Políticas Culturais e Aprendizados: Outros Olhares Epistemológicos

         



Por Elder Ribeiro*
Maria Carolina Vasconselos Oliveira é pesquisadora nas áreas dos estudos em Cultura, Arte e Políticas Culturais. É Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e Doutora em Sociologia pela mesma instituição de ensino, e vem há anos atuando como pesquisadora do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

O ensaio como a própria autora define, tende a problematizar as esferas da produção de conhecimento e das ações políticas, no que tange as práticas culturais e o consumo de cultura dos entes e grupos sociais. Analisando também, as definições de cultura enquanto ação política, subsidiando os modelos de cultura, a democratização do acesso aos bens culturais e as premissas pelas quais distingue os comportamentos culturais dos sujeitos e todos que fazem parte da ação conjunta.

O que a autora deixa bem claro é a analogia de que as práticas culturais tem significado com os processos educativos, numa correlação que avaliamos não ser o conjunto de todas as relações de causa e efeito com um único objetivo. No que se refere as dinâmicas de consumo cultural e formação de público, ademais são várias perspectivas que desencadeia dissidências entre pesquisadores e demais sujeitos interessados no campo da cultura.

É relevante destacar que, quase sempre todas as teorias ligadas às práticas culturais dos entes e grupos sociais, são notadamente produzidas por direcionamentos assumidos no âmbito da política, o que torna mais complicado é o que se distingue da esfera analítica e o que diz a respeito à normativa.

Levando-se em consideração que, as práticas culturais e o consumo de cultura são pontos relevantes na difusão do conhecimento quanto na esfera política por inúmeras razões. Outro fator importante é a definição do conceito de cultura, a autora do texto concebe a cultura como um objeto de múltiplas dimensões e a partir de qual perspectiva ela pode ser contextualizada tanto em pesquisas quanto para fins políticos. Os autores citados no decorrer do texto apresentam dois conceitos de cultura, por um lado a cultura numa perspectiva sociológica e por outro lado a cultura numa perspectiva antropológica.

A sociológica diz à espeito por ter sido explorada no contexto das escolas da tradição francesa dos públicos, como também das práticas culturais, a partir de Pierre Bourdieu temos então a delimitação da cultura pelo viés das manifestações artísticas eruditas para produção de estudos e produtos culturais. A antropológica traz à tona toda a diversidade das culturas, com a intenção da pluralidade cultural sem fins produtivos em que o sujeito pode expressar as suas subjetividades.

A autora levanta uma suposição pessoal de que trabalhar com a dimensão da cultura antropológica seria inviável no nível operacional, ou seja, a cultura precisa estar operando no sentido de planejamento, organização, criando políticas públicas e execução das atividades na vida de todo e qualquer ser humano. A partir daí a legitimidade da cultura se torna dinâmica e não estática.

Segundo o autor Canclini (2011) as culturas já não se agrupam em grupos fixos e estáveis e os dispositivos de reprodução se proliferam. Nesse sentido, há uma grande preocupação nessas distinções devido ao distanciamento entre as culturas que vem do processo de colonização. A autora supõe que, o debate sobre a definição de cultura é abstrato, porque a cultura se apresenta cotidianamente na vida dos que planejam e pensam as atividades culturais.

É perceptível que, atualmente as instituições de fomento à cultura tem uma visão ampla do conceito de cultura, tais como, os símbolos, expressões, modos, fazeres e tradições pelos quais um sujeito ou o seu grupo social se expressa. Mas, que operacionalmente as instituições delimita suas políticas a vertentes mais específicas desse geral, por exemplo, fomentar as atividades de determinada atividade cultural e espaços de lazer ou garantir a formação de público para seletivas linguagens artísticas.

