Misses, maiôs Catalina e tempos de pandemia

         



Por Diogo Tavares
Em tempos de isolamento forçado, toda proposta merece ser avaliada. E foi com este espírito que recebi do caro Roberto Macedo o convite numa rede social para a página Miss Universo 2020, evento que ele coordena e apresenta. Fiquei imaginando um concurso destes em tempos de pandemia, remetendo às minhas lembranças de criança, TV preto e branco e à válvula, que levava um tempinho para “esquentar” e ligar. As vezes só pegava com um sopapo e Bombril na antena.

Imaginei aquele velho formato, em que as misses desfilam primeiro com um traje folclórico representando sua procedência, seguida por uma apresentação em vestido de gala e, na sequência, o ponto alto, a apresentação com os “Maiôs Catalina”. Estes maiôs geraram desejos em milhões de moças e habitaram o imaginário de milhões de rapazes por décadas. Em nome do politicamente correto diremos de moças ou não moças e rapazes ou não rapazes, só para simplificar.

Então, chega aquela hora da apresentação. Cada miss dois metros distante da outra, formando uma fila de pouco menos de um quilômetro. Nada que a tecnologia não resolva. Também poderia ser uma live, com cada miss na sua casa. Mas, o mais importante, as máscaras combinando. Máscaras com Cruz de Malta para aquela representante da beleza lusitana, máscara com estampa de toalha de cantina do Braz para aquela típica italianinha e talvez uma máscara de renda para uma beldade sertaneja se apresentar ao som de “mulher rendeira”.


Antes que me acusem de forçar os estereótipos devo argumentar que eles eram a base dos antigos concursos de misses. Aí, vem a parte do desfile com o “vestido de noite” ou “de baile” e aquelas belezas de máscaras estampadas com detalhes em fios d’ouro.

Por fim o desfile de maiô e... máscaras! Vamos supor que no distanciamento ou via lives as máscaras pudessem ser suprimidas, evitando assim acidentes que a história da humanidade custaria a corrigir.
Então, eis as finalistas a falar sobre si. Livros que leram, hobbys, o que deseja para o futuro da humanidade? Uma miss em tempos de pandemia teria que se superar para cativar os jurados protegidos em suas capsulas de acrílico ou acompanhando remotamente de casa.

Talvez ao invés de livros, haveriam misses a citar as melhores lives, oscilando entre Ivete de pijama, Diogo Nogueira no forró ou Daniel com Roupa Nova. Tempo para ler teriam, mas as redes e os cuidados com a beleza demandam de empenho. E hobby, serve tirar selfie? E o futuro, o que desejar? Que tudo volte ao normal?

Me imagino no Porto da Barra ouvindo o amigo Jolivaldo Freitas comentando a beleza de colegas, em tempos idos, ostentando sobre aquelas areias corpos em “Maiôs Catalina”. Como voltar ao passado não vale como desejo para o futuro, não falarei das grandes misses, como a Marta Rocha que nos deixou recentemente. Tampouco imaginarei belas misses pós pandemia, suas máscaras combinadas e sua beleza remota. Mas, é certo, continuarei sonhando e, por isso, acreditando que enquanto houver esperança, beleza e entretenimento, nenhum placar de óbitos vai nos derrotar.

Mesmo que nos falte (ou nos sobre) bem mais do que duas polegadas para compreender a filosofia do Pequeno Príncipe, literatura preferia das misses pré pandemia, vale citar o personagem: você é eternamente responsável por aquilo que cativa, as pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes, a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar, é bem mais difícil julgar a si do que julgar os outros, todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso, é preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, quando a gente anda sempre em frente não pode ir muito longe, é preciso suportar duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas, é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou e, por fim, só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. Quem for candidata a miss que escolha a frase mais adaptável a estes nossos estranhos dias.
-------------------------- 
Escritor e jornalista