Luiz Henrique Dias Tavares, entre a historiografia e a literatura

         



Por Gilfrancisco
O primeiro livro que li de Luis Henrique Dias Tavares foi em 1967, a História da Bahia, uma pequena brochura publicada pela Editora Itapoã, capa simples em duas cores, ilustrada com uma baiana com seu tradicional tabuleiro de quitutes, assinada por Carlos Bastos, escrito para o curso ginasial e adotado pelo professor Carlos Ott, na disciplina de Estudos Baianos, da 3ª série, do Instituto Central de Educação Isaías Alves. Eu adorava as aulas, principalmente quando o professor Ott falava sobre os movimentos revolucionários baianos e o Centro Histórico de Salvador, talvez por ter nascido no coração da cidade, na Rua J.J. Seabra nº77 na Praça dos Veteranos, em frente ao Quartel do Corpo de Bombeiros, e desde muito cedo conhecer o centro da cidade. Tivemos durante o ano aulas práticas, ou seja, visitas aos museus e igrejas das proximidades do Colégio: Largo de Santo Antonio, Cruz do Pascoal, Quitandinhas, estivemos no Instituto Nina Rodrigues - Pelourinho para visitarmos o Museu do Cangaço e vimos às cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros cabras do bando. Tínhamos também estudos em grupos na Biblioteca do Instituto, eu adorava freqüentar a biblioteca, às vezes matava aula para conversar com a jovem bibliotecária, Ivete Caldas, ainda normalista. Fui reencontrá-la dois anos depois na Universidade Federal da Bahia, estudando direito e trabalhando na secretaria do Instituto de Ciências da Saúde da UFBA. Depois de atuar como juíza em Teixeira de Freitas, hoje é Promotora, no Estado da Bahia. Foi desta forma que o professor Luís Henrique Dias Tavares entrou em minha vida para nunca mais sair. Homem simples, cuja voz, absolutamente correspondia ao corpo – pequeno, olhar límpido, com fulgores próprios, de fala mansa, gestos lentos, andar sem pressa, com seu coração de gigante.

Pessoalmente viria a conhecê-lo, seguramente em 1970, ano em que ingressei  na Reitoria da UFBA para trabalhar na Assessoria de Planejamento, com os educadores  Zaidê Machado Neto, Ana Maria Messedes, Etienete Góis, Romélia, Raimundo Vasconcelos, José Leal, entre outros. Sempre que ele entrava na sala para visitar um desses professores, encontrava-me lendo algum livro e isto chamou á sua atenção. Fez algumas perguntas; onde eu estudava de quem era filho, que carreira queria seguir e desta forma passou a me orientar sobre as coisas da Bahia, principalmente quando percebeu minha ligação com o Departamento Cultural, José Calasans e Nélson de Araújo. Esta amizade foi intensificada a partir de 1977, com a chegada da Europa de  Rose Folly, sua ex-aluna da UFBA para secretariar o Clube de Cinema da Bahia, do qual eu era tesoureiro. O professor Luiz Henrique tem por mim um carinho, uma ternura, uma generosidade impressionante, adquirida pela atenção que sempre lhe dediquei. Vejamos duas dedicatórias por ele assinadas:

 

“Ao Gilberto/que é um Anjo,/o/Luis Henrique/9.out.86.

                       (no livro, O Fracasso do Imperador)

                                   

                                               ***

 

            “Ao Gilfrancisco,/com o afeto do/Luis Henrique/30.junho.88.

                     (no livro, Comércio Proibido de Escravos)

 

Esse carinho e admiração se estenderam ao filho, o jornalista e também professor, Luis Guilherme Pontes Tavares. Minha primeira e única entrevista com o historiador foi muito prazerosa e conseguir extrair dele o necessário para cumpri a pauta. Era 16 de janeiro de 1990. Ás 15 horas cheguei à sua residência, edifício Paraguassu, Chame-Chame, endereço familiar por freqüentar o apartamento do professor e Procurador Geral da UFBA, Edivaldo Brito. Cheguei exatamente na hora combinada para a entrevista, agendada pela jornalista Cidélia Argolo, em decorrência do lançamento do livro Almoço Posto na Mesa (contos e crônicas), publicado pela Empresa Gráfica da Bahia – EGBA. A entrevista seria publicada na Revista da Bahia, não sei por que razão, o editor, Gustavo Falcón juntamente com Cidélia Argolo, editora das publicações da EGBA, acertaram com Margareth Lemos, editora Cultural, e a entrevista foi publicada, no 2º Caderno do jornal A Tarde, numa edição de janeiro, sem o devido crédito. Era do meu conhecimento um entrave com a secretária de Jorge Calmon, Lizir Arcanjo, coisa antiga da época do curso de Letras da Universidade Católica do Salvador, mas não me importei. Extrair dessa entrevista, um depoimento corajoso de Luis Henrique, e entre as respostas, a que mais me impressionou foi quando perguntei sobre o conto que dá título ao livro e ele respondeu na bucha: - “O conto Almoço Posto na Mesa escrito em 1970, esse foi um ano duro para todos os brasileiros, ano da ditadura do general Médici. Eu próprio sofri uma prisão no dia 1º de novembro de 1970. Vieram buscar-me às 4 horas da manhã, levaram-me preso para Narandiba em nome de nada. Cinco dias depois me soltaram, e o coronel que veio liberam-me, ele me disse que eu não procurasse saber, por que motivo tinham me detido. É um conto simbólico. Quem estar sendo autodevorado é o povo brasileiro, e quem autodevora o povo brasileiro é a repressão.”

