Maia tem uma causa, mas não tem uma ideia

         



Por Gerson Brasil
A voz do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, vem se tornando a mais ouvida no país e suas declarações e embates com o governo de Bolsonaro tem atraído à atenção do público em geral e em especial da classe política e da mídia. Não por outro motivo recentemente ele foi guindado à condição de primeiro ministro pelos seus admiradores e correligionários. Ele não faz mistério e nem esconde que tem uma agenda própria para governar o país, que se contrapõe, em alguns casos, à equipe econômica e também ao projeto anticrime de Moro.

Não há nesse momento nenhuma voz que rivalize com a de Maia ou que lhe faça sombra, na desenvoltura assumida na contestação e troca de farpas com o governo.

É quase um procônsul e se aproximar do personagem de Cortázar, em Todos os Fogos o Fogo, que “pensa ironicamente que algum dia sua estátua será assim, enquanto levanta o braço, fixa-o no gesto de cumprimento,                                      deixando-se petrificar pela ovação”.

Maia já ensaiou ser presidente, não deu certo, mas chama a atenção e age como se somente fosse a voz do Brasil, prescindindo do Guarani de Carlos Gomes. Num esforço alentado e sobranceiro constrói teses e “preocupações”, a exemplo da busca de um caminho mais curto para a retomada do crescimento econômico.

“Estou preocupado com esse curto prazo. Estamos caminhando, infelizmente, para o aumento do desemprego, o que é grave, e para o aumento da pobreza. No final do ano, voltamos a ter fome neste País”.

Com o companheirismo do Centrão, ele já abraçou, largou, voltou a abraçar, a Reforma da Previdência; recentemente o relator da proposta acenou com um novo texto, ou seja, afastaria o governo da pauta previdenciária.

Essa pirueta durou pouco e não haverá mais substitutivo, mas sim emendas ao texto da equipe econômica de Guedes, que já sinalizou de modo positivo.

Nesse quesito, ou nessa queda de braço, entre Maia e o governo, e a votação da Reforma Previdenciária, Bolsonaro, num lance desconcertante, disse que se o Congresso tivesse uma Reforma e votasse seria bom, porque o importante era a votação, para o país sair da paralisia em que se encontra, num tema vital, que dará lustre a quem melhor dele se aproveitar.

O governo ou os parlamentares que fazem oposição, mas nem tanto, porque sabem que a pressão é grande e não dá mais para adiar o final da partida, que vem sendo disputada desde o governo de Michel Temer, com quase o mesmo time.

Enquanto Bolsonaro não conseguiu receber o prêmio de Personalidade do Ano, no Museu de Nova Iorque, porque o prefeito da cidade, Bill de Blasio, trabalho contra, fez de tudo para melar a homenagem, Maia jantou com investidores, ao lado de Dória, pelos braços de Banco BTG Pactual, cujo presidente, André Esteves, foi absolvido da acusação de corrupção. Ele voltou ao banco.

A capacidade de Maia se tornar visível e atrair atenções é inegável, principalmente num país que tem 34 partidos políticos, e na panela, juntos e misturados, estão o Centrão, partidos tradicionais como o PSDB, hoje baqueado, como também estão o MDB e o PDT, os dois quase na berlinda; sem falar naqueles outros de menor expressão, mas que fazem a diferença no chamado governo de coalizão, cuja fórmula parece esgotada, depois do Mensalão e da Lava Jato.

Há ainda a esquerda, com o PT atordoado, à espera de um milagre que salve Lula da cadeia e os outros partidos do mesmo tema, mas que vivem o day after day.

Ninguém fala, todos estão calados. Claro, noves fora algumas bobagens de Ciro Gomes e resmungos aqui e ali de gente de pouca importância e que não encontra eco, pela incapacidade de expressar algo além do trivial, o que inclui o temor pelo futuro do país, o sonho com o impeachment de Bolsonaro e outras sandices.

O alarmismo corre solto, mas não há voz corrente carregando debaixo do braço aquele embrulho salvador, um pacto para salvar a pátria, ou uma solução suprapartidária, ou ainda “este momento exige a união dos brasileiros” et al. O que indica que não há crise política.

 

Maia só falta aviar umas receitas médicas, assim como faziam alguns calouros, a long time, logo após passar em medicina, com suas boinas verdes e cabeças raspadas, assumindo um risco e às vezes também ensejando um susto, quem sabe igual aquele produzido pelo médico de “Instruções –exemplos sobre formas de sentir medo”.

Um doutor cordial e sorridente, que examina e prescreve a receita, “enquanto levanta a cabeça e nos anima. Mas de repente, na penumbra, debaixo da mesa, vemos as pernas do médico. Ele arregaçou as calças até as coxas e veste meias de mulher”.

Maia, tenta assegurar gritos de aplausos para o palanque que está montando e abre nova frente de luta, com a aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça do texto da Reforma Tributária, não a do governo e sim a que conta com a sua simpatia. É um assunto espinhoso que vai mexer com o ICMS e o ISS, as grandes receitas dos estados e municípios. Ao transitar por tantos temas e terrenos, ele inclina-se para o bovarismo.

Ema Bovary “devorava, em minúcia, as críticas das estreias, os noticiários elegantes das corridas e das sessões de gala, interessava-se pela estreia de uma cantora e leu Balzac e Gerge Sand , procurando na imaginação alívio para suas ambições pessoais”.

 

Recentemente, Maia rompeu relações com o líder do governo, sem nenhuma expressão, o Major Vitor Hugo, após este ter compartilhado uma charge em que mostra que negociar no Congresso era entrar no local com um saco de dinheiro na cabeça.

Quando perguntaram a Bolsonaro como ele encarava o fato, o presidente respondeu de modo distraído e calculado que desconhecia "essa cizânia. "E em cima desse desconhecimento, eu não posso fazer comentários".

O presidente não comungou com o fato, não se sentiu admoestado e nem ficou em júbilo; desviou o olhar, foi tomar conhecimento de outras coisas. Se tivesse consultado Bloch, o amigo do narrador de “no Caminho de Swann”, poderia ter dito; senhor, absolutamente não lhe posso responder, vivo tão resolutamente fora das contingências que meus sentidos não se dão ao trabalho de notificá-las.

 

 

Talvez os políticos profissionais estejam esperando Maia concluir a montagem do palanque para subir e pegar um pedaço do bolo ou do butim, “ou não”, como costuma dizer Alex Ferraz, sobre assuntos enrugados, revisitando Caetano Veloso. Maia tem uma causa, mas não uma ideia; proletária ou burguesa.
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Articulista - Secretário de redação da Tribuna