Charles Darwin manda lembranças

         



Por Gerson Brasil
Em 24 de novembro de 1859, a editora de John Murray, em Londres, lançou um livro que deu crédito à ciência, afastando para sempre a crença em Deus criador. O escrito trazia a assinatura do naturalista britânico Charles Darwin; “Da Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”.

Darwin não sobreviveu para ver nascer a biologia, a medicina e derivativos, a saber, a virologia e circunvizinhança, mas estabeleceu que a seleção natural é um princípio constante na natureza, a determinar quem prossegue e quem fica para trás.

“Estou totalmente convencido que as espécies não são imutáveis, e que aquelas que pertencem ao que se chama o mesmo gênero são na realidade descendentes de outras espécies, por norma já extintas, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie são também suas descendentes. Estou ainda convencido que a seleção natural tem sido o mais importante, mas não único, agente de modificação dos seres vivos”.

Darwin não presenciou o novo lugar que a ciência viria ocupar com o advento do capitalismo (1860) e as novas formas de subjetivação, que seriam equacionadas por diversos saberes, especialmente o sociológico e jurídico, e também o da medicina e o da indústria farmacêutica. O que inclui pesquisas com vírus e com drogas para aliviar ou curar o sofrimento humano.

Mas, o naturalista deixou um recado singular. “O homem não pode produzir nem impedir as variações; pode apenas conservar e acumular as que se lhe apresentam. Expõe, sem intenção, os seres organizados a novas condições de existência e às variações que daí resultam”.

O coronavírus tem três variações e exibe uma particularidade: mesmo quando esmorece, não perde a letalidade, o que não acontece com os outros vírus. Os assintomáticos estão se tornando mais perigosos do que os infectados, quem sabe uma nova espécie, porque pouco se conhece sobre eles. Do mesmo modo que também pouco se sabe sobre os infectados curados. Fugir, quer dizer, evitar aglomeração, é o estratagema que vem sendo adotado, com melhor eficácia para combater o coronavírus, até agora.

O mesmo usado por sete mulheres, femininas e lascivas, e três jovens no Decamerão de Boccaccio, para fugir da peste negra da Europa. Se refugiaram num elevado de uma vila pouco habitada, e passaram a narrar histórias. Cem ao todo. Na décima novela, da terceira jornada, uma jovem, de 14 anos, que horas antes era casta, irritada com o cansaço do parceiro, extenuado, exige: “Rústico, se o seu diabo já está castigado e não mais lhe causa aborrecimento, o caso é que, a mim, o meu inferno não me deixa sossegada; por isso, bem avisado estará você se fizer com o que seu diabo auxilie a apagar a raiva do meu inferno, tanto quanto eu, com o meu inferno, ajudei a apagar o orgulho do seu diabo”.

Alibeque se casa com um espertalhão e sua história ficou estampada num ditado popular: “O serviço mais deleitoso que podia ser prestado a Deus era o de tornar a colocar o diabo no inferno”.

Boccaccio era realista, retratou a dolce vita das paixões, das traições, o amor mais carnal do que sublime e a hipocrisia da sua época, especialmente a dos religiosos, fixados na maioria das novelas do Decamerão. O isolamento de onde brotaram as novelas é o mesmo recomendado agora. Mas a vida em 1353 era bem diferente do que estamos acostumados, e Darwin sequer sonhava em nascer. 

Por isso, não é estranho que a vida pulse nos bares da periferia e em outros bairros, quem sabe na produção de novas espécies, mais resistentes. Darwin manda lembranças. No Youtube, La Dolce Vita, como ela é, diria Nelson Rodrigues. E Ron Carter passeia em The Shadow Of Your Smile.
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Secretário de Redação da Tribuna