Há fissura no maciste da ciência?

         



Por Gerson Brasil
As controvérsias na ciência médica sobre medicamentos que combateriam o coronavírus vão mais além das palavras de Jair, mais próximo de maciste, ao afirmar estar bem,” muito bem, até com vontade de dar uma caminhada”, depois de diagnosticado com a doença e ser tratado com hidroxicloroquina e a azitromicina.

A mesma hidroxicloroquina que pesquisadores da Universidade de Albany, no estado de Nova York, não encontraram relação entre o uso do medicamento e a redução da mortalidade pela doença. Embora parte do corpus de cientistas avalie como positivo o emprego do medicamento para tratar a Covid. 

Na ciência moderna, diferentemente da medieval, as invenções técnicas levam ao florescimento da teoria. A invenção do telescópio no século XVII impulsionou a astronomia. Mas isso se deu porque foi estabelecido um corpus de conhecimento verdadeiro. Ou seja, estabeleceu-se uma verdade, admitida não só de modo intrínseco, como também pelo exterior. A verdade não reina per si e sim no ambiente em sua volta, na cultura, que também acolhe feitiçaria, maldições, charlatanismo, efusões, crenças imemoriais, às vezes a pegar picula com o conhecimento.

A ciência não acolhe a contradição dentro do seu arcabouço, infere a verdade e expulsa o erro, que ajuda a constituí-la. Estamos falando de um conjunto de regras, de métodos, definições, de técnicas e instrumentos, que dá conta de objetos, ou fatos da experiência pela razão.

A ciência não se ombreia com opiniões, achismos, nem relatividades, “pode estar certo, mas pode estar errado. E nem acolhe digressão, contradição e contrassenso plausíveis, como na literatura. Sofia, personagem de “O Século das Luzes”, Carpentier, operava de modo surpreendente. Ao proferir um calão, ele adquiria castidade. O próprio da ciência, sua pretensão, é dizer o que isto é. O discurso científico é positivista, mas temos observado, ultimamente, a negatividade. Sabe-se o que não deve ser empregado para combater o coronavírus, como no caso dos pesquisadores de Albany, mas não se sabe com que técnica, instrumento e teoria deve-se vencê-lo. Há pesquisas e estudos em andamento.

As drogas até agora inferidas são por aproximação, mas é bom lembrar da gestalt papal, a bula. Remédios já conformados embutem risco de diarreia, vômitos, náuseas, perda de visão parcial etc, como é caso do genérico Gliblenclamida, usado para controle do diabetes. No Ivermectina, o terror dos piolhos, e indicado como proteção à indesejável Covid, o efeito colateral inclui edema, urticária, febre e outras anomalias. Mas não há anotações sobre os efeitos causados em quem o toma sem o parasita.

Se há fissura no maciste do edifício da ciência, por certo não será Jair, a se ombrear com um certo João, que não precisava dormir para sonhar, tão pouco efusões, malabarismos e um sortilégio de especulações malsãs, a cingir o ruído.

 Os progressos da ciência moderna, com base em modelos matemáticos, técnicas e instrumentação avançada, são inegáveis, mas é preciso construir a convicção sobre o coronavírus, de tal modo que o sujeito fique convicto e não convencido. Pouco importa se a beberagem vendida nas ruas venha a incluir como cura à Covid, além, claro, da espinhela caída, asma e doidera.

 Aqui nos trópicos, observa o narrador de “las luces”, “a luz se coagula aos calores, desde o rápido amanhecer, num renovar de pestilências”. Mas isto não impede a ciência de garantir seu estatuto. Na URL https://ok.ru/video/1459433179723, Michel Douglas e Sharon Stone nos deixam de água na boca, em “Instinto Selvagem”, numa multitudinária lubricidade, antes da pandemia. Hoje, contam-se saudades e invejas.
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Secretário de redação da Tribuna