Senador não acredita na reeleição de Bolsonaro

         



O senador Álvaro Dias (Podemos) tem sérias críticas contra o governo do presidente Jair Bolsonaro. Para ele, que deu entrevista especial para a Tribuna da Bahia, a ausência de liderança do chefe do Palácio do Planalto contribuiu para o estabelecimento de uma relação turbulenta com o Congresso Nacional. "A ausência de liderança do presidente da República, que fez a opção pelo espetáculo e não pelo trabalho, foi fatal para a relação do Congresso e o Governo", declarou em entrevista exclusiva à Tribuna. O parlamentar é cuidadoso ao comentar a responsabilidade do eleitorado em alçar Bolsonaro ao poder. "Sempre tenho o cuidado de não responsabilizar a população pela má escolha, mas eu fui tentado, nas reflexões que fiz após a eleição, a acreditar que a maioria se identificou com os defeitos do candidato e não com suas qualidades", avalia. Ainda na entrevista, Dias comenta a ascensão do ministro da Justiça, Sérgio Moro, como possibilidade para a eleição presidencial de 2022 e avalia a cena política atual.

Tribuna da Bahia - Senador, o senhor foi candidato à Presidência da República. O senhor acredita hoje que Bolsonaro se reelege ou é possível existir uma alternativa a essa figura tão esquisita?

Álvaro Dias - Creio que cada eleição tem a sua história. Nós vivemos um momento inusitado na última. Alguns fatores foram predominantes. O principal é que houve uma polarização e trabalhou-se essa polarização. Havia interesse tanto da esquerda quanto da direita. E isso esvaziou, como se nós não tivéssemos vida inteligente entre a extrema-esquerda e a extrema-direita. Como se o Brasil não fosse uma sociedade multifacetada, com várias correntes de pensamento político. Alimentou-se, então, essa polarização - o que levou à irracionalidade na escolha. O objetivo era destruir o outro. Não era um caminho de construção para o futuro do país. Agora, acho que isso vai mudar. Com essa perspectiva de mudança no cenário eleitoral, não acredito na reeleição do presidente. Não acredito. Terá que mudar muito até lá para construir uma imagem que possa ter a maioria da população ao seu lado.

Tribuna - O senhor acha que essa alternativa está a vista ou terá que ser construída, ainda?

Dias - Terá que ser construída, ainda. Primeiro temos que derrotar essa polarização, que não é boa para a democracia e é muito ruim para o país. Não acredito em construção de uma nação mais eficiente, mais poderosa, com a perspectiva do exercício da cidadania e da plenitude pelas pessoas se nós sustentarmos por muito tempo essa polarização. Acho que nós temos que recolher as qualidades da esquerda, da direita e, com maturidade e equilíbrio, caminhar adiante. A primeira tarefa é essa. Existem interessados na polarização e eles ocupam um bom espaço de mídia, acabando sendo bem sucedidos até aqui. E depois surgirão os nomes.

Tribuna - Como destruir essa polarização?

Dias - Acho que a pregação é um passo. Atitudes. Temos que ter capacidade de convencimento. Às vezes sou assediado nos aeroportos e as pessoas vêm dizer "Como é que você deixou o Bolsonaro se eleger?". Me perdoe. Não tive competência para convencer que tinha uma proposta melhor. Acho que tem que haver esse esforço de convencimento para mostrar para as pessoas que existe alternativa de construção. Já houve a destruição. Agora é a hora da construção.

Tribuna - As pessoas alegam que não havia alternativa ao PT...

Dias - Isso é surpreendente, porque não sei se tivemos em outras eleições tantas alternativas. Tivemos alternativas para vários gostos. Acho que essa é uma justificativa de quem não quer dar mão para à palmatória. "Não tive opção...". Não tinha opção? Prevaleceu a pregação do voto útil. "Tenho que derrotar o PT a qualquer preço". Ainda hoje ouço isso. Essa era uma etapa, que já está cumprida. Agora, vá na próxima. "Primeiro tinha que derrotar o PT". Acho que havia a possibilidade de derrotar, mas com uma visão de construção também.

Tribuna - O senhor acha que o país termina revelando um pouco do seu próprio fascismo quando opta por uma figura como o Bolsonaro, que defende abertamente a tortura e faz declarações que atentam contra valores civilizatórios?

Dias - Sempre tenho o cuidado de não responsabilizar a população pela má escolha, mas eu fui tentado, nas reflexões que fiz após a eleição, a acreditar que a maioria a se identificou com os defeitos do candidato e não com suas qualidades. Essa foi a tentação que tive nas reflexões que fiz. Mas prefiro assumir a responsabilidade sempre como político. Nós somos os responsáveis quando não conseguimos convencer a população que temos um caminho mais adequado. Aliás, há muito tempo, quando eu era deputado federal jovem ainda, aos 29 anos, o Pelé fez uma frase infeliz dizendo que "ah, o povo não sabe votar". E o jornalista Marcondes, da Folha de São Paulo, me abordou no corredor da Câmara e perguntou "faça uma frase sobre essa declaração do Pelé". E eu pensei e falei "se ele tem tanta força nos pés, para quê exigir da cabeça?". Muitos anos depois, acabei conhecendo o Pelé na CPI do Futebol e acabei sendo amigo dele. E acabei sendo depois ainda apoiado por ele.