 

II.

 

Luís Henrique Dias Tavares nasceu a 25 de janeiro de 1925 em Nazaré das Farinhas, cidade do Recôncavo Baiano, filho de Luis Dias Tavares que exercia, na cidade, o cargo de coletor estadual e da professora Elza Dias Tavares. Descende da aristocracia rural de origem portuguesa, cujo patrimônio de terras e engenhos se desfez com os tempos novos da energia elétrica e da industrialização. Alfabetizado por sua mãe, em 1933, aos sete anos iniciou o curso primário, concluindo quatro anos depois. Entre 1938/1939, cursou a primeira e segunda série do curso ginasial no Colégio Clemente Caldas, dirigido pelo professor e poeta Anísio Melhor. Aos quinze anos Luis Henrique já se encontrava morando em Salvador, cursando a 3ª série do ginásio no colégio Nossa Senhora da Vitória (Colégio dos Irmãos Maristas) e dois anos mais tarde concluiria o curso ginasial no Colégio Ypiranga. Entre 1945/1947 estuda no Curso clássico do Colégio Estadual da Bahia e conclui o bacharelado em Geografia e História em 1950 e colação de grau como licenciado em Geografia e História em março de 1952, após complemento de algumas matérias.

 

Em Salvador, logo se integrou ao grupo de jovens intelectuais da capital baiana, passando a militar no Partido Comunista até junho de 1952. O jovem Luis Henrique fez parte da redação ou colaborou em vários jornais e revistas ligadas ao PC: Seiva (1938-1952), Evolução (1944), O Momento (1944), Caderno da Bahia (1948/1949), Jornal da Bahia (1959), Revista da Bahia (1960-1967), Porto de Todos os Santos (1968). Em 1953, Luis Henrique Dias Tavares foi aprovado no concurso para professor do Ensino Médio do Estado da Bahia e passa a lecionar as disciplinas História Geral e do Brasil, no Colégio Estadual da Bahia. Entre 1955/1961, o professor Luis Henrique atuou como pesquisador educacional do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP, órgão ligado ao MEC. Em 1957 foi indicado pelo Departamento de História para substituir o professor Luis Viana Filho (por assumir função legislativa), na cadeira de História do Brasil da faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. Em 1961 pediu demissão do cargo que ocupava no INEP, após aprovação em concurso para Livre Docente da Universidade da Bahia, que incluiu prova oral, escrita e defesa pública de tese. Orientado pelo Mestre Wanderley de Pinho, escreve e defende com grande maestria, O Movimento Revolucionário Baiano de 1798, publicado pela Imprensa Oficial da Bahia neste mesmo ano. 

 

            Entre 1959/1969, esteve o professor Luis Henrique à frente do Arquivo Público do Estado da Bahia, ocupando a função de Diretor, a convite do Governador Juracy Magalhães. Em 1966, recebeu bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal para pesquisar em instituições lusitanas. Neste mesmo ano participa do VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado nos Estados Unidos. Entre 1977/1978 realizou na Inglaterra estágios de pós-doutoramento na University College London e na Unversity of London – Intitute of Latin American Studies (1985-1986 e 1990-1991), cujas pesquisas resultaram no livro Comércio Proibido de Escravos, publicado em 1988 com apóio do CNPq, para as comemorações dos cem anos da abolição.

 

Em 1968, Luis Henrique Dias Tavares, então diretor do Departamento da Educação Superior e da Cultura – DESC e também diretor do Arquivo Público do Estado da Bahia, participante e eficaz por sua gestão democrática, incomodou muito aos militares que reagiram invadindo o órgão público armados, para em seguida prendê-lo encaminhando-o a VI Região Militar onde prestou depoimentos. A arbitrariedade chegou a tal ponto que eles confiscaram para em seguida queimarem centenas de exemplares do livro Obras completas do Dr. Gregório de Mattos, que se encontravam no depósito armazenado para distribuição nas Bibliotecas e instituições culturais. Esta edição, publicada pela Editora Janaina, contava com a colaboração do Governo da Bahia, na forma de aquisição de exemplares. Luiz Henrique também é responsável pela direção de dois números da Revista Porto de Todos os Santos, publicada em 1968 pelo DESC, que dizia em seu editorial: “... vale como síntese programática, que indica a nossa disposição de aceitar e acolher várias tendências do movimento cultural, nas suas preocupações, sugestões, indicações e soluções, sem discriminar temas ou pessoas.”

