As verdades sobre a demissão de Tia Eron

         



Por Osvaldo Lyra
Muitos políticos baianos viam a ex-deputada federal Tia Eron como a próxima ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, no lugar da atual titular do cargo Damares Alves. Com o perfil combativo e sempre atuante na defesa das causas das mulheres, Tia Eron foi surpreendida nas últimas semanas não com uma promoção, mas sim, com sua demissão do governo Jair Bolsonaro. Para a imprensa, o ministério tratou de divulgar a informação de que a baiana teria saído do governo por ser improdutiva, não podendo estar à frente do cargo. No entanto, de fevereiro até a sua demissão, a ex-deputada do PRB apresentou uma lista com 18 projetos à ministra Damares, o que, por si só, desmente o argumento de improdutividade. Até porque, desde que assumiu o cargo, foram programas de cooperação com governos, campanhas de conscientização e devolução de R$ 2,7 milhões aos cofres da União.

Sempre que questionada sobre os motivos de sua saída, Eron diz que essa é uma pergunta que deve ser feita “a quem realizou a ação, não quem recebeu seu efeito”. Pessoas próximas a ela dizem que a ministra teria afirmado que Eron seria desligada por ter nomeado auxiliares que considerava de esquerda, quando na realidade o ministério possui, em cargos estratégicos, indicadas que protestaram com o #Ele Não, além de existirem outras ligadas a políticos da esquerda radical. A assessoria do ministério nega que esse tenha sido o motivo. Em entrevista recente ao jornal O Globo, Eron falou sobre a demissão das seis pessoas (indicadas por ela), que tinham sido nomeadas no governo. “Em relação aos técnicos e técnicas indicados por mim, foi veiculada uma suposta relação com a esquerda. Se faz necessário dizer que houve um equívoco na compreensão das pautas sociais que defendíamos sobre equidade, racismo, autonomia para mulheres e oportunidades iguais para todos. Independente da sua condição física, social ou religiosa, essas pautas não devem ser de direita ou esquerda, mas de todos que sonham com uma nação justa e acolhedora para os brasileiros”, justificou.

O detalhe é que a versão oficial para a demissão teria acontecido devido a uma "reorganização administrativa" na pasta. Apesar de não ter sido uma indicação do PRB, o nome de Tia Eron passou pelo aval do presidente nacional do partido, Marcos Pereira, antes de sua nomeação como secretária, no final de janeiro. Há duas semanas, inclusive, Damares procurou o presidente do partido para dar satisfação sobre o rompimento. Segundo pessoas próximas à ex-deputada, outro motivo do desligamento seria uma retaliação à atitude de um grupo nomeado pela bancada evangélica e que, supostamente, preferiu Damares a Magno Malta, onde, num evento no dia 30 de abril, chegaram atrasados e se recusaram a tirar fotos com Damares, na frente do ex-ministro e atual secretário de Justiça do governo do Distrito Federal, Gustavo Rocha. No dia, a ministra teria ficado visivelmente abalada com o ocorrido e chegou a chorar, segundo relatos de quem estava presente, pela humilhação sofrida de público pelas “amigas” da mesma igreja. Outra versão, posicionada no topo da lista de especulações, é que a demissão se deu devido a uma disputa de poder no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Em nota, Tia Eron chegou a mencionar que vinha produzindo muito e, inclusive, citou nomes de servidores inoperantes do ministério, mas não quis se alongar. Além de encontrar resistências para atuar, ela disse que falta no governo pessoas comprometidas com a causa das mulheres e que existiam várias lacunas operacionais a serem transpostas. Questionada pelo O Globo sobre o que achava da pessoa Damares e se as mulheres estavam bem representadas com ela à frente do ministério, Eron tergiversou, para mandar seu recado: “Como uma pessoa muito humana, que ela é, Damares se esforça em demasia para atingir todas as mulheres desse país, principalmente das que vivem no submundo, ou, as invisíveis. Muito treinável, ela é bem capaz de acertar, se buscar sabedoria em fontes técnicas, se fortalecer, comer no prato do povo e não beber em fonte rota”.

*Osvaldo Lyra é editor de Política da Tribuna