Tribuna - Apesar do desgaste da “Vaza Jato”, o ministro Sérgio Moro prossegue mais popular que o presidente Jair Bolsonaro. Como é que o senhor avalia essa posição que hoje Moro tem no governo? Numa situação como a dele, o senhor permaneceria no governo?

Dias - Sinceramente, não. Mas é o estilo, as circunstâncias, enfim... Fica difícil. Eu não julgo. Acho que, em razão do presidente da República e do que ele tem proporcionado ao ministro, sobretudo nesses retrocessos ao combate à corrupção - que certamente o colocam em desconforto - isso tudo faz com que tenhamos dois Sérgios Moros: o ministro e o juiz, um diferente do outro. Acontece que ele perdeu parte do patrimônio de respeito adquirido da população, mas esse patrimônio era tão expressivo e significativo que ele continua sendo a figura pública mais popular no país. Portanto, a população valoriza excepcionalmente a conduta que ele teve como juiz colocando poderosos na cadeia, especialmente um ex-presidente da República [Lula]. Acho que ele também administra a situação no governo porque tem um projeto importante que quer dar prosseguimento. Ele não desistiu do projeto de promover avanços na legislação criminal, instrumentalizando o país para combater mais eficazmente a corrupção. Os retrocessos não podemos debitar a ele. Ele até tentou resistir com o Coaf, com a Receita Federal e, exatamente por fazer o contraponto, é que tem tido constrangimentos. Agora mais recentemente foi o caso do juiz de garantias. Ele teve uma posição diferente do presidente. Ele assumiu o compromisso conosco no Senado, em nome do presidente, de que haveria o veto. Portanto, temos que fazer concessões às concessões que ele faz ao presidente em nome de um projeto maior.

Tribuna - Em algum momento o Podemos aventou a possibilidade de apoiar Moro para a sucessão de Bolsonaro?

Dias - Isso não foi discutido entre nós. Na verdade, a imprensa tem explorado esse assunto como uma estratégia de estimular o confronto entre os dois. Eu até dei uma declaração dizendo que nós não convidamos o ministro porque seria um desrespeito a ele. Não seria uma postura ética da nossa parte. Ele já tem dificuldades com o presidente. Nós estaríamos estimulando essas dificuldades e nós não queremos isso. Achamos importante a presença dele no governo. Ele tem um papel especial a cumprir. Evidentemente que se um dia ele quiser vir para o partido as portas estão abertas. Seria acolhido com festa. Não sei se alguém do partido [o convidou], mas eu que tenho uma proximidade com ele nunca tratei desse assunto.

Tribuna - O senhor não acha estranho também que, a despeito dessa popularidade que ele tem, não tenhamos partidos políticos buscando-o filiá-lo? Ele está isolado mesmo?

Dias - Ele não está isolado. Nós não o convidamos ainda porque exatamente ele diz "sou ministro do governo Bolsonaro e meu candidato é o Bolsonaro". Ele tem dito isso. Então, acho que não nos cabe. Não seria ético da nossa parte estimular um confronto entre os dois, porque evidentemente ele acabaria tendo que deixar o governo.

Tribuna - O senhor acredita que esses desentendimentos entre o presidente e Moro, por trás deles, estaria efetivamente o controle da Polícia Federal, que está investigando a influência das milícias no sistema político brasileiro?

Dias - Os problemas que o presidente enfrenta influem nesse relacionamento, porque ninguém ousaria imaginar que o ministro Moro mudaria de comportamento em relação ao desempenho que ele teve como juiz. E uma posição coerente a dele tromba nesses retrocessos que estão ocorrendo. A motivação, sem dúvidas, vem lá do Rio de Janeiro. Não tenho a menor dúvida disso. Muitos se elegeram com uma agenda que priorizava o combate à corrupção. Entre eles o presidente Bolsonaro. Muitos se esqueceram dos compromissos que foram assumidos. Agora, essa conta, será apresentada pela sociedade no devido tempo. Exatamente o fato de ele trombar com as aspirações da sociedade levam ao afastamento do ministro Moro. Não sei até quando ele conseguirá administrar essas divergências.

Tribuna - Perfeito, mas o ministro Moro parece ser no governo quem personifica essa agenda do combate à corrupção...

Dias - É ele que é o representante dessa agenda, ainda. Questionado em razão de algumas posições. A última repercussão negativa foi o fato de não incluir entre os bandidos perigosos aquele representante da milícia [o ex-capitão Adriano da Nóbrega, acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio de Janeiro e suspeito de integrar um grupo de assassinos profissionais do estado]. Isso teve uma repercussão negativa, porque isso vai na conta dos interesses do presidente. Isso, sem dúvida nenhuma, é razão de certo desgaste.

Tribuna - O presidente tem recorrido a parcerias com igrejas evangélicas e cartórios para conseguir as assinaturas necessárias para a criação do seu partido, a Aliança Pelo Brasil. Como é que o senhor vê isso?

