O jornalista Aydano do Couto Ferraz

         



Por Gilfrancisco
Formado pela Faculdade de Direito da Bahia, desde jovem se destacou no movimento estudantil e cultural, ingressando no grupo de intelectuais denominado Academia dos Rebeldes, da qual faziam parte Jorge Amado, Edison Carneiro, Pinheiro Viegas, Dias da Costa, Alves Ribeiro, Guilherme Dias Gomes e outros. Em maio de 1934, Aydano Pereira do Couto Ferraz, entregou na Sede da Ação Integralista, o seu pedido de demissão, no qual atacava de maneira desassombrada os dirigentes do movimento, pois o demissionário foi um dos fundadores do núcleo na Bahia. De Salvador seguiu para a capital federal, onde se firmou como jornalista de prestígio, nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro. Faleceu em 6 de agosto de 1985, aos 71 anos vítima de derrame cerebral.

Jornalista e poeta baiano, nasceu Aydano Pereira do Couto Ferraz em Salvador a 9 de agosto de 1914, descendia de uma família tradicional baiana, cujo desembargador João Pereira do Couto Ferraz (primo do Visconde do Bom Retiro) era seu bisavô paterno. Muitos dos seus parentes tiveram participação nas lutas pela independência no Recôncavo Baiano. Desde jovem se dedicou ao movimento estudantil e cultural, ocupando com destaque a presidência da Associação Universitária da Bahia. Diplomado em Ciências e Letras, no antigo Ginásio da Bahia e em Ciências Jurídicas e Sociais em 1937 na Faculdade de Direito da Bahia, foi um dos integrantes da Academia dos Rebeldes, agremiação literária fundada oficialmente em Salvador no ano de 1930, da qual faziam parte: Jorge Amado, Edison Carneiro, Guilherme Dias Gomes, Otávio Moura, Sosígenes Costa, João Cordeiro, José Bastos, Dias da Costa, Walter da Silveira e outros. Em 1939, fixou-se no Rio de Janeiro onde se firmou como jornalista de prestígio tendo ocupado, entre outros cargos o de editor do O Jornal (RJ) e Tribuna Popular (RJ) durante a Segunda Guerra, e o de coordenador da redação do Correio da Manhã.

Em 1941, Aydano do Couto Ferraz cria o programa “Paisagens Brasileiras” para a Rádio Mayrink Veiga, programa diurno, levado as primeiras horas da manhã. No inicio do ano seguinte escreve texto juntamente com Anibal Monteiro Machado para Catálogo do artista plástico Augusto Rodrigues. E assume como técnico em assuntos educacionais do MES e técnico de comunicação Social do MEC. Editou as revistas Educação e Ciências Sociais (1959-1962) e Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (INEP-MEC), ambas em suas últimas fases, tendo que morar por dez anos em Brasília, onde se aposentou no Instituto Nacional do Livro.

Militância na Imprensa

Durante a atividade literária na Bahia e no Rio de Janeiro, Aydano do Couto Ferraz colaborou no Boletim de Ariel, de Gastão Cruls e Agripino Grieco, na Revista do Brasil (III fase) de Octavio Tarquínio de Souza e Aurélio Buarque de Holanda, na Revista do Arquivo Municipal do Departamento de Cultura de São Paulo (1939-1941), Diário de Notícias (RJ), Diário de Pernambuco, Voz Operária, Dom Casmurro, Diretrizes, Revista Acadêmica (RJ), Esfera, Vamos Ler!, Convivium, Flama (BA), Seiva (BA), ETC., Leitura, Revista da Semana, Tribuna Popular, Revista do Livro (Suplemento), Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, O Cruzeiro (RJ), Revista Universidade, n’O Estado de São Paulo, n’O Estado da Bahia, onde foi um dos seus redatores. Na verdade, Aydano colaborou em quase todas as revistas literárias de relevo ou editadas por jovens, além de trabalhar na editoria de economia e geografia da Enciclopédia Mirador Internacional, figurando naquela publicação como um dos seus assistentes técnicos.

Tribuna Popular

Em abril de 1945, em nome da Liga da Defesa Nacional durante a “parada do pesar” pela morte do presidente Franklin Roosevelt (1882-1945), Aydano do Couto único orador, dirigiu a palavra aos que participaram da “parada” explicando-lhes, o sentido extraordinariamente humano da homenagem ao “Amigos dos Povos”. No mês seguinte aparece o primeiro número do matutino carioca Tribuna Popular (1945-1947), dirigido por Pedro Mota Lima, juntamente com Aydano do Couto Ferraz, Álvaro Moreyra, Dalcidio Jurandir e Carlos Drummond de Andrade.

