Eusébio de Mattos: Pintor, Poeta & Prosador

         



Por Gilfrancisco
Sendo sete anos mais velho que seu irmão, o poeta Gregório de Mattos, nasceu Eusébio de Queirós Mattos Guerra em 1629 na Bahia, onde fez os primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas, para cuja ordem entrou, notabilizando-se como orador sacro. Depois de professar em 1644, assumiu a cátedra de Filosofia, em substituição ao Padre Antônio Vieira; ensinando também Retórica, Moral e Teologia.

Além do irmão Gregório, existia ainda o primogênito Pedro de Mattos de Vasconcelos, vereador em 1678. Como não quis estudar, seu pai o mandou administrar as terras na Patatiba, próximo a Vila de São Francisco, no Recôncavo Baiano. Pouco ou quase nada se sabe sobre ele. Fora contaminado com a febre amarela, terrível peste chamada A Bicha que, em 1686, assolou a capitania. Segundo Manuel Pereira Rabelo, o primogênito foi envenenado pela família, para amenizar seu sofrimento: “que os seus mesmos familiares o prepararam, o que conheceu o Dr. Ventura da Cruz Arraes, médico assistente da mesma casa”. 1[1] Grande foi a dor do irmão Gregório de Mattos, ao perdê-lo, que ainda sob o impacto cruel, escreveu o soneto: A Morte de um irmão

Mal é esse, que padeces, terno irmão,

tão forte, tão fatal e tão ímpio,

que ameaça a uma flor ardente estio,

alça contra a vida cruel mão.

 

Do fado atroz parece sem razão,

mas é justo juízo de um Deus pio,

que corte a Parca dessa vida o fio,

que desmaie essa flor ímpio verão.

 

A vida deixarás de um golpe fero

nas mãos da cruel Parca, e o tempo duro

em flor darás a idade transitória.

 

Mas, ó sorte feliz, pois certo espero

que noutra vida melhor logres seguro

sendo perpétua flor lá nessa glória.

Devido as divergências com a Companhia de Jesus, ao que parece desgostoso com aqueles que o haviam educado, mudou de roupeta, tomando o nome de Frei Eusébio da Soledade entre os Carmelitas (ordem do Carmo). O seu afastamento foi comentado largamente, havendo dito, a respeito, o próprio Padre Antônio Vieira: “Pois muito mal fizeram os jesuítas, que tarde se criarão para a Companhia outros Mattos”.

Homem ilustre por suas virtudes dedicou-se ao estudo das artes, música, pintura, poesia e oratória. O seu nome passou à história como dos que mais se bateram pela religião no Brasil, especialmente na Bahia, sua terra natal. O que levou, o Príncipe que regia Portugal em substituição ao irmão, Afonso VI em 1660, a convidá-lo para ser seu pregador. A nomeação não ocorreu, em virtude dos seus superiores argumentarem duas razões públicas: a falta que faria como professor de Teologia e a incumbência que, ao morrer, lhe dera o pai, de assunto que só ele podia levar a cabo; e uma razão confidencial, “não possuía os requisitos morais indispensáveis para ocupar com dignidade tão alto emprego e honra”. 2[2]

Perdida a hegemonia de Pernambuco, a Bahia, tornando-se o principal centro de cultura do século XVII, intensificou o ensino clássico, ministrado pelos jesuítas, e a par dele as ciências históricas, inspiradas num sentimento nativista, fizeram medrar os primeiros cronistas e historiadores nacionais, como Frei Vicente do Salvador, Manoel de Morais, Diogo Gomes Carneiro (1618-1676), Frei Cristovão de Madre Deus, através da revisão moral e social do tempo. A Bahia dos clérigos e dos jesuítas, dos colégios e seminários assistiu a um notável florescimento de pregadores, como: Antônio de Sá (1620-1678), Agostinho Bezerra, Manuel do Desterro, Antônio Piedade, Antônio dos Reis, Eusébio de Mattos, entre outros.

