PAULO DARZÉ GALERIA MOSTRA ARTE DE FÁBIO MAGALHÃES

      



Por Cláudius Portugal
A Paulo Darzé Galeria apresenta dia 28 de março de 2019, às 19 horas, com temporada até 26 de abril, exposição de Fábio Magalhães, com o título Espectador da vida, uma série de objetos que reproduzem miniaturas de cômodos, ambientes ou espaços internos residenciais atemporais. Para a curadora da mostra Thais Darzé, “através de mensagens simbólicas, cifradas, subliminares, as emoções nesses ambientes são reveladas e vem à tona como avalanches. É justamente nesse momento de revelação, quando algo se torna visível, que o Ser no seu mais íntimo perde totalmente o controle. Magalhães tenta congelar no tempo através de seus objetos, uma realidade hermeticamente fechada e separada da vida real, criando assim um precipício intransponível”.

Via e-mail com Fábio Magalhães /por Claudius Portugal

A maior parte da sua produção artística está na pintura, com a construção de uma ‘instalação’ ao ato fotográfico planejado, e disto à pintura. Neste mostra, Espectador da vida, temos uma série de objetos que reproduzem miniaturas de cômodos, ambientes ou espaços internos residenciais atemporais. Como dito no catálogo, ela resulta de um processo de concepção e efetivação que passa pela cenografia e pela ficção até chegar ao produto final, imagens e objetos. E finaliza: a obra de Fábio Magalhães causa fascínio e repúdio, jamais indiferença.

 

1)Como foi passar do bi para o tridimensional?

Meu processo criativo envolve um fluxo de mão dupla, entre o espaço real e aqueles criados para compor as obras. O que importa para mim são as conexões poéticas que estabeleço, sejam nas cenas criadas para um ato fotográfico, seja naquelas que se apresentam numa pintura, objetos, instalações ou qualquer outro meio de apresentação das minhas ideias como artista. Mesmo nesses objetos que fazem parte dessa mostra “Espectador da vida”, o pensamento pictórico está presente nas composições, materiais e conceitos que venho investigando entre arte e vida.

 

2)Conforme texto no catálogo, estes objetos apresentam encenações meticulosamente planejadas, capazes de borrar os limites da percepção, configuradas em distorções da realidade e contornos perturbadores. Como chegou a esta criação?

A citação acima é parte da minha bio nota, algo que perpassa todo o meu processo criativo até aqui. Não se trata de uma reflexão específica desta mostra. Acredito que seja importante destacar o texto apresentado por Thais Darzé, no qual encontramos reflexões sobre o conceito curatorial e conexões com o meu processo criativo. Como ela reflete no texto, “Ao contrário de suas pinturas em grande escala, que obriga o público a se distanciar para contemplá-las, com a necessidade de sair de cena para observar a arena, nessa série de objetos, o convite ao espectador é de aproximação. As miniaturas são um chamado para perceber cada detalhe, e essa série possui marcas espaciais definidas, apesar da ausência de vestígios de temporalidade ainda permanecendo”.

 

3)Neste trabalho temos reunido um conjunto de operações, em que sua obra ‘ultrapassa as barreiras do Eu até encontrar o Outro, o Ser’, conforme está dito. Que operações são estas? Pode descrevê-las?

Há uma tríade conceitual na minha obra (o Corpo – o Eu – o Ser) que se estabelece na busca pela imagem/corpo (quando me refiro à imagem-corpo trata-se dos vestígios que fazem alusão à presença humana como imagens de vísceras, imagem de um pé, imagem de uma mão, entre outros). Contudo, o Eu (identidade) que se faz presente nas pinturas é atravessado por algo até atingir o Ser. Essa “imagem/corpo” é uma espécie de avatar para o Outro, por mais que parta de condições de um universo particular, sempre esbarro no senso comum da Natureza Humana. Assim também, como nos objetos criados para esta mostra.

 

 

4)Como vê e se vê nesta travessia entre a pintura e o objeto?

Grande parte do meu processo criativo em pintura se faz presente nos objetos desta mostra. A definição do projeto expositivo para esta exposição carrega em si a presença de pequenos objetos dispostos em grandes espaços. Com isso, estabelecem-se relações entre o Ser e sua presença entre as coisas do universo, seja esse universo particular, interno, seja os espaços físicos e objetos que os cercam.

