Quando os blocos afros e afoxés vão virar as estrelas do Campo Grande?

      



Por Osvaldo Lyra
O Carnaval de Salvador vive em processo constante de mudança. Entra ano, sai ano e sempre vemos a discussão sobre o rumo que a festa vai tomar. Mas não vou usar esse espaço hoje para falar sobre os problemas da folia do Momo. Quero me ater ao processo de fragilidade que atravessa o circuito Osmar, do Campo Grande, que se acentua assustadoramente, e à necessidade de os blocos afros e afoxés ganharem a importância e visibilidade que lhes são devidas. Como todos sabem, os “grandes blocos” não despertam mais o interesse de desfilar pelas ruas antigas do Centro de Salvador. Para manter uma programação minimamente interessante, o governo do Estado e a prefeitura são obrigados a fazerem investimentos altíssimos na contratação de atrações “de peso” para tocar para o folião pipoca. Diante desse cenário me surge uma inquietação, que emendo com uma pergunta: por que os organizadores da festa não convidam os blocos afros e afoxés para desfilarem na Avenida durante o dia, no horário considerado nobre do circuito, onde tem os holofotes das emissoras de rádio e TV? Essa, talvez, fosse uma alternativa a ser construída, que permitiria aos organizadores da festa mostrar para o mundo as belezas da cultura de Salvador e da Bahia.

Temos o Ilê Aiyê (o mais belo dos belos), os Filhos de Gandhy, o Malê Debalê, Muzenza, Didá, Cortejo Afro, Apaxes... São tantas agremiações existentes na cidade que ficam “escondidos” do grande público, devido os organizadores disponibilizarem apenas os espaços na noite e na madrugada, quando não se tem mais o glamour das emissoras televisão nem o público, que, pelo horário das apresentações, já se deslocou para o circuito Dodô, da Barra a Ondina. O cacique Carlinhos Brown até tentou criar o Afródromo, que consistiria num quarto circuito, no Comércio, voltado apenas para agremiações de matriz africana. Contudo, membros da própria comunidade acusaram a iniciativa de tentar provocar um "apartheid" dentro do Carnaval baiano, dividindo a festa dos negros da dos brancos. E o projeto, sem fôlego para seguir adiante, parou. A prefeitura até tentou adaptar o formato proposto pelo cacique do Candeal, mas não levou o projeto a diante. A proposta, agora, seria diferente. Seria colocar luz nos maiores representantes da nossa cultura negra, dando visibilidade e fortalecendo o principal circuito oficial da folia.

O experiente jornalista Cristóvão Rodrigues lembrou ontem, em entrevista à rádio e TV Câmara Salvador, que a ideia de um espaço para reunir e dar maior visibilidade aos afros e afoxés foi sugerida por ele há 30 anos, apesar de não ter saído do papel. “Chamei os blocos afros e disse: vocês vão se perder”. Cristóvão falou também a ideia era abrir um espaço para o afródromo, o que copiava o conceito do sambódromo, no Rio, o que não aconteceu. A solução seria pegar os principais blocos afros, dando o espaço, visibilidade e o reconhecimento devido a todos eles. Até porque, é unanimidade que o Carnaval de Salvador só tem essa beleza e energia que tem, por causa do som que ecoa dos tambores dos blocos afros e afoxés. Portanto, se a beleza, som e energia sobram, que a prefeitura e o governo do estado auxiliem na captação de recursos (o governo tem o carnaval Ouro Negro, ainda insuficiente) e garanta os holofotes necessários para eles. A conferir.
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*Osvaldo Lyra é editor de Política da Tribuna