As definições de cultura se apresenta associadamente com a questão do objeto de relevância dissidente entre interessados que curtem todos os temas relacionados à cultura, entendendo o papel das hierarquias nas suas diversas manifestações. Daí surgem as classificações como citadas no texto, cultura de massa, cultura popular, cultura erudita

 

e cultura legitima, bem como as inúmeras dicotomias dos tipos de cultura em consonância com os subsídios são exemplos nas revisões de literatura dos estudos culturais e nas discussões sobre políticas e gestão cultural nos últimos anos. Assim, nos incita a pensar o quanto e para quem essas linhas imaginárias fazem sentido. A grande questão é que os estudiosos elucidam as diferenciações entre tipos e hierarquias de cultura e só fazem sentido se pensar a partir dos consumidores ou quando se avalia conjuntamente as práticas reais dos sujeitos.

A autora levanta uma questão pertinente no texto, de que ainda o relativismo extremo deve ser evitado, sobretudo, quando estudamos temáticas acerca do escopo político. Vejo que se faz necessário seguindo a lógica da autora que não devemos nos prender a conceitos que a sociedade julga ser detentores da razão, ou seja, ter um conhecimento absoluto. Se já que falamos tanto em descolonização do conhecimento, porque podemos entrar em risco de cairmos numa ótica extremamente intelectualista do mundo real e generalizada, pois existe outras formas de conhecimento fora da lógica racional, e que corrobora amplamente para a discussão em questão.

Entra a chamada democratização da cultura, a ideia então de democratizar o acesso à cultura, na minha concepção acredito que seja louvável, e também é uma das pautas das políticas culturais na França desde a década de 60, e é esse contexto usual ligado à descendência das políticas democráticas das culturas, a que conhecemos nos dias atuais. Por fim, é cabível salientar que a discussão acerca dos fatores influenciam ou condiciona os comportamentos culturais. Se aceitarmos a ideia de que a educação formal é a única visão possível de esclarecer a formação dos públicos para muitas das manifestações culturais, assim poderíamos decrescer em relação as políticas culturais de determinados grupos.

Já que as mudanças na qualidade da educação formal pública e privada pode levar anos para serem efetivadas. Visto que nos últimos anos o cenário da educação brasileira é limitado, esse lócus é totalmente desastroso. Defendo conscientemente e igualitariamente que a educação informal vem ganhando forças desde 1970 quando os movimentos sociais e feministas começam a questionar e a pensar/repensar os modelos da educação brasileira, abrindo novas portas para os saberes práticos e teóricos da educação para além dos muros das escolas e universidades. Sendo que deu certo e os caminhos e estratégias têm-se revelado mais pesquisas sobre o assunto em questão. Vejo como uma possibilidade de ações conjuntas que levem a melhorias no currículo, práticas e processos educativos no geral.

 

Entende-se que, este ensaio procurou evidenciar as esferas da produção acadêmica e das políticas públicas que teve por objetivo analisar as práticas culturais de grupos e sujeitos, apresentando traços significativos pelos quais é emergente no cenário político que estamos vivenciando.

O texto fez com que eu estivesse acompanhando-o a todo tempo e certa feita abriu a leitura para discussões futuras. Como também foi posto as fronteiras entre o campo analítico e normativo que tais temas suscitaram no texto. Foi profícuo alertar para o fato das hierarquizações e tipos de culturas que precisam ser repensadas hoje e sempre.
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* Bacharel Interdisciplinar em Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas pelo Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT/UFRB). Pesquisador das áreas de Educação e Religião. Monitor do Núcleo de Políticas de Inclusão (NUPI) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e pesquisador do Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia e Audiovisual (LEAA/Recôncavo). E-mail: elderribeiroo97@gmail.com

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Resenha da obra:

 

VASCONCELOS-OLIVEIRA, M.C. Culturas, públicos, processos de aprendizado: possibilidades e lógicas plurais. Políticas Culturais em Revista, Salvador, v.2, n.2, p. 122-136, 2009

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Referências

CANCLINI, N. G. Culturas Híbridas - estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: EDUSP, 2011. p.283-350: Culturas híbridas, poderes oblíquos.