Com a decretação da anistia por Getulio Vargas, em abril de 1945, e a legalização do Partido Comunista Brasileiro, nesse mesmo ano, os antigos militantes comunistas puderam voltar a atuar. Surgiu assim a necessidade de um órgão de imprensa que servisse de instrumento para ampliar a ação do partido. Dentro desse quadro, ocorreu a fundação em 22 de maio da Tribuna Popular. Além de participar de campanhas em que se envolveu toda a imprensa do país, a Tribuna Popular caracterizou-se pela defesa constante do trabalhador.

O fechamento do regime, que resultou na cassação, em 7 de maio de 1947, do registro do PCB, e, em janeiro de 1948, do mandato de seus representantes, tornava cada vez mais difícil a existência do jornal. Segundo Aydano do Couto Ferraz nos primeiros meses de vida, o jornal atingiu uma tiragem de 123 mil exemplares.

Obra Poética

Ainda em Salvador, publicou em 1932 as novelas praieiras Apicuns, no dizer do crítico Carlos Chiacchio “são pequenas represas da água do mar, escondidas entre as matérias, a fulgurarem sob o sol, como uns (“rostos de joia sempre pulverizada e sempre recomposta…”) Aos seus vários trabalhos de ficção, novelas, no melhor dos títulos, chama-lhes de Apicuns, Aydano Ferraz. Desde logo é de ver que  se trata de um escritor regionalista. A vida pitoresca dos praieiros enche-lhe as páginas de surpresas ingênuas, observações felizes, tocantes enredo. É um desfile tranqüilo de tipos do mar. Do mar – encantamento e perdição dos pescadores. Do mar – poesia e tragédia dos namorados. Do mar – alegria e esperança dos poetas. Quando se abrem, as primeira folhas datilografadas dos Apicuns sente-se já que um pintor de marinhas está ali a nos surpreender com as suas distancias verdes de águas e os rebuliços brancos de espumas nas praias.”

Em 1935, Aydano lança o livro de poemas Cânticos do Mar, onde o jovem poeta idealista traça um panorama da realidade. Apaixonado pelo mar, contemplativo “que, mesmo na hora mais trágica por que já passou a humanidade, não cora ao afirmar”, segundo o amigo Edison Carneiro:

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Esta aletria de rever o mar sem tempo para a contemplação.

De vê-lo serenamente enquadrado no horizonte,

limpo de velas, de mastros e de ruído das dragas do porto.

– Um mar soberano, sem a vassalagem das ondas…

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Afastado durante bastante tempo da seara das letras, para dedicasse ao Partido Comunista, publica em 1983 mais um livro “Os poemas Perdidos e seu Reencontro”, belos poemas datados da Bahia, 1936, do Rio de Janeiro, 1938 e outros de Brasília, 1983, onde vamos encontrar a presença do mar da Bahia, do amor e da esperança.  São poemas românticos, afetivos cheios de intensidade. O seu amor aos homens, à justiça e à liberdade, esteve sempre presente em seus textos.

Portanto, Aydano Pereira do Couto Ferraz se realizou amplamente como jornalista, foi diretor de jornais e revistas, mas, sobretudo poeta. Em vida o poeta teve duas grandes vocações a poesia e a política.  E assim ficou a vida inteira, fiel à sua condição inicial, à sua primeira vocação.

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A poesia não morre.

Si uns poetas fazem títulos

e abandonam a musa num canto de redação

é natural que ela fuja e se revele adiante.

De manhã outros poetas recolherão a poesia

andando nas ruas calmas

como ela andava de noite nos tempos do romantismo.

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Segundo o crítico Osório Borba, Aydano do Couto Ferraz, mal se despede de uma juventude agitada, e traz do curso universitário do jornalismo na província, da liderança da tempestuosa política estudantil na Bahia, um espírito sério e forte que se afirma no ensaio, nos estudos sociológicos, etnológicos e particularmente africanistas. Mas não perdeu o dom poético, que esplende singularmente puro, espontâneo e rico de sensibilidade e de comunicação, lírica com as obscuras angústias coletivas, neste livro de poemas que não se sabe se será um dia editado. No seu acalanto de filho sussurra a voz grave e comovida do poeta:

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Mãe, contenta-te!