Quando, em 1654, chegou à Bahia o capitão Antônio da Fonseca Soares (1631-1682), poeta português dos mais notáveis do seu tempo e que seria mais tarde Frei franciscano, Antônio das Chagas, já encontrou na Bahia alguns iniciante na poesia, como: Bernardo Vieira Ravasco, Domingos Barbosa e Eusébio de Mattos. Bernardo Ravasco (1617-1697), irmão do Padre Antônio Vieira (1608-1697), deixou obra copiosa quase integralmente inédita, teve alguns versos mais tarde incluído na Fênix Renascida, ou Obra Poéticas Dos melhores Engenhos Portuguezes, Dedicadas A. Excellentíssimo Senhor D. Francisco Xavier de Menezes Conde da Ericeira do Conselho de Sua Majestade, &c. Publica-o Mathias Pereira da Sylva. V. Tomo, famosa antologia da poesia barroca portuguesa, foi publicada por Mathias Pereira da Silva, em 5 volumes: 1711, 1717, 1718, 1721 e 1728. Ravasco seria o primeiro poeta natural do Brasil a ter acesso a uma antologia. Domingos Barbosa, ficaria apenas a fama de poeta, além do título de um poema latino nunca editado. Eusébio de Mattos  viria a ter um poema  Retrato de uma Dama, no Postilhão de Apollo, de José Ângelo de Morais, publicado em Lisboa, no ano de 1761. A exclusão do poeta Gregório de Mattos é em virtude do mesmo encontrar-se em Portugal. Soares conviveu durante um ano com os poetas e os boêmios da Bahia, voltando em seguida a Portugal.

Apesar de revelar nos versos e nos sermões um misticismo, Eusébio de Mattos utiliza-se de um conteúdo estilístico e conceptivo, o que lhe dar maiores qualidades literárias, talvez por suas aptidões para a poesia, música e desenho o tornasse mais destacado entre os companheiros de sua geração. “Seus sermões em que se percebe o estudioso da teologia, ressumam caráter místico e ascético, e canalizam para o campo ético um comportamento estribado nas experiências internas do pregador”.3[3]

O poeta e orador baiano é quem melhor ilustra o panorama do Barroco na oratória sacra. Vejamos um pequeno trecho da Oração fúnebre...: 

 “Nas antevésperas da sua morte pôs Cristo os olhos na Cidade de Jerusalém, e vendo que dali a poucos dias ficaria sem o seu divino Prelado, arrasados os olhos em lágrimas, rompeu nestas palavras: “Quia si cognovisses & tu, & quidem in hac die tua, quae pacem tibi”. Querem dizer: Porque se conhecesses tu, e na verdade neste teu dia as cousas, que para a paz a ti. Aí há palavras mais desatadas! E que querem dizer estas palavras? Quanto à letra nada querem dizer, porém quanto significam menos, tanto significam mais; porque tanto mais sentido se mostrava o Senhor, quanto suas palavras faziam menos sentido. Queria o Senhor naquela ocasião explicar a perda, que teria Jerusalém na morte de seu divino Prelado; e como quem entendia, que tão lamentável perda se não havia de explicar tanto como as vozes, como com as lágrimas, começou amargamente a chorar a desgraça de Jerusalém: “Videns civitatem, flevit super illam”. Depois de se explicar com as lágrimas, quis o Senhor explicar-se também com as vozes; mas vendo que se as palavras fizessem algum sentido, não explicariam o seu sentimento, que fez? Cortando o fio das palavras, interrompendo a ordem dos discursos, começou a falar, atropelados os períodos, e de indústria truncadas as razões de tal sorte, que cada sentença, dizia, interpolava com os gemidos, e cada cláusula, que principiava, interrompia com os soluços: e por este modo quanto menos dizia, tanto mais se explicava, porque tanto mais eficazmente encarecia a força de sua dor, quanto mais dolorosamente cortava o sentido de sua exclamação: “Quia si cognovisses & tu, et quidem in hac die tua, quae ad pacem tibi”. 

Sermão ou prédica é na verdade um discurso importante, longo, demoradamente elaborado, sobre tema religioso, pregado do púlpito, às vezes durante a missa. Essa eloquência religiosa, também chamada parenética, discute os dogmas da religião com vistas a incuti-los no ouvinte. A parenética jesuítica, dominante nos púlpitos do Brasil e Portugal, nos séculos XVI e, sobretudo no XVII, encontrou no Padre Antônio Vieira, o excepcional pregador, responsável pela elevação ao máximo das qualidades artísticas dessa oratória e seu poder de ação social e política.

O espírito e a técnica oratória definida, pela Companhia de Jesus, para a eficácia de sua ação sobre o meio social em que procurava atuar, constituem em procurar ser, antes de tudo, uma ação eficaz na compreensão e na solução dos problemas morais, religiosos, sociais e políticos em que emprenhadamente intervinha o pregador. Tal espírito oratório utilizado na época por Antônio de Sá, cujos Sermões são extremamente trabalhados, no emprego dos significados das palavras, nos tropos e nas figuras de construção e na estrutura dialética, a que servia um estilo oratório que Vieira caracterizou como “muito distinto e muito claro”, não conseguiu, contudo, passar além do século XVII.