Para tanto, é fundamental que a instalação dos objetos no espaço expositivo represente o antagonismo entre as escalas físicas e aquelas que são difíceis de definir sua dimensão, como a dimensão da solidão, por exemplo. Quando propomos expor a obra “Ermo”, composta por um balanço medindo 7,5 x 3,5 x 4 cm, suspenso por uma corrente até alcançar um pé direito duplo ou triplo, numa sala da galeria relativamente grande e vazia, desejamos instaurar uma ideia sobre possíveis correlações entre as dimensões físicas e metafóricas como o humano, o material e o intangível.

Enquanto isso, as obras diminutas são habitadas por pequenas porções de carne, que repousam perpetuamente sobre suas mobílias, as quais fazem alusão à presença do indivíduo, do humano. Uma metonímia perversa, pois afinal somos constituídos de carne, e é na carne que se encontra o sentido de estar no mundo, na vida, onde “mora a pulsão”.

 

5)Outro ponto: cada objeto traz um verbete sobre ele. Esta literatura é fundamental para o espectador conhecer a obra que está exposta?

Não, esses verbetes não são  fundamentais. Eu considero os verbetes como a fala do artista sobre a obra produzida. São reflexões que tenta aproximar o fruidor do pensamento do artista. O público poderá realizar suas próprias reflexões a partir do seu contato com a obra, sem, necessariamente, ter lido os verbetes.

 

6)Estes objetos serão apenas objetos, se constituem peças únicas, ou serão seguidos por fotos (todas do catálogo são suas) e de pinturas?

Esta mostra é composta por 12 (doze) obras, objetos como peças únicas. As fotos dos objetos/obras são de minha autoria, como registro dos mesmos para o catálogo.

 

Trajetória

Fábio Magalhães nasceu em Tanque Novo, Bahia, em 1982. Vive e trabalha em Salvador. A maior parte da sua produção artística está voltada para a pintura, que surge de um ato fotográfico planejado. Ela resulta de um processo de concepção e efetivação que passa pela cenografia e pela ficção até chegar ao produto final, imagens e objetos. Para o artista, suas obras são o fator delimitador entre condições psíquicas e o imaginário. Assim, o artista apresenta encenações meticulosamente planejadas, capazes de borrar os limites da percepção, configuradas em distorções da realidade e contornos perturbadores. Desse modo, seu trabalho reúne um conjunto de operações, em que sua obra ultrapassa as barreiras do Eu até encontrar o Outro, o Ser.

Fábio Magalhães realizou em 2008 sua primeira exposição individual, (Galeria de Arte da Aliança Francesa – Salvador/BA). Em 2009, “Jogos de Significados”, na Galeria do Conselho – Salvador/BA. Em 2011, “O Grande Corpo”, Prêmio Matilde Mattos/FUNCEB, na Galeria do Conselho – Salvador/BA. Em 2013, “Retratos Íntimos” na Galeria Laura Marsiaj – Rio de Janeiro/RJ. Em 2016, “Além do visível, aquém do intangível”, no Museu de Arte da Bahia, curadoria Alejandra Muñoz, mostra também apresentada na Caixa Cultural São Paulo (2017) e Caixa Cultural Brasília (2018). Em 2019, “Espectador da vida”, na Paulo Darzé Galeria, curadoria de Thaís Darzé.

Fábio Magalhães recebeu em 2010 o Prêmio Aquisição e Prêmio Júri Popular no I Salão Semear de Arte Contemporânea em Aracaju/SE; Prêmio Fundação Cultural do Estado, Vitória da Conquista/BA. Em 2011, o Prêmio FUNARTE-Arte Contemporânea/Sala Nordeste. Foi selecionado para o “Rumos Itaú Cultural 2011/2013”. Em 2015 foi indicado ao Prêmio PIPA, Museu de Arte Moderna/Rio de Janeiro.

 

A mostra Espectador da vida, de Fábio Magalhães, na Paulo Darzé Galeria está aberta ao público de 28 de março de 2019 até 26 de abril, com visitação gratuita de segunda a sexta das 9 às 19 horas, e sábado das 9 às 13 horas, na sede da Galeria, Rua Chrysippo de Aguiar 8, Corredor da Vitória Salvador, Bahia Tel.(71) 3267.0930 (71) 9918.6205 – www.paulodarzegaleria.com.br – paulodarze@terra.com.br).