Em 1969, juntamente com outros professores da UFBA, fundam o Curso de Pós-Graduação em ciências Humanas, sendo depois (1980-1982), coordenador desse Mestrado. Foram muitos os cargos assumidos pelo professor Luis Henrique no decorrer da sua vida acadêmica: Chefe do Departamento de História da Faculdade de Filosofia da UFBA durante quatro biênios, (1967-69; 1973-75; 1975-77; 1979-81), por diversas vezes assumiu os cargos de diretor da Faculdade, coordenador e vice-coordenador do Colegiado do Curso de História, até aposentar-se em 1991.

            Em novembro de 2005 e fevereiro de 2006, o Conselho de Cultura do Estado da Bahia, comemorou com destaque a passagem dos 80 anos de dois renomados historiadores baianos: Cid Teixeira e Luis Henrique Dias Tavares. As homenagens prestadas ao professor Cid Teixeira correram a 22 de novembro e falaram nessa ocasião, no auditório Nilda Spencer do CEC, sobre a vida e a época do homenageado, a professora Consuelo Pondé de Sena, residente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e os conselheiros Luis Henrique Dias Tavares e Waldir Freitas Oliveira.[1] A 7 de fevereiro de 2006, foi a vez de ser igualmente comemorada, a passagem do 80º aniversário do Conselheiro Luis Henrique Dias Tavares, sendo saudado por Consuelo Pondé de Sena e pelos acadêmicos Edivaldo Machado Boaventura e Waldir Freitas Oliveira. Após a fala de agradecimento ao homenageado a presidente do CEC, Eulâmpia Reiber, fez a entrega de uma placa de prata com palavras de gratidão da sociedade baiana, pela contribuição prestada ao longo de sua vida, como escritor, jornalista, professor e historiador.[2]

 

 

III.

 

Luis Henrique Dias Tavares tem participação significativa também no campo da educação. A sua contribuição em sido aproveitada pelos seus colegas do Mestrado em Educação da UFBA, quer pelo seu pioneirismo, quer pela fidelidade investigativa em Fontes para o estudo da educação no Brasil: Bahia. (1959) Neste mesmo ano, a  Editora Civilização Brasileira lançava a primeira edição da História da Bahia, hoje em 11ª edição, revista e ampliada, publicada pela Edufba/Editora Unesp, 2001. O livro nasceu em 1958, quando o professor Luis Monteiro que ministrava aulas de História da Bahia na Escola Normal, solicitou a Luis Henrique, jovem professor de História do Colégio Central da Bahia e da UFBA, que escrevesse uma História da Bahia destinada aos alunos do curso de Magistério. Este livro é resultante da experiência, pesquisas, vivência e estudos acumulados pelo professor Luis Henrique Dias Tavares, ao longo de sua trajetória como historiador. Sem dúvida e a única história da Bahia que permite um bom e correto conhecimento da evolução de nosso Estado.

 

 

Luís Henrique nome do ficcionista publicou: A noite do homem (contos, 1960), Moça Sozinha na sala (crônicas, 1961), Menino pegando passarinho (crônicas, 1964), O senhor capitão: a heróica morte do combativo guerreiro (novela, 1967); Homem deitado na rede (crônicas, 1969), Almoço Posto na mesa (contos e crônicas, 1990), Sete cães  derrubados (crônicas e conto, 2000), Como historiador assinava suas obras, com nome de batismo, Luís Henrique Dias Tavares: Introdução ao estudo das Idéias do movimento revolucionário de 1798 (1959), História da Bahia (1959), O problema da involução industrial na Bahia, 1895-1925 (1968), Curso de História do Brasil Vol. 1 (1971), História da Sedição intentada na Bahia em 1798 (1975), A Independência do Brasil na Bahia (1977), Manuel Vitorino Pereira, um político da classe média (1981), O fracasso do Imperador. A abdicação de D. Pedro I (1986), Comércio proibido de escravos (1988), O levante dos Periquitos (1990), A Conjuração Baiana (1994), Bahia 1798

[1] Sobe o historiador Cid Teixeira, ver artigo de Gilfrancisco. Revista Salvador Por Igual, nº1, junho, 2012. www.cultura&literaturabrasileira.blog/spot

[2] O Historiador Luiz Henrique Dias Tavares. Gilfrancisco (Entrevista) –

www.cultura&literaturabrasileira.blog/spot

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Jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia gilfrancisco.santos@gmail.com