Com D. João V silenciou, como disse, “o espírito crítico, que possibilitou a Vieira e a outros jesuítas do seu tempo, ser o que foram como pregadores; e, em oposição a esse espírito, veio a dominar entre nós outro tipo de oratória, representada pelo Pe. Bartolomeu de Gusmão e sócios das academias da primeira metade do século XVIII: Uma oratória contida pelas conveniências políticas e sociais, preocupada com o respeito da ortodoxia católica, dominada pelo tom encomiástico e, do ponto de vista artístico, pouco criativa e apenas habilidosa no emprego das fórmulas de praxe do discurso religioso e social”. 4[4]

Ao contrário do seu irmão, temperamento irrequieto e gênio explosivo, que através de sua poesia satírica, atordoava a tudo e a todos, Frei Eusébio da Soledade, possuía uma alma delicada e pura. Faleceu a 7 de julho de 1692, deixando uma obra bastante significativa: Ecco Homo (Prédicas pregadas no Colégio da Bahia, às noites de sextas-feiras, mostrando-se em todos o Ecce Homo). Lisboa, Oficina João da Costa, 1677. Reeditado pelo sergipano Laudelino Freire, na sua Estante Clássica da Revista de Língua Portuguesa, (edição fac-similar), Volume XI. Rio de Janeiro, 1923. Sermão da Soledade e Lágrimas de Maria Santíssima Senhora Nossa (Sermão pregado na Sé da Bahia), em 1674. Lisboa, Oficina Miguel Menescal, 1681; Sermões do Padre-Mestre Eusébio de Mattos, I (15 sermões). Lisboa, 1694. Primeiro e único volume de uma série de quatro que Frei João de Santa Maria, contemporâneo do autor, tencionava publicar; Oração fúnebre nas exéquias do Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Estevão dos Santos, Bispo do Brasil, a 14 de julho de 1672. (1672); Dez Estâncias - Florilégio da Poesia Brasileira, Varnhagen. Rio de Janeiro, Vol. I, 2ª ed. 1946.

Frei Eusébio da Soledade distinguiu-se no Carmo por exímios sermões, sem que a retórica lhe apagasse a poesia. Escreveu o poema Epicum latinum, de elogio ao Padre Anchieta e o soneto em louvor de Simião Vasconcelos, que lhe abre a grandiosa Vida do Taumaturgo, as oitavas, “parodiando com palavras forçadas outras das estâncias de seu irmão Gregório de Mattos, no retrato de certa D. Brites...”. 5[5]

 

“Tinha uma memória prodigiosa: nos debates, não precisava consultar os livros para convencer as autoridades; estudava pouco minutos um assunto e logo sobre este ostentava erudição teológica, tanto no púlpito como diante de padres de Évora que vinham a mandado do Geral. Dizia que a felicidade humana, tão disputada e apetecida por todos, consistia em ser homem comum, estender-se sobre ervas e dormir a sono solto, exposto à multidão que passasse.

Era grande pregador, comparado por muitos a Antônio Vieira e Francisco de Sá. Fora expulso da Companhia de Jesus por estimar a liberdade, especialmente junto a mulheres, das quais tinha filhos bastardos”. 6[6]

 

NOTAS

 

  1. A Vida Espantosa de Gregório de Mattos. Pedro Calmon. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora/INL/Fundação Nacional Pró-Memória, p. 10, 1983.

 

  1. História da Companhia de Jesus no Brasil. Padre Serafim Leite. Rio de Janeiro, Vol. VIII, p. 36, 1949.

 

  1. Oração fúnebre nas exéquias do Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Estevão dos Santos, Bispo do Brasil, a 14 de julho de 1672. (1672) Eusébio de Mattos. Rio de Janeiro, Revista de Língua Portuguesa, V. 25, set. p. 119, 1923.

 

  1. História da Literatura Brasileira, Antônio Soares Amora. São Paulo, Edições Saraiva, 9ª ed. p. 30, 1977.

 

  1. Florilégio da Poesia Brasileira, Varnhagen. Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, Vol. I, p. 252-255, 1946

 

  1. O Boca do Inferno, Ana Miranda. São Paulo, Companhia das Letras, 2ª ed. p. 313, 1995.
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    jornalista e professor. gilfrancisco.santos@gmail.com