Que culpa tenho de haver nascido poeta?

É certo que vim do teu ventre.

Por mim já sofreste tanto

Que todas essas loucuras

Podes ainda esquecer

Contenta-te, mãe!

Não sou igual aos outros homens,

Igual aos teus próprios filhos.

Minha noite é diferente.

Diferente é minha emoção.

Diferentes são os meus olhos

Fechados e contemplando

         (…)

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Esses originais estavam num caderno de poesia de Aydano, que permitiu a sua leitura por parte do jornalista Osório Borba. Isso ocorreu em 1940 (Dom Casmurro. Rio, 27 de janeiro) e esses poemas só foram publicados em forma de livro em 1984.

Congresso Afro-Brasileiro

Livro O Negro no Brasil Foto: reprodução

Congresso Afro-Brasileiro

O 2º Congresso Afro-Brasilerio de 1937 realizado na Bahia em janeiro entre os dias 11 a 20, foi organizado nos mesmos moldes do de Recife, que muito contribuiu para a etnografia afro-brasileira, complementando, em alguns sentidos, as investigações principiadas no Recife. Os trabalhos apresentados no Congresso estão contidos no volume O Negro no Brasil, Editora Civilização Brasileira, 1940, com prefácio de Edison Carneiro e Aydano do Couto Ferraz, que relatam as principais fases do 2º Congresso Afro-Brasileiro e as suas iniciativas mais relevantes. Vejamos o sumário:

Deuses africanos e santos católicos nas crenças do negro do Novo Mundo (Melville J. Herskovits); Costumes e Práticas do Negro (Adhemar Vidal); Uma revisão na etnografia religiosa afro-brasileira (Edison Carneiro); O moleque do Canavial (Clóvis Amorim); Um sistema de referencia para o estudo dos contatos sociais e culturais (Donald Plersen); O Negro e a Cultura no Brasil (Renato Mendonça); Contribuições bantus para o sincretismo fetichista (Reginaldo Guimarães); O Ainham nos anúncios de escravos fugidos (Robalinho Cavalcanti); Culturas Negras: problemas de aculturação no Brasil e Nina Rodrigues e os estudos negro-brasileiros (Arthur Ramos); A raça e a classe na Bahia (Donald Plerson); A liberdade religiosa no Brasil: a macumba e o batuque e face da lei (Dario Bittencourt); O médico dos pobres e a Homenagem a Nina Rodrigues (Edison Carneiro); Influência da mulher negra na educação do brasileiro (Amanda Nascimento); Castro Alves e a poesia negra da América (Aydano do Couto Ferraz); Os Ministérios de Xangô (Martiniano do Bonfim);A concepção de Deus entre os negros Iôrubás (Ladipô Sôlankê); O negro e o espírito guerreiro nas origens do Rio Grande do Sul (Dante de Laytano); Documentos antigos sobre a guerra dos negros palmarianos (Alfredo Brandão); Danças negras no Nordeste (Manuel Diegues Junior); Presença africana na música nacional de Cuba (Salvador Garcia Aguero e Elogio de um chefe de seita (Jorge Amado).

O volume publicado contendo 360 páginas cujos textos estão em sua versão original, o que aumenta ainda mais o seu valor em repositório de documentação etnográfica e literária afro-brasileira. Portanto O Negro no Brasil é o resultado dos Anais do 2º Congresso Afro-Brasileiro.

Condenação

Em 1947, o líder comunista é. preso pela Ordem Pública e Social, apesar de já ter sido preso por crime de injúria contra as autoridades. Condenado por seis meses de prisão, com suspensão da pena por dois anos. Por sentença do juiz da 16ª Vara Criminal, Dr. Cristovão Breiner. O jornalista Aydano do Couto Ferraz havia sido  condenado a seis meses de prisão, determinando que a execução da pena fosse suspensa por dois anos. Em setembro do ano seguinte, a Comissão de Intelectuais de Solidariedade ao jornalista Aydano do Couto Ferraz, que é constituída, entre outros, Arthur Ramos, Josué de Castro, Edison Carneiro, Abelardo Romero, visitou-o no Quartel da Polícia Militar do Distrito Federal, onde se encontra cumprindo pena por delito de opinião.

