo esse episódio, nesta, onde de ignorância e das redes sociais que deram voz aos tolos, lamento imensamente três coisas: Donata ter pedido para sair da Vogue, de ter usado as redes sociais para pedir possível desculpa e de ter cancelado o evento no Alto Gantóis. Não houve dolo que justificasse esta autopunição.

A festa durou quatro horas e o fotograma fatídico durou apenas 5 segundos. Foi um ato de elegâncias das baianas que atuaram como recepcionistas e que sentavam antes naquela cadeira de espaldar alto, muito comuns dos nossos terreiros. Donata não passou a noite em um trono com mucamas a abanando-a com leques gigantes. Foram as próprias Baianas que delicadamente cederam o assento e pediram para serem fotografadas. Um flash apenas, capaz de destorcer uma noite cheia de amor a Bahia e um show memorável de Caetano Veloso.

Nizan e Donata a Bahia precisa do amor de vocês! A polêmica surge na semana que perdemos o nosso querido Paulo Gaudenzi, ícone do nosso turismo, ex-Secretário de Cultura e Turismo e presidente da Bahiatursa por 18 anos. Foi ele que elevou as nossas Baianas a símbolo maior da nossa terra e onde ocorre esta polêmica surreal. Paulo, de onde você estiver, ajude a Bahia, em massa, hipotecar solidariedade ao casal e erguer um novo brinde aos 50 anos da querida Donata.

Tudo isso ocorre - olhem o paradoxo - quando Nizan anunciou, antes da polêmica, que vai trazer o ex-presidente norte-americano Barack Obama para palestras em Salvador. Daqui alguns meses o genial Guanaes, rirá desta situação e citando este fato como um case de comunicação.

Quando deixei Salvador para trabalhar na Televisão em São Paulo, Nilza Barude me entrevistou para o caderno de TV de A Tarde. Naquele dia, já saudoso da minha terra e em ritmo de despedida eu disse em uma das minhas respostas “as pessoas que se destacam serão eternamente alvo de críticas, porque passam a ser o referencial vivo que mede a mediocridade das massas”. Não imaginaria que 30 anos depois a mediocridade das massas ganharia tanta força com as redes sociais e a internet.

Agora também é hora de resistência, como resistiram os nossos antepassados africanos e mantiveram a sua cultura viva. As nossas Baianas são ícones da nossa terra e o melhor símbolo da nossa hospitalidade. Quando cheguei em São Paulo a DM9 foi a agencia que lançou o meu programa na TV Gazeta. Nizan apoiava todos os baianos que aventuravam na pauliceia. Ele me disse uma coisa importante na sua antiga sede na Rua Hungria 888: “O baiano quando sai de Salvador tem que saber diferenciar a baianidade da baianada”! A noite do Palácio da Aclamação foi uma noite em homenagem a baianidade. Ao que a Bahia tem de melhor para uma plateia nacional que aplaudiu os valores da nossa terra.

Cláudio Magnavita é baiano, jornalista, ex-Secretário de Turismo do Rio e membro do Conselho Nacional de Turismo