Unidade da UFBA é referência em doenças hepáticas

         



Com destacada produção científica, o Centro de Formação em Biologia Molecular da Universidade Federal da Bahia está entre os líderes de publicações em revistas internacionais sobre o tema. Muitos trabalhos atuais estão focados no estudo da hepatotoxicidade de ervas e outros medicamentos prescritos sem base científica, difundidos por modismos com fórmulas e hormônios que muitas vezes provocam doenças no fígado. O centro abriga um laboratório pioneiro para atender vítimas desses casos, com o acompanhamento desde o diagnóstico até a investigação para definir a o tipo de molécula que causou a agressão.

Coordenador do núcleo de hepatologia do hospital, médico e professor da Faculdade de Medicina da UFBA, Raymundo Paraná explica que a biologia molecular é essencial para identificar casos de resistência viral e falha terapêutica, quando é necessário conhecer a genética do vírus para indicar o melhor tratamento para os pacientes. Os exames de biologia molecular são importantes especialmente para o diagnóstico de hepatite E, doença que pode evoluir para casos graves e só é diagnosticada por meio dessa tecnologia. Além da Bahia, esses exames são realizados apenas em centros universitários de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

“Recebemos pacientes de todo o Estado, geralmente são casos mais complicados, com a doença em estágio avançado e casos de falha terapêutica”, destaca. Os pacientes são encaminhados para atendimento através de regulação do Sistema único de Saúde (SUS) e de regulação interna do Hupes, encaminhados de outras especialidades. No centro também são atendidos pacientes dos Estados de Sergipe e Alagoas.

Mais de 300 pacientes são atendidos regularmente pelos serviços do centro, onde realizam acompanhamento ambulatorial e a testagem anual para verificar o nível de atividade viral, remissão ou cura da doença. Os pacientes recebem os remédios para o tratamento da doença, que têm índice superior a 95% de cura, através do Programa de Medicamentos de Alto Custo.

“Nossos pacientes aderem muito ao tratamento. Eles têm tanta dificuldade para ter acesso aos medicamentos que, quando conseguem, não abandonam”, afirma Paraná, ressaltando a importância de realizar por completo, sem pular doses, o tratamento, que dura 12 semanas em média. Ele explica que os remédios mais atuais têm baixo nível de toxicidade, e o paciente tem uma vida normal.

O centro de referência também contribui muito na formação de novos profissionais para o país. Médicos e outros profissionais da área da saúde do Acre, Amazonas e Rondônia recebem ali capacitação para atuar nos serviços públicos de saúde na região amazônica, onde as hepatites virais são endêmicas. Esse treinamento oferece residência médica para uma formação geral ou especializada em uma doença específica, além de treinamento na área de laboratório.

Paraná alerta para a falta de medicamentos para hepatites A e B na rede pública, que tem resultado na interrupção do tratamento dos pacientes, o que pode provocar falha terapêutica e até câncer de fígado e demandas por transplantes em casos mais graves. “A repercussão para esses pacientes (sem medicamento) é a pior possível”, atesta.

Sobre o momento atual da Educação e do ensino superior no país, ele demonstra a sua preocupação com os cortes de bolsas de iniciação científica, de mestrado e doutorado. Ele ressalta a importância da participação dos estudantes em projetos de pesquisa de diversas naturezas, de uma medicina mais humanizada e da tutoria para os alunos que serão futuros multiplicadores do conhecimento, das ciências e novas tecnologias. “É estratégico priorizar essa formação para o país se desenvolver. Espero que a gente não perca isso”, disse.

Inaugurado em 2017, o centro de formação foi financiado pela francesa Fundação Merieux, que investiu 2,5 milhões de euros (cerca de R$ 10,7 milhões, em valores atuais) para construir e equipar laboratórios, e também para implantar outro centro semelhante no Acre. De acordo com o professor, havia expectativa de autofinanciamento do laboratório através do SUS, mas isso ainda não se concretizou. A Fundação Merieux continua aportando recursos para garantir o funcionamento da estrutura.