Logo após divulgação de sua prisão a organização do 2º Congresso Brasileiro de Escritores, que se realizava em Belo Horizonte, em sessão plenária, aprovou uma moção de protesto contra a condenação do jornalista Aydano do Couto Ferraz. Vejamos a moção:

O 2º Congresso Brasileiro de Escritores, tomando conhecimento da condenação de Aydano do Couto Ferraz, delegado da Bahia a 6 meses de prisão – condenação baseada em dispositivos da Lei de Segurança que vem dos tempos da ditadura – resolve protestar energicamente contra esse fato que revela apenas a precariedade das instituições democráticas do Brasil de uma permanente vigilância na defesa das liberdades públicas.

O Congresso deseja acentuar que o Sr. Aydano do Couto Ferraz ao foi condenado por crime de imprensa, mas sim por haver publicado em seu jornal o nome do secretário da Presidência da República antecedido do título de professor entre aspas. Não constituindo o fato de injúria, recorreu-se à Lei da Segurança fascista para castigar o jornalista o intimidá-lo n exercício de sua profissão. O Congresso protesta contra o fato e ratifica e aplaude a conduta da A.B.D.E. do Distrito Federal que designou o advogado Clóvis Ramalhete, membro desta Assembleia, para acompanhar a defesa do congressista Aydano do Couto Ferraz, – Belo Horizonte, 14 de outubro de 1947.

Falecimento

Livro Os Poemas Perdidos e o seu Reencontro Foto: Reprodução

Em 1968 sob a coordenação geral da Aydano do Couto Ferraz, foi criada a coleção de obras intitulada “Os Brasileiros”, patrocinada pelo Departamento de Cultura do Estado da antiga Guanabara, destinavam-se a divulgar, sob a forma biográfica e de estudos simples de vida e obra de personalidades nacionais, estadistas ou cientistas que prestaram assinalados serviços ao Brasil ou à humanidade, mas cuja grandeza e realizações ainda são desconhecidas da juventude e dos brasileiros em geral. A coleção em formato de bolso tinha uma tiragem de dez mil exemplares. Vejamos alguns títulos: Visconde de Cairu, José Clemente Pereira, Joaquim Caetano da Silva, Pirajá da Silva, Arthur Neiva, André Rebouças e outros.

O colunista político Carlos Castelo Branco, informa em sua coluna de 7 de agosto de 1985 do Jornal do Brasil, a morte de Aydano em Brasília:

“O jornalista e escritor baiano Aydano do Couto Ferraz, companheiro de geração e de vida literária de Jorge Amado, foi enterrado ontem em Brasília, onde faleceu na véspera. Aydano teve destacada atuação no Partido Comunista Brasileiro, na fase da atuação legal, de 1945 a 1947, quando exerceu a direção do jornal Imprensa Popular, órgão de propriedade e de doutrinado velho PCB”.

Após seu falecimento foi publicado no Boletim do Conselho Federal de Cultura (RJ), a seguinte nota:

“O Conselheiro Herberto Sales, denotando profundo pesar, comunicou o falecimento, em Brasília, do poeta Aydano do Couto Ferraz, que pertenceu ao grupo de jovens baianos, constituído por Jorge Amado, Alves Ribeiro, Dias da Costa, Clóvis Amorim e outros, sendo um homem muito modesto, embora contasse, dentre seus admiradores, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Finalizando, o Conselheiro Herberto Sales agradeceu, ao governador José Aparecido de Oliveira, em nome do escritor Jorge Amado, inclusive, por todas as providências que tomou, para que Aydano do Couto Ferraz fosse devidamente atendido, por ocasião da sua enfermidade”.

Durante alguns anos Aydano viajou por países do mundo socialista, onde residiu inclusive na URSS, trabalhando na Rádio de Moscou. Tendo permanecido no PCB durante 22 anos, desligando-se em 13 de maio de 1957, em virtude do choque de opiniões dentro do partido. Há muitos anos residindo em Brasília, o poeta deixou viúva Mirtes do Couto Ferraz e  Claudia do Couto Ferraz, sua filha.

Publicações:

Apicuns. (novelas praieiras). Salvador, 1932

Cânticos do Mar. A Gráfica, 1935.

Os Poemas Perdidos e seu Reencontro. Rio de Janeiros, Editora Civilização Brasileira/INL, 1984.

A Luta do Símbolo. Brasília, Horizonte Editora, 1985.

Livro A Luta dos Símbolos Foto Reprodução
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Jornalista e professor universitário. E-mail: gilfrancisco.santos@gmail.com

Foto: Ascom Segrase