´Se não formos para a rua lutar e resistir, estaremos perdidos`, diz Lula

         



Em evento no Rio de Janeiro em homenagem aos 40 anos do PT, na noite deste sábado (8), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a militância petista deveria ir para as ruas protestar contra o governo Bolsonaro. Convocação similar foi feita mais cedo pelo ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

“Não temos muita alternativa. Estão destruindo tudo o que montamos, além da subserviência ao governo americano. Se não formos para a rua lutar e resistir, estaremos perdidos”, afirmou o petista na Fundição Progresso, no centro do Rio, durante celebração das quatro décadas do partido.

“A última eleição nos ensinou que ou assumimos a responsabilidade de fazer política e de discutir política ou seremos levados a rodão como na última eleição. Acusam todos de corrupção e enfiam na nossa cara esse governo que enfiaram agora. Esse é um desafio para nós. Como organizamos os movimentos sindicais de novo?”, afirmou.

No final do ano passado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmaram que uma possível radicalização dos protestos de rua no Brasil poderia ensejar um desejo de recriação do AI-5, o mais radical decreto da ditadura militar no Brasil.

Também afirmou que para fazer uma oposição de verdade, nada melhor do que ter Bolsonaro na Presidência do país. “Não vou permitir, ficando quieto, a destruição desse país.”

Disse ainda estar preocupado com a situação dos jovens em trabalhos informais.“Tenho uma preocupção enorme com o futuro da nossa juventude. A gente está vendo muitos jovens tendo que trabalhar no aplicativo, entregando pizza de bicicleta ou no Uber. É o ser humano sendo tratado da forma mais canalha possível, em nome da flexibilização e empreendedorismo.”

“Eu tenho 74 anos. Quando eu digo que tenho tesão de 20 anos é para fazer inveja, para vocês saberem que é preciso ter muita motivação. Muita energia e tesão por participar desse debate”, continuou o ex-presidente.

Mujica destacou que fez questão de comparecer ao evento.“Queria vir a essa festa por várias razões. Pelo meu companheiro, e também como minha homenagem a muitos lutadores do PT e que nestes anos eu conheci”, disse.

A festa dos 40 anos do PT lotou o auditório do local, com capacidade para 5.000 pessoas. Também estiveram presentes os presidentes do PDT, Carlos Lupi, e do PSB, Carlos Siqueira. Manuela D’Ávila representou o PC do B, e Marcelo Freixo foi em nome do PSOL.

Ainda compareceram Haddad e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, além de Celso Amorim e José Dirceu.
Antes do discurso, pela manhã, Lula encorajou seus apoiadores a ampliar os canais de comunicação com a sociedade para além da esquerda.

Reunido com intelectuais e representantes da comunidade acadêmica, defendeu que a esquerda, e nela o PT, amplie os canais de comunicação e dialogue com os opositores do governo Bolsonaro.

Segundo participantes da reunião, Lula afirmou ser necessário traçar alianças táticas de acordo com os diferentes cenários. E o momento exigiria, de acordo com esses relatos, uma amplitude nas articulações políticas, não exclusivamente eleitoreira.

De acordo com um participante, Lula chegou a afirmar que a política de valorização do salário-mínimo de seu governo foi possível graças ao diálogo com empresariado, que não boicotou esse projeto.

À tarde, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, admitiu a possibilidade de o PT se aliar a partidos fora do campo de esquerda, como PSDB e DEM, nas próximas eleições municipais, apesar de decisão contrária da cúpula petista.

Ela reconheceu: “Às vezes pode acontecer. Aí nós vamos ter que decidir sobre isso caso a caso, como já decidimos nas outras vezes. Já desmanchamos aliança, já intervimos em eleição, já fizemos ações nesse sentido. O Brasil tem 5.000 e poucos municípios”.

Na noite anterior, a assessoria do PT confirmou orientação da executiva partidária admitindo a possibilidade de alianças em 2020 com adversários como PSDB e DEM. Horas depois, por meio de nota, o PT negou a informação e contradisse sua assessoria.

Também na tarde de sábado (8), durante as homenagens, o ex-prefeito de SP e candidato derrotado nas eleições presidenciais Fernando Haddad atacou Jair Bolsonaro e convocou os petistas para ir às ruas defender o legado do partido.


“É hora de ir para a rua defender esse partido, defender esse legado e botar esses fascistas para correr”, disse Haddad, no evento do PT.

“Se a gente ficar com medo de fake news, medo de rede social, medo de fascista, eles vão avançar. Se a gente mostrar a garra que a gente teve, eles vão recuar. E o país volta a ser governado por gente decente”, afirmou Haddad.

Em quase 13 minutos no palco, Haddad atacou Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, relembrando declarações polêmicas da dupla.

“Estão barbarizando a sociedade. Estamos nos tornando bárbaros sem perceber o que esses caras estão fazendo. Um presidente da República falar que o soropositivo custa para o país? Quem custa é ele! O maior custo que esse país tem é o Bolsonaro!”, discursou o ex-prefeito.

Fernando Haddad fez referência a uma afirmação do presidente na quarta (5), quando disse que uma pessoa com HIV —vírus da Aids— representa “uma despesa para todos no Brasil”.

“Todo dia tem alguém sendo ofendido. Uma hora é a mulher do presidente da França, que é mais velha que ele. Ele é democrático na ofensa, ofende todo mundo. Menos os seus correligionários covardes”, disse Haddad, lembrando também de entrevero de Bolsonaro com a primeira-dama da França, Brigitte Macron, ofendida pelo presidente do Brasil em agosto do ano passado.
*Da Folha