Saraus de Rubião Brás na casa de Wilson Lins

         



Por Oleone Coelho Fontes
Querido e lembrado amigo dos bons e saudosos tempos, poeta Antônio Lins - o Toninho Lins-, há vinte anos, aqui na Bahia, na Academia de letras, lançou seu oitavo livro de poesia Amores Partidos, Poemas e Canções. Fui claro, ao lançamento. Há anos não nos revíamos, nem mesmo nos falávamos por internet ou telefone.

Revê-lo, ler seus versos, teve a função de me fazer retroagir no tempo, realizar, no espaço, deleitosa jornada.

Rememorar, com saudades, tempos idos não acontece apenas porque então éramos jovens como ponderou Kundera com relação aos medonhos anos do hitlerismo europeu. Moços, sim, e irreverentementes divertidos, tínhamos o domínio do futuro e aqui estamos, no porvir, glorificando o que se foi.

Wilson Lins, pai do poeta homenageado neste texto, vivenciou durante longos quarenta anos a política partidária baiana como deputado estadual, secretário da educação e presidente da Assembléia Legislativa. Pacato tabaréu de cara enfarruscada, nascido nas barrancas do São Francisco, em Pilão Arcado, favorecido de notável sensibilidade literária, espírito crítico e sarcástico, nos períodos em que exerceu o múnus de comentarista político, divertiu os baianos com trocadilhos e tiradas bem humoradas, a gosto de Eça de Queiroz. Marcou época no jornalismo baiano quando os leitores repetiam o que o Wilson Lins, que se assinava Rubião Brás, proclamava. ‘Política é o diabo!´´

Sua casa, no bairro Rio Vermelho, na Rua Almirante Barroso, numa colina, fervilhava aos domingos. Seus almoços, em regra feijoadas à moda carioca e paulista, ou seja, com feijão preto, eram legítimas paneladas. O pai de Wilson, o destemido coronel Franklin de Albuquerque, (figurante em Grande Sertão: Veredas), certamente recebia em vivenda próxima ao Rio São Francisco, correligionários, trabalhadores que operavam na industrialização da cera de carnaúba, administradores, capatazes e jagunços, com igual fartura em clima festivo.

Antes de os comensais atacarem a mesa, um parente do autor do romance O Reduto, Nestor Bandeira, distribuía bandejas com cachacinhas de Januária, vinho, cerveja gelada, refrigerantes, batidas de limão, uísque...

Eram mais que almoços. Eram saraus, visto que política se entranhava com literatura, violões tocavam, vozes cantavam, ria-se, jogavam-se cartas e não faltavam caricatas cantorias do tipo: “Uai, uai meu capim barba de bode/ faz dois mês que nóis não vê/faz dois mês que nóis não pode!”, parceria erótico-musical de Dorival Caymmi e Caribé, feita na varanda do Rio Vermelho. A vivenda de Wilson Lins era mais que simples moradia era uma chácara de muitos milhares de metros quadrados, árvores da mata atlântica, pássaros em vôo livre, emas, seriemas e araras criadas soltas.

Polpuda oferta financeira estimulou o escritor Wilson Lins, autor dos romances de temática regional, Responso das Almas, Os Cabras do Coronel, Militão sem Remorso, entre outros, a passar adiante a herdade e mudar-se para Brotas, onde não o visitei senão um par de vezes. Acabou-se o que era saboroso.  E os repastos que encheram durante muito tempo uma multidão de tripas, findos mergulharam os domingos numa imensa lei seca tediosa e sem bafômetro.  O poeta Antonio Lins, filiado ao proscrito partido comunista brasileiro, irmão na palavra e na visão anárquica do mundo, aproveitou o ensejo e voou para São Paulo onde até hoje está radicado.

Conheci, encontrei e reencontrei um punhado de boa gente baiana na ilustre varanda do Rio Vermelho, entre os quais o marcante Hector Páride Barnabó perfilhado pela Bahia com o cognome de Caribé, renomado artista plástico. Fiz amizade, que até hoje dura, e já se vão quase quatro décadas, com esquisito homem de letras, Ramiro de Mattos, o que se assinava Ramirão, ão,ão.  Posteriormente, ao encarnar o espírito de Gregório de Mattos, o Boca de Inferno, Ramirão passou a subscrever seus escritos como Gramiro de Mattos.

Os serões dominicais na varanda do casarão da Rua Almirante Barroso atraíam uma farândola de intelectuais, parlamentares estaduais e federais, ministros, governadores, prefeitos, militantes da literatura, cinema, medicina, personagens romanescos, postulantes a autores de livros, escritores que jamais redigiram obra, compositores, cineastas... Uns iam semanalmente, a exemplo do autor desta peça saudosista, aos encontros semanais organizados pelo grande anfitrião que era Wilson Lins. Outros o faziam de modo irregular como Stella e Dorival Caymmi, os deputados Orlando Spínola, João Carlos Tourinho Dantas, Natan Coutinho, José Carlos Facó, Nelson David Ribeiro, Fernando Santana, Ivo Braga, o médico David Araújo, o compositores Alcyvando Luz e Hermano Silva,  poetas Cid Seixas, Ildásio Tavares e  Elísio Brasileiro, cineasta Walter Lima, Mario Cravo Neto, Emanuel Araujo, Jeovah de Carvalho, Vivaldo Costa Lima, Jocafi, Guilherme Simões, Guido Guerra, Ivan Jacaré e o pianista Carlos Lacerda.  O poeta Antonio  Lins, rapazote do mesmo modo que o redator destes símbolos, sem maldade criticava Deus e o mundo e quem houvesse pela frente, com meus aplausos. Éramos assim naqueles anos e quando do nosso recente encontro tive a impressão de que muito pouco havíamos mudado. Melhor, mudamos sem deixar de ser o que éramos.

 Igualmente freqüentadores dos convescotes dominicais do autor de Os Cabras do Coronel foram, Mirandão (célebre personagem de Jorge Amado), Carlos Coqueijo (compositor, mais tarde presidente do Tribunal Superior do Trabalho), Clóvis Amorim, Jorge Amado, Luiz Viana Filho, Calazans Neto, Glauber Rocha, Antonio Carlos Magalhães, Jaime Vieira Lima, Odorico Tavares, João Ubaldo Ribeiro, o médico Sodré Martins, sempre o primeiro a chegar, Godofredo Filho, Jorge Calmon, James Amado, Carlos Eduardo da Rocha, Thales de Azevedo e Vinícius de Morais.

A casa de Wilson Lins, aos domingos, nos anos 1970, era uma descontraída e anarquista Academia de Letras, Cultura e Arte de Saber Gastronômico e Etílico.

Deixou um enorme legado de saudades, assim como o poeta,dramaturgo, ensaísta, pintor, ator, compositor e jornalista Antonio Lins, nosso Toninho Lins, como o batizou e o imortalizou Jorge Amado, em Tenda dos Milagres.  
------------------------------------
Romancista, contista ensaísta, historiador e jornalista.