SAUDADES DO QUE SE FOI

         



Por Joselito Conceição
Final da década de 60, um grupo de adolescentes na Vila Operária da Boa Viagem, resolveu fazer um jornal mimeografado, algumas vezes influenciado pelo tom político do Pasquim ou pelos jornais e revistas da época e opinião de adultos como o açougueiro que se dizia comunista no tempo errado, os militares estavam à caça de comunistas, um dos amigos radialista, outro estudante universitário, eram influenciadores, de tudo a música tinha lugar especial, Caetano, Gil, Gal, Betânia, Vinicius, Tom Jobim,Santana, Jimi Hendrix, Beatles, tropicália, bossa nova, rock.

Costumava essa turma de jovens ficar reunida nos pés da admirável estátua do empresário Luiz Tarquínio, ou nos coretos da praça do colégio no centro da Vila Operária de belos jardins, creche, cooperativa de alimentos, loja, clube recreativo e até uma sub-delegacia.


O bairro era muito cheio de vida, mas nada podia ser comparado às delícias da Praia da Boa Viagem, de areia amarela na gostosa orla da Baía de Todos-os-Santos. Como havia emprego, o comércio era muito próspero a alguns metros de distância, no bairro da Calçada, várias lojas de confecções, tecidos, calcados, materiais de instalações elétricas e hidráulicas. Na Avenida Luiz Tarquínio, alguns pequenos bares muito bem frequentados, inclusive por uma pessoa folclórica: um negão forte, por vezes,detido na sub-delegacia pelos incômodos da sua embriaguez costumeira, torcedor do Vitória, dizia Leopoldo, “Preto sou eu, Vermelho é meu sangue, Vitória...! Marcava seus companheiros de torcida e chateava os adversários, mas ninguém negava que de fato ele era muito engraçado e inteligente. Não se podem esquecer tambémos ambulantes da época que costumavam andejar pelas sessões da Vila Operária vendendo,ovos, acaçás, verduras,e um vendedor de fato bovino que gritava de Roma e se ouvia na Boa Viagem “Fato gordo!”.


O Jornal do mimeografo, tinha uma turma com cerca de dez ou onze rapazes, poetas, músicos, atores, com essas afinidades pensaram e tentaram uma banda musical, tentaram.O jornal era produzido com crônicas, reportagens, entrevistas, um desses adolescentes levou a brincadeira tão sério, que tornou-se renomado Jornalista profissional, escritor bestseller, o universitário estudava tanto que sendo de família operária em tempos difíceis, a duras penas, fez pelo menos três excelentes cursos superiores, a veia musical não deixou por menos,uma amiga bem próxima tornou-se cantora profissional no Brasil e fora dele, outra nascida pertinho da Vila Operaria, filha de operário, veio morar na Vila e é hoje uma das cantoras mais famosa do Brasil mundo a fora. A Vila Operária da Boa Viagem sendo de pessoas de baixa renda, operários, viu sair dali, médicos, advogados, professores, militares, artistas famosos, produtores culturais, radialistas, showmen, jornalistas, trabalhadores comuns com muita vontade de vencer.

Foi uma Vila residencial das mais belas, bem organizada, com controle de acesso,vigilância própria, um legítimo condomínio fechado criado no final do século XIX, responsabilidade social do empresário fundador Luiz Tarquinio, quando o mundo nem sequer sabia o que era isso, no entanto um lamentável desejo de requalificação destruiu a praça e todo seu entorno, unidades residenciais da Vila foram derrubadas, o antigo colégio com arquitetura do século XIX destruído para ceder lugar a um moderno com modelo avançado. Quem conheceu a antiga Vila Operária, seus prédios, praça e colégio, diz que tudo foi um terrível equívoco, um verdadeiro desastre, quem vê hoje a Vila Operaria da Boa Viagem, não pode imaginar a beleza que era, já chamaram de favela o que foi considerado o mais belo “Condomínio fechado da America Latina”.


Interessante quando foi criada a Vila Operária, a vida religiosa tomava uma dimensão incomum com o aprimoramento de uma festa devocional das mais afamadas da Bahia na virada do último dia do ano para o primeiro do outro, uma embarcação construída pelas mãos dos devotos, a Galeota Gratidão do Povo era lançada ao mar para a procissão marítima do Bom Jesus dos Navegantes que já existia há muitos anos.


Os menos novos da Vila Operária, dirão o que já disse Cassimiro de Abreu:
“Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida,que os anos não trazem mais!”
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Diácono, jornalista e escritor