Dias - O Ministério Público, inclusive, já se movimenta em relação aos cartórios. Cartório é concessão do Estado. Portanto, não considero correta a utilização dos cartórios para a coleta de assinaturas em benefício de um projeto partidário. Isso é, literalmente, uma afronta. Não é ético e não é, inclusive, legal no meu entendimento. Em relação às igrejas já é uma outra questão. Não acho que o presidente não deveria fazer isso. Não vejo nenhuma ilegalidade.

Tribuna - Articulação política nunca foi o forte desse governo. O senhor acredita que a eventual saída de Onyx Lorenzoni da Casa Civil piora ou melhora a articulação?

Dias - Já subtraíram dele a articulação há algum tempo. Hoje é o general Ramos. Mas a articulação política do governo é falha pelo comportamento do presidente, porque é um presidencialismo de muito poder e o presidente da República tem que ser o principal articulador com os outros poderes. A ausência do presidente é que fez crescer a turma do "toma-lá-dá-cá" de volta. Conversei até com Bacelar para saber se ele também concordava. No início havia uma predisposição no Congresso de ajudar no governo em tudo, nas aprovações das reformas e tal. E a ausência do presidente e, mais ainda, as agressões dele contra o Congresso a tentativa de transferir a responsabilidade de alguns fracassos, fez com que a turma do centrão crescesse e começasse a se impor. E hoje vemos o mesmo sistema anterior vigorando. A ausência de liderança do presidente da República, que fez a opção pelo espetáculo e não pelo trabalho, foi fatal para a relação do Congresso e o Governo.

Tribuna - Que áreas do governo o senhor considera as mais fracas e as mais fortes, se é que elas existem?

Dias - A verdade é a seguinte: não condeno nenhum dos ministros do governo, porque o presidente atrapalha demais. Não poderia dizer, por exemplo, que o da Infraestrutura é um mau ministro, que o Paulo Guedes é um mau ministro... São vários ministros que têm um desempenho razoável, mas o presidente atrapalha demais.

Tribuna - O ministro da Economia, Paulo Guedes foi festejadíssimo em Davos pelo empresariado brasileiro, mas disse algo que é absolutamente primário: que é incompatível o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental. O senhor não acha que o ministro é muito fraco em relação à tradição de economistas que temos no país?

Dias - Me surpreendi com algumas declarações dele lá, especialmente quando colocou a culpa na pobreza, de que a depredação ambiental se dá porque as pessoas precisam comer. A poluição do Rio Tietê e da Bacia de Guanabara não têm nada a ver com a comida e com a pobreza. Na verdade, é fundamental que o governo compatibilize os interesses do progresso com a imprescindível necessidade da preservação ambiental. E é possível compatibilizar. Evidente que o fundamentalismo ambiental não é construtivo e é desnecessário, mas é preciso ter competência para a compatibilização da produção rural com a preservação ambiental. O governo tem sido falho nisso. Ele fez uma opção pela produção de uma forma radical e a repercussão lá fora é terrível.

Tribuna - As pessoas que apontam riscos para a democracia sob o governo Bolsonaro afirmam que os freios e contrapesos estão funcionando. O senhor não acha que é muito delicado um presidente ser contido por um Supremo e um Congresso dos quais a população desconfia?

Dias - Creio que a população desconfia e muito. Mas o fato é que as forças armadas não têm interesse algum em assumir o comando do país, porque sabem das dificuldades de gerenciamento. Não tenho nenhum receio exatamente por conhecer um pouco do sentimento dos militares. Não podemos admitir a possibilidade de golpe. Os próprios militares hoje estão em uma posição muito crítica em relação ao atual governo. As instituições públicas estão consolidadas. Não vejo que, mesmo com o desgaste eventual dos ministros do Supremo e dos parlamentares, as instituições estejam de forma terminativamente abaladas porque ainda há essa capacidade de distinção. É preciso criticar, condenar os integrantes desses poderes e dessas instituições. Condenar quem merece condenação. Mas é preciso preservar, porque nós somos passageiros, transeuntes, substituíveis e essas instituições são permanentes, definitivas e insubstituíveis.

Tribuna - Falando de política baiana, gostaria de ouvi-lo sobre o que significa essa candidatura do nosso importante deputado Bacelar, que é muito respeitado aqui na Bahia. E a candidatura de Carlos Geilson em Feira de Santana.

Dias - Acho fundamental que o partido tenha candidaturas desse porte. Bacelar tem sido um parlamentar coerente, independente e que adota posições corajosas na Câmara. E pode ser porta-voz competente para o ideário do nosso partido numa capital tão importante como Salvador. Tenho pregado no partido que possamos ter candidatos nas cidades mais importantes. Não só com o objetivo de ganhar a eleição. Evidente que esse é um objetivo viário, mas não só por isso. O partido precisa de porta-vozes credenciados para os seus ideários. Não é só ganhar a eleição. É apresentar uma proposta alternativa de poder para a sociedade. Neste cenário são muito importantes candidaturas que tenham essa postura. Fiquei feliz com a candidatura de Bacelar. Preenchemos um vazio com muita qualidade.
